"Situação preocupante." Urgência pediátrica do Hospital de Gaia em risco por falta de enfermeiros

Todos os enfermeiros do Serviço de Urgência Pediátrica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho já pediram escusa de responsabilidade, realçando que não estão asseguradas todas as condições de segurança para trabalharem e que a margem de erro é aumentada de forma significativa pela sobrecarga dos profissionais em atividade.

PorCatarina Maldonado Vasconcelos e Cátia Barbosa
© Artur Machado/Global Imagens

O Sindicato dos Enfermeiros (SE) afirma que o atendimento e a prestação de cuidados de enfermagem estão em risco de rutura no serviço de urgência pediátrica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. Em causa está a falta de enfermeiros, refere o sindicato, no comunicado enviado à TSF.

Pedro Costa, dirigente sindical, descreve uma situação de "sobrecarga de turnos por um número limitado de profissionais" em que fica em risco "a segurança dos doentes e a qualidade na prestação de cuidados de enfermagem", e dá o exemplo de, entre 8 e 22 de janeiro, metade dos enfermeiros terem estado de baixa, infetados com o coronavírus SARS-CoV-2. "A situação tem vindo a degradar-se e atingiu em janeiro dimensões preocupantes, face ao elevado número de enfermeiros de baixa ou com horários limitados", aclara o comunicado.

A somar-se a esta escassez de mão de obra está o aumento da procura da urgência, acrescenta o sindicato.

"Dos 21 enfermeiros adstritos a este serviço, dois têm horário flexível com horário de amamentação, outro tem horário de parentalidade com isenção de noites e dois enfermeiros têm mais de 50 anos e, por isso, estão isentos de realização de trabalho noturno", explica o presidente do SE. Há ainda três enfermeiros de baixa há mais de dois meses".

Apesar de a situação se ter agravado com a pandemia, o presidente do Sindicato dos Enfermeiros diz que a falta de profissionais no Hospital de Gaia é um problema já antigo. Pedro Costa sublinha, em declarações à TSF, que esta realidade pode resultar em falhas no atendimento aos utentes. "Sem profissionais, não existe atendimento, e estamos a falar de uma urgência pediátrica, que atende crianças e jovens até aos 18 anos. Numa altura em que não sabemos que o foco de atenção está também virado para os jovens e para as escolas e para os alunos, temos um serviço que abrange uma área extremamente grande com 50% dos seus enfermeiros ausentes."

O representante dos enfermeiros salienta que pode decorrer desta falta de profissionais um "atraso no atendimento e até uma ausência de resposta aos cuidados de saúde de que a população precisa".

"Uma equipa reduzida em 50% é claramente um grito de alerta de que algo não está bem", reivindica. Pedro Costa alerta ainda para a "incapacidade na contratualização de enfermeiros" por parte da administração do Hospital de Gaia. "A própria administração já esteve reunida com os colegas e diz que não tem capacidade de contratualização. As contratualizações são extremamente centralizadas e burocráticas", assinala.

Ouça as declarações de Pedro Costa.

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A quantidade de enfermeiros disponíveis é "claramente insuficiente" mediante um quadro pandémico de pico, lembra ainda.

De acordo com a Ordem dos Enfermeiros, cada um dos três turnos ser assegurado por um mínimo de quatro enfermeiros, mas "isso só acontece porque há colegas que fazem cada vez mais horas extra". O sindicato diz haver uma necessidade urgente de oito enfermeiros, para serem atingidos "os níveis mínimos de funcionamento deste serviço".

Pedro Costa esclarece que os turnos têm sido assegurados em horas extra, "o que resulta numa sobrecarga da equipa, deixando os colegas exaustos e completamente desmotivados".

"Este é mais um caso em que as administrações hospitalares estão de mãos atadas", sustenta o SE. "Por mais boa vontade que exista da parte da administração, os pedidos de novas contratações esbarram sempre nos gabinetes do Ministério da Saúde."

Rui Guimarães, presidente do conselho de administração do Hospital de Gaia, desmente que existam estas dificuldades e atribui responsabilidades às pessoas que procuram a urgência de pediatria sem serem doentes urgentes.

"A nossa urgência de pediatria sofre de um mal que diria que é geral que é o facto de só 61% das crianças que vieram desde que iniciou o ano serem consideradas não urgentes. Há uma sobrecarga de utilizadores que não deviam procurar a urgência e que, obviamente, acaba por pesar nos profissionais", explicou à TSF Rui Guimarães.

O responsável sublinha ainda que as equipas de enfermeiros têm vindo a ser reforçadas.

"Já reforçámos com mais um elemento os turnos da urgência de pediatria. Temos também, desde dia 22 de dezembro, um novo internamento de pediatria que funciona de forma vertical com o serviço de urgência, fazendo com que haja mais facilidade para os enfermeiros do internamento de pediatria poderem também colaborar com a urgência de pediatria para haver uma gestão mais racional dos recursos. Quando falamos que faltam profissionais, isso é um lugar comum que damos habitualmente, mas só o Centro Hospitalar de Gaia e Espinho contratou desde 2015 cerca de 400 enfermeiros e durante a pandemia foram contratadas 400 pessoas só no âmbito de contactos Covid", acrescentou o presidente do conselho de administração do Hospital de Gaia.

Ouça as declarações de Rui Guimarães à TSF

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Todos os enfermeiros do serviço de urgência pediátrica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho pediram escusa das responsabilidades, vincando que "não estão asseguradas todas as condições de segurança".

Na próxima sexta-feira, o Sindicato dos Enfermeiros vai reunir-se com a urgência pediátrica do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho para avaliar o que pode ser feito para inverter a situação. A administração hospitalar, contactada pela TSF, promete para o início da tarde uma tomada de posição sobre este assunto.

* Atualizado às 14h53
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