Antes de enfrentarem o mundo real, aprendem a crescer nestes apartamentos

Os apartamentos de autonomização da SCML acolhem jovens que estejam à guarda do Estado, ajudando a fazer a transição entre os lares de acolhimento e o mundo real.

Marcelo, Ronilson e Fábio partilham casa, num apartamento de jovens igual a muitos outros em Lisboa. Além de viverem juntos, estes jovens têm mais uma coisa em comum: estão à guarda de uma instituição.

"Já estou nos colégios - institucionalizado, é assim que se diz - desde os meus dez anos, conta Marcelo Silva de 19 anos.

O jovem vive neste apartamento de autonomização há três anos. Antes, passou pela Casa da Alameda, uma residência de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). "Eu gostava de estar lá na instituição porque a minha pessoa foi sempre de estar a conviver com pessoas. No colégio a gente conversa, histórias de vida. Era 'ganda' cena."

Marcelo andou entre o lar e a casa da família mas acabou por escolher ficar na instituição. "Em casa, as coisas não são fáceis. As coisas não são fáceis. Aqui a gente tem tudo, a gente tem apoio e apoio é essencial para seres bem-sucedido na vida".

Depois da Casa da Alameda, passou para um apartamento de autonomização e aprendeu a organizar-se sozinho. Ir ao centro de saúde sozinho, ir às compras, tratar do cartão do cidadão. "Aqui, eu tenho de fazer tudo. Aqui tenho que marcar as minhas consultas, tenho que ver o que vou comer, tenho que ver se como peixe".

Um degrau antes do mundo real

Os apartamentos de autonomização da SCML pretendem ajudar jovens a fazerem uma transição mais suave entre os lares de acolhimento e a vida adulta do mundo real. Não há elementos da equipa técnica a residir no apartamento mas todo o processo é acompanhado por uma equipa constituída por educadores e por psicólogos.

Margarida Cruz, diretora da equipa técnica de apoio aos apartamentos de autonomização da SCML, explica que o acompanhamento aos jovens é feito de uma forma regular, de acordo com o perfil, com o processo e com a fase de vida em que cada jovem se encontra.

A instituição tem dez apartamentos para jovens entre os 15 e os 25 anos que devem ter características específicas. "Acima de tudo, esta capacidade de autorregulação, alguma maturidade no sentido de conseguirem colocar-se a eles próprios no centro do seu projeto de vida e estarem muitos focados no que é o seu futuro".

A Misericórdia atribui um subsídio de cerca de 390 euros por cada jovem para o pagamento de despesas relacionadas com a casa, alimentação e passe de transportes "para que eles assumam estas responsabilidades".

Durante a avaliação das candidaturas, a equipa tem especial atenção às competências sociais e relacionais, até porque viver num apartamento implica estar em permanente relação.

Espaço para sonhar

Ronilson Paulo gosta de partilhar casa com Marcelo e Fábio. Aos 22 anos está a terminar um curso profissional em técnico de audiovisual. Dedica-se à música e à realização de videoclipes num estúdio improvisado que tem no quarto. No meio musical, é mais conhecido por Rony Fuego.

"Gostamos do mesmo estilo de música e nos damos bué da bem", conta Ronilson, garantindo que só surgem problemas quando "alguém deixou a loiça e não quer lavar".

Ronilson nasceu em Angola e veio para Portugal há cerca de cinco anos à procura de melhores condições de vida. Os lares da Misericórdia fizeram sempre parte do percurso em Lisboa.

Entre a escola e os projetos de música, Ronilson sente que o apartamento de autonomização permite-lhe cumprir sonhos. "Aqui eu consigo seguir os meus objetivos. Tenho mais ajuda. Tenho mais condições para fazer o que eu quero, seguir os meus sonhos e completar os meus objetivos".

Marcelo concorda e acrescenta que o apartamento tem sido importante para aprender a crescer. "Eu aprendi muita coisa. Eu aprendi a ser mais calmo. Aqui as pessoas ensinaram-me a ser mais calmo, a compreender as coisas. Pensar antes de fazer as coisas. Responsabilidades".

No apartamento sentem-se em família e fazem projetos para o futuro. "Espero ser bem-sucedido, ter uma família normal. Quem sabe. Nada de mais".

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