Cartão solidário permite escolher o que comprar. Comida foi a escolha de 94% das famílias carenciadas

Nem sempre o que se doa é o que mais se precisa. Projeto-piloto da Cruz Vermelha quis somar liberdade à solidariedade.

Os portugueses são, tradicionalmente, mais solidários no Natal. Todos os anos, multiplicam-se as campanhas que apelam a doações para ajudar as famílias mais carenciadas a festejar a época natalícia. A maioria das doações são de bens alimentares, mas e se os que mais precisam pudessem escolher o que lhes é oferecido? Na grande maioria dos casos escolheriam também bens alimentares.

Foi o que demonstrou a iniciativa "Cartão Dá", um projeto-piloto da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) em parceria com a Sonae, no primeiro ano de funcionamento, e só nos últimos seis meses, mais 900 famílias passaram a beneficiar da ajuda.

As mais de 4 mil famílias abrangidas recebem um cartão carregado com um saldo pré-carregado através de donativos. Esse saldo pode depois ser em compras nas lojas Continente.

Segundo a Cruz Vermelha, 94% das compras com este cartão solidário foram em produtos alimentares (dos quais metade em frescos e congelados), 5% em produtos de higiene e limpeza e apenas 1% em bebidas alcoólicas, segundo dados de junho deste ano.

As famílias podem de forma "mais digna, mais autónoma, fazerem as suas escolhas", destaca Ana Jorge, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, em declarações à TSF.

Aquando o lançamento, em 2021 (como uma solução para ajudar as famílias durante a pandemia), houve alguma resistência à ideia. "Havia o receio de que algumas famílias pudessem usar o cartão em produtos não essenciais, que é aquilo que, no fundo, consta de um cabaz de apoio familiar." Acabou por se revelar o oposto. O cartão "está a ser usado para foi criado, que é de facto apoiar nas necessidades básicas das famílias".

A comida continua a ser o bem mais necessário. Assegurar a alimentação é "complexo" para muitas famílias, afirma Ana Jorge, lembrando que crianças e idosos são especialmente vulneráveis ao risco de subnutrição.

Mas para manter uma casa não basta assegurar a alimentação. Uma família pode receber um cabaz alimentar mas faltar dinheiro para comprar produtos de higiene pessoal ou para fazer limpezas. E geralmente os cabazes tradicionais não incluem produtos frescos. "Se puder ter um cartão, a pessoa pode comprar, por exemplo, legumes e fazer uma boa sopa".

Outra vantagem: não são precisos armazéns para guardar os produtos doados, nem mobilizar voluntários para os distribuir por cabazes. Por outro lado, o Cartão Dá ainda não chega a todas as zonas do país, uma vez que só pode ser usado em lojas do grupo Sonae.

As famílias abrangidas pelo projeto-piloto foram escolhidas pela Cruz Vermelha e foram acompanhadas pela instituição ao longo do processo. "O contacto periódico com as equipas técnicas também ajuda muitas famílias a ultrapassar dificuldades", destaca Ana Jorge.

O saldo dos cartões varia consoante o tamanho do agregado familiar. São atribuídos 50 euros a beneficiários individuais, 75 euros a agregados com dois ou três elementos, 100 euros para famílias de quatro. Para agregados com mais elementos, será acrescentada uma percentagem de 10% por cada pessoa.

Para carregar estes cartões, os clientes de lojas Continente podem ser convidados a adquirir um vale na caixa quando estiverem a pagar as suas compras. São também aceites donativos através do IBAN PT50 0010 00005892 0750 0019 2, da referência multibanco - Entidade: 20 999 | Referência: 999 999 999 - ou do número de telefone 212 222 222.

Com o agravamento do custo de vida, verifica-se, por um lado, "uma redução de ofertas" e, por outro, "uma maior procura, com mais famílias a pedirem apoio", aponta Ana Jorge. "Neste momento, todas as doações são importantes, mesmo as menores."

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