Lisboa, 16/06/2021 - Hospital Santa Maria na enfermaria COVID 19 - Medicina 2 A. Sandra Braz (Diretora
Revista do Ano

Confinar, vacinar, retomar e duvidar: os verbos do ano 2021

Em 2021 assistimos ao pior nas camas dos hospitais, fomos os melhores do mundo a vacinar, decretámos o dia da libertação, mas constatámos outra vez que a pandemia não acabou.

Depois dos festejos da chegada da vacina, com direito a longos diretos televisivos atrás de camiões de carga, já não houve motivo para festejar a chegada do novo ano.

Os primeiros dias de 2021 puseram, outra vez, o país a fazer contas de somar muito. Um dia eram mais de dois mil os novos casos de infeção, no outro já passavam dos três mil e logo na semana seguinte esgotávamos o espanto ao constatar mais 10 mil.

O mesmo primeiro-ministro que nos permitira "salvar o Natal", condenava-nos agora a "voltar para casa".

Ainda estará nos pesadelos de alguns a imagem azul intermitente das dezenas de ambulâncias à porta do maior hospital do país. Nem Santa Maria valeu a tanta procura. As urgências rendiam-se à impossibilidade de saber até se era grave ou não o estado de cada paciente deitado em cada ambulância. Um retrato que se desdobrou igualitário por todo o país, com o vírus fiel ao princípio de que cada pessoa é boa para infetar e quanto mais fraca melhor.

No meio deste sufoco, o sobressalto das encomendas que se atrasavam, suspendiam ou chegavam diminuídas - as vacinas eram o salvo conduto para uma tranquilidade que chegava a muito poucos.

Os profissionais de saúde foram colocados no topo das prioridades, mas não faltou quem - tendo acesso - não encontrasse maneira de desviar umas vacinas para familiares ou amigos. No INEM do Porto as sobras vacinaram funcionários de uma ou duas pastelarias próximas, e alimentaram muita polémica.

Como se não bastasse, a Astrazeneca colocou-se sob suspeita de ter uma vacina que causava coágulos sanguíneos e obrigou os peritos de todo o mundo a verem e reverem casos e números adiando a vacinação dos mais suscetíveis.

Foi ainda no início do ano que os serviços de saúde do continente enviaram doentes Covid para a ilha da Madeira, recorreram a acordos com privados e até pediram ajuda à Alemanha.

Os noticiários mantiveram o rosário de novas vítimas diárias logo a abrir, mas os números de infetados e internados foram caindo, à medida que o número de vacinados e de centros de vacinação iam crescendo. Nasceu nesta fase o herói de farda.

Gouveia e Melo foi subindo de posto aos olhos do país, de tal forma que nunca mais saiu da ribalta. Passou meses a responder à pergunta se não queria afinal fazer o favor de concorrer ao mais alto lugar da nação. Que não, que não... até que chegou ao quem sabe se sim.

Graças ao vice-almirante, às vacinas e ao medo de morrer, em maio já estávamos a fazer praia. Mesmo com semáforos, lá espantámos o vírus com o calor e a brisa marinha.

Apoiados na muleta do certificado de vacinação, voltámos às salas de espetáculos, a comer fora ou a ir à bola. Luxos.

Setembro trouxe o recomeço do ano letivo e a discussão sobre se teríamos mesmo de usar máscara mais tempo.

Outubro abriu com o dia da libertação, bares e discotecas sacudiram o pó. Novembro trouxe a Ómicron.

Agora voltámos a não saber o que fazer do Natal, nem o que esperar do ano novo.

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