Avós aprendem a cair com quedas do judo
Marinha Grande

Avós aprendem a cair com quedas do judo

É um projecto inédito do Judo Clube da Marinha Grande, a pensar nos mais velhos. Cerca de 200 idosos estão a ter aulas de judo para prevenir as quedas, um dos principais "flagelos" da terceira idade.

Ramiro Ramos chega devagar apoiado numa bengala. Traz vestida a t-shirt branca na qual se lê "Avós (z) do Judo", usada nas aulas no Judo Clube da Marinha Grande, mas desta vez, senta-se no banco. "Gostava de fazer judo, mas caí e bati com o peito", lamenta-se, recordando que sentiu as "pernas a tremer" antes da queda, que o deixou "mais de uma hora a rabiar para chegar ao telefone". Com 88 anos, não é a primeira queda de Ramiro, tal como acontece com muitos seniores.

O presidente do Judo Clube da Marinha Grande, Rui Barreiros, fala num "flagelo" para os mais velhos e foi para prevenir as quedas dos idosos que nasceu o projecto "Avós (z) do Judo". A dar os primeiros passos, cerca de 200 idosos dos concelhos de Leiria e da Marinha Grande têm aulas semanais de judo. Aprendem "quedas do judo para evitar as quedas", além de exercícios para a flexibilidade e alongamentos. "Estão muito perros", descreve, com humor, a treinadora Sandra Saraiva, que ficou surpreendida com as dificuldades dos mais velhos. "Sentar no chão está a ser muito difícil", porque "nem as mãos conseguem pôr no chão". A pandemia veio "piorar" o cenário e a primeira vez que experimentam uma queda "é um choque, mas depois é super-fácil. Eles gostam de cair", conclui com um sorriso.

No tatami (tapete de judo), os Avós são desafiados a completar um circuito com exercícios para melhorar a flexibilidade, o equilíbrio e a coordenação, mas as quedas têm lugar de destaque.

Sandra Saraiva repete a lição várias vezes: cair como um "caracol com uma carapaça. Queixo ao peito, mãos à frente do peito", para não correr o risco de bater e fraturar os braços, "enrolar e não cair de chapa no chão". Primeiro sentadas no chão, depois no tapete de quedas e finalmente num banco corrido, as Avós (z) do Judo ensaiam quedas, em que acabam com risos ou gemidos, mas sempre de pernas no ar. Com uns joviais 90 anos, Maria de Jesus é a mais entusiasta. "Os ossos não aguentam", conta bem-disposta, mas "gosto de movimentos. Gosto de cair, dos pés no ar", tanto que "ainda se fazia mais!"

O presidente do Judo Clube da Marinha Grande admite prolongar o projecto, que quer chegar aos 350 idosos até Junho de 2023. Rui Barreiros adianta que se se "comprovar a mais valia", os Avós (z) do Judo podem ser alargados a todo o país, mas sempre com o apoio do Serviço Nacional de Saúde, porque "não podemos ser nós a fazer tudo".

A avaliação é feita pelo Instituto Politécnico de Leiria, com uma "bateria de testes" aos idosos no início e no final do programa. Os objectivos estão quantificados: uma melhoria de 30% na qualidade de vida dos seniores, embora Rui Barreiros recorde que "neste tipo de idade e neste tipo de pessoas, não piorar já é um ganho". O projecto está orçado em 150 mil euros, em grande parte financiados por fundos europeus, no âmbito do programa Portugal Inovação Social 2020.

Entre os Avós (z) do Judo, muitos têm mais de 80 anos, vivem em lares e frequentam centros de dia. À beira dos 80, Ana recorda uma queda que a deixou prostrada, sem conseguir levantar-se do chão, onde se preparava para passar a noite, até chegar ajuda. Agora, com a bengala por perto e com o apoio de Sandra, treina uma queda no tapete. Apesar de "mais confiante", confessa que ainda tem medo. Por causa dos ossos a ranger, "tenho de cair devagar", afirma entre gargalhadas.

Ao lado, Jacinta, 84 anos, sente-se "como nova" no final da aula. "Desenrasco-me", ri-se, enquanto rola no chão. "Tenho de rebolar primeiro para me levantar", explica entre incentivos da treinadora. "Fazem coisas que nunca imaginei que fizessem", conclui Sandra Saraiva.

A autora não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico

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