As cartas de um país pobre e de um mundo em guerra

Histórias inéditas guardadas no santuário do silêncio.

Não são mais que 50 mil, as cartas que foram abertas e lidas, dos 8 milhões de missivas, que chegaram à caixa de correio do santuário da Cova da Iria. Este é um arquivo inédito de excecional longevidade. No Muro das Lamentações, em Jerusalém, também se colocam mensagens escritas em pequenos papéis, mas estes são destruídos antes de cada Páscoa judaica. Fátima manteve, por quase um século, um arquivo de pedidos de todos os tons.

Dedicaram-se a esta tarefa, os jornalistas António Marujo, diretor do jornal digital 7Margens, e Joaquim Franco, autor de reportagens sobre esta matéria, emitidas pela SIC.

Estão neste ror de mensagens, cenários do quotidiano de um país cinzento, marcado pela miséria social e política e sustentado por um regime autocrático, às mãos de Salazar e Cerejeira. A censura e o analfabetismo controlavam as fronteiras de um império colonial, com frentes de combate em Angola, na Guiné e em Moçambique. Destes palcos de guerra procediam os emblemáticos "aerogramas" dirigidos à Senhora da Azinheira. Muitos dos soldados, vítimas desses conflitos, haveriam de rastejar, em agradecimento, na "pista das promessas" do santuário, dito Altar do Mundo.

Lugar de preces pela paz, Fátima foi, desde o início das Visões, motor anticomunista contra uma Rússia ortodoxa, que a vidente Lúcia urgia que se convertesse, por programadas consagrações levadas a efeito pelos papas.

As cartas da Caixa de Correio de Nossa Senhora revelam ainda experiências de vida da emigração e dos povos sofredores das duas Guerras Mundiais e dos conflitos regionais, ocorridos nos cinco continentes. Abundam aqui referências à dureza da guerra civil espanhola e às perseguições sangrentas de Estaline aos crentes, na União Soviética.

Observa com rigor o autor deste livro que os papas que visitaram a Cova da Iria - Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco - sempre propuseram, aos peregrinos, reflexões sobre o dom maior da paz, contrariando a "obsessão pelas guerras", que caiu sobre o maior santuário mariano do mundo.

Muitas destas cartas são filhas da religião tradicional, do desespero de vidas, atravessadas por crimes escondidos, amores proibidos, saúde perdida e o medo da morte.

Esta é uma investigação que desvenda, pela primeira vez, um arquivo desconhecido. Aqui se propicia à antropologia, à teologia e à sociolinguística, um espólio documental e um manancial de dados, identificadores de histórias estranhas, contadas a partir dos mistérios guardados no interior de uma serra abandonada ao silêncio.

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