Aristides de Sousa Mendes ganha um lugar no panteão, mas ainda não tem museu
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Aristides de Sousa Mendes ganha um lugar no panteão, mas ainda não tem museu

Aristides de Sousa Mendes tem a partir desta terça-feira honras de panteão nacional. O antigo cônsul de Bordéus, que salvou milhares de judeus do Holocausto nazi, ganha a partir desta terça-feira um túmulo, sem corpo, no espaço que presta tributo a várias figuras nacionais, como Luís de Camões, Vasco da Gama, Infante D. Henrique, Amália Rodrigues, entre outros.

Os restos mortais do antigo diplomata vão continuar no jazigo da família, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, de onde era natural.

"Ele quis ficar aqui, junto da mulher, dos filhos, e quis ficar até junto de criadas que estão lá, e que considerava familiares e, portanto, julgo que seria um pouco contranatura e contra a sua própria vontade, se ele a quisesse exprimir, hoje fazer a transladação do corpo, desligá-lo do local que ele escolheu como a última morada e que é o jazigo familiar", afirma Luís Fidalgo, da direção da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

Para a organização, mas também para a família, as honras de panteão nacional são uma homenagem mais do que justa ao ex-cônsul de Bordéus.

"Dão uma visibilidade imensa à figura, tardia, mas sempre importantíssima para nós reconhecermos quem de nós, portugueses, pôs Portugal no mapa. E é um grande orgulho que Aristides de Sousa Mendes, pelos valores que representa, esteja no panteão nacional", salienta Luís Fidalgo, destacando que "ele é um herói feito na paz" que "só com uma caneta, com o seu esforço, decisão e com o carimbo conseguiu salvar milhares de pessoas de uma morte certa nos campos de concentração".

O gesto de Aristides foi encarado por Salazar como uma desobediência ao regime. O antigo diplomata acabou demitido de funções e morreu na miséria. O seu feito durante a Segunda Guerra Mundial valeu-lhe o título "de justo entre as nações".

Futuro museu ainda só no papel

A casa do ex-cônsul, em Cabanas de Viriato, esteve durante anos em ruína. Em 2014, a fachada do imóvel foi recuperada, assim como o telhado, evitando o colapso de todo o edifício.

Só o exterior tem cara lavada. O interior é um autêntico esqueleto. Restam paredes, uma escadaria monumental e alguns vitrais.

O portão da entrada principal está fechado a cadeado. Só é aberto para visitas marcadas.

"Estas paredes continuem a contar memória, memória do tempo, da família, da humanidade. Urge que a Casa do Passal se transforme rapidamente naquilo que é a verdadeira vocação dela", afirma o membro do conselho geral da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

Luís Fidalgo diz que é preciso avançar de vez com museu dedicado ao diplomata.

"O objetivo da fundação, e de todos nós, é que cada pessoa jovem, ou menos jovem que entre na porta desta cada quando sair vá mais enriquecido enquanto ser humano, mais alertado para os problemas da nossa existência", sustenta.

O projeto de requalificação e musealização da Casa do Passal está orçado em mais de 1,2 milhões de euros. As obras são da responsabilidade da Câmara de Carregal do Sal. A empreitada não teve interessados já por duas vezes, o que tem dificultado a execução do tão ambicionado museu.

"Eu acho sempre que é desta. Passaram aqui vários Presidentes da República, ministros, secretários de Estado, embaixadores e era naquele momento, mas depois as coisas acabaram por não se fazer. Espero que desta vez se faça alguma coisa", acrescenta o dirigente.

A intervenção que está pensada prevê o restauro do interior da moradia, com a manutenção de vários espaços, como as escadas, a adaptação do imóvel a museu, a construção de um auditório e de diversas zonas expositivas.

Na Casa do Passal viveram Aristides e a família, mas também vários refugiados que foram acolhidos pelo diplomata.

A residência do "justo entre as nações" é visitada por milhares de pessoas todos os anos. Por lá passam turistas nacionais e estrangeiros, a maioria oriundos dos Estados Unidos e Canadá.

"Há aquelas pessoas que vem sozinhas, também grupos organizados e que chegam aqui e ficam aqui bastante tempo só para respirar aquilo que as paredes desta casa lhe trazem à memória", conclui Luís Fidalgo.

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