António e Amélia Barbosa




(Rui Manuel Fonseca/Global Imagens)
peregrinação

António e Amélia guardam o Caminho de Santiago à espera de peregrinos que não chegam

Amélia e António Barbosa, de 83 e 85 anos, guardam o Caminho de Santiago, que lhes passa à porta em São Romão de Neiva, Viana do Castelo. Há quatro anos, a Junta de Freguesia incumbiu-os de carimbar as credenciais dos peregrinos que, até à pandemia, passavam aos magotes a cerca de 50 metros de sua casa na Travessa das Minas. Desde aí, o casal de octogenários já assentou o carimbo na credencial de cerca de 10 mil pessoas (números da autarquia) e viveu estórias que "dão para rir e para chorar" com gente vinda de todo o Mundo. "Há pessoas que passam aqui, que nós temos dificuldade em as compreender. E apenas por gestos conseguimos chegar lá", conta António Barbosa, homem culto e respeitado na freguesia, que se orgulha da missão que lhe foi pedida. "É sempre muito gratificante receber aqui pessoas que a gente nunca viu, que nunca encontramos. É a primeira vez e última", comenta.

Em casa, António e Amélia, guardam, além do carimbo, recordações dos muitos peregrinos que ali foram passando e seguiram caminho gratos ao caloroso casal da Travessa das Minas. "Uma jovem de 22, russa, chegou aqui já muito tarde, era difícil ela ainda chegar a Viana e nós demos-lhe dormida. Entretanto, ela comeu, tomou banho, dormiu, e de manhã pôs-se a pé quando quis, tomou chá e umas bolachas e foi-se embora", relata o guardião Barbosa, continuando: "Ela levou a nossa direção e passado mês e meio, dois meses, enviou um email a dizer que tinha chegado a casa, que estava tudo bem e que agradecia tudo o que fizemos por ela. E deixou um convite para eu ainda poder ir a Belgrado".

Gratidão é a palavra dos peregrinos para António e Amélia, que os recebem de braços abertos. Carimbam, ajudam a tratar pequenos feridas e até já aconteceu transportar alguns para o hospital, quando os ferimentos o exigem. Dão dormida, água e comida se estiver à mão. "Uma vez vinha no jardim com uns tomates. Vieram duas [peregrinas] direitas a mim, não sei de onde eram, e começaram a comer neles, assim crus, e lá foram à vida delas", descreve a alegre Amélia, denotando que a passagem dos peregrinos de Santiago à sua porta é um corrupio de emoções.

"No verão, às vezes dá para rir e dá para chorar. Uma vez passou aqui uma senhora, que tinha 83 anos e era alemã. Eu vi-a com o saco às costas, mas um saco grande, e disse-lhe: 'ó meu Deus eu não posso mexer as pernas e você ainda leva um saco às costas. Conta ir a Santiago?'.

E ela respondeu: 'vou, sim Senhora'. Olhe que até me vieram as lágrimas aos olhos", recorda.

Por estes dias, António e Amélia sentem com tristeza o vazio do caminho, mas esperam à espreita na Travessa da Minas, pelo regresso dos peregrinos de Santiago de Compostela.

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