Cientistas querem inclusão da ciência comportamental na gestão da pandemia

Investigadores sublinham que a mudança comportamental, quer individual, quer coletiva, é essencial na prevenção da transmissão da Covid-19.

Um grupo de cientistas enviou hoje uma carta aberta ao Governo e ao Presidente da República a alertar para a necessidade de incluir a ciência comportamental na gestão do agravamento da situação pandémica no país.

"Dada a situação extraordinária que vivemos, consideramos fundamental que a ciência comportamental seja considerada nos processos de tomada de decisão relativos à formulação de medidas de combate à Covid-19, bem como no delineamento dos planos estratégicos de implementação e comunicação das mesmas", lê-se na carta, a que a agência Lusa teve acesso.

O documento é subscrito por 68 cientistas, professores universitários e especialistas em ciência comportamental, tendo como primeira subscritora Marta Moreira Marques, investigadora na Trinity College Dublin (Irlanda), Centre for Behaviour Change-University College London (Reino Unido), Comprehensive Health Research Centre, NOVA Medical School (Portugal).

Na carta, endereçada ao primeiro-ministro, António Costa, à ministra da Saúde, Marta Temido, e ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, os investigadores expressam a sua preocupação face à ausência de especialistas na área da mudança comportamental em saúde, na gestão do recente agravamento da situação pandémica no país.

"As mais recentes estatísticas da pandemia em Portugal reforçam a necessidade e urgência da concretização do nosso apelo", defendem os cientistas, alegando que, apesar dos óbitos diários ultrapassarem os 200 nos últimos dias, a adesão às medidas de confinamento parece não acompanhar a aceleração da progressão da transmissão da covid-19 no país.

Citando a empresa PSE, que desenvolve estudos de mobilidade, afirma que no primeiro dia de confinamento, aproximadamente 33% dos portugueses aderiram ao confinamento, tendo havido um ligeiro aumento nos dias que se seguiram, "números relativamente baixos" face aos registados em março e abril de 2020 que rondavam uma média de 60%".

"Sendo a mudança comportamental individual e coletiva essencial na prevenção da transmissão da covid-19, bem como no sucesso do plano de vacinação, parece-nos fundamental que os especialistas nesta área sejam consultados, para que as decisões possam ser informadas pelo conhecimento científico sobre os fatores que influenciam o comportamento e formas eficazes de os alterar", defendem.

Para os investigadores, só desta forma se poderá "assegurar uma resposta de saúde pública à covid-19 baseada na melhor evidência sobre o comportamento humano, visando a proteção e promoção da saúde física, psicológica e social de todos os cidadãos.

A carta aberta, subscrita por 68 signatários, cientistas, professores universitários e especialistas em ciência comportamental, salienta "alguns pontos fundamentais" em que os especialistas em ciência comportamental podem contribuir para o controlo da propagação da covid-19.

Entre esses pontos, estão a elaboração de recomendações para "uma comunicação eficaz" das medidas baseadas em evidência, exemplificando que "a comunicação puramente baseada no medo e culpabilização pode ter resultados contraproducentes".

Desenvolver investigação sobre os fatores associados à adesão e não adesão aos comportamentos preventivos da transmissão da covid-19 é outra medida proposta, assim como "sintetizar e divulgar a evidência já existente sobre os fatores associados à adesão e não adesão aos comportamentos preventivos da transmissão da covid-19.

Os investigadores propõem também a criação de um grupo de trabalho em ciência comportamental e covid-19 que possa aconselhar os decisores políticos na gestão da pandemia.

Devido à covid-19, já morreram em Portugal 9.920 pessoas dos 609.136 casos de infeção confirmados.

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