Coração de D. Pedro IV vai ser trasladado para o Brasil

As datas ainda estão por acertar entre o município do Porto e as autoridades brasileiras, mas o transporte terá de ser realizado "em ambiente pressurizado".

O coração do rei D. Pedro IV vai ser temporariamente trasladado para o Brasil em datas a acertar, confirmou esta quarta-feira o presidente da câmara municipal do Porto, Rui Moreira.

"É com enorme honra que anuncio que autorizo que o coração de D. Pedro IV de Portugal, e I Imperador do Brasil, seja trasladado para o Brasil, em datas a acertar entre o meu gabinete e o Palácio Itamaraty", anunciou o líder do executivo municipal, estando a iniciativa ainda sujeita a autorização por parte do executivo municipal.

A relíquia de 187 anos foi avaliada durante "mais de cinco horas", a 31 de maio, por uma equipa de cinco peritos das áreas da anatomia, medicina legal, genética e biologia forense, nomeados pelo Instituto de Medicina Legal, para atestar a segurança da iniciativa.

"O relatório de perícia ainda não está totalmente concluído, mas já nos foi assegurado que o coração de D. Pedro IV poderá ser transladado temporariamente para o Brasil, mediante a exigência de um transporte em ambiente pressurizado", revelou Rui Moreira.

A operação vai ficar a cargo da Força Aérea Brasileira (FAB), mas o autarca do Porto revelou que vai acompanhar o transporte do "importante tesouro da cidade", assegurando ainda que o vaso em que o coração se encontra esteja "devidamente selado".

A viagem vai implicar a apresentação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de "um conjunto de garantias legais", um compromisso de estado entre Portugal e Brasil.

Porto associa-se às celebrações

Rui Moreira revelou que o Porto também vai associar-se às celebrações dos 200 anos de independência do Brasil, organizando uma exposição sobre a presença de D. Pedro Iv na cidade com o nome "Pedro, a Independência do Brasil e o Porto", comissariada pelas professoras Conceição Meireles Pereira e Amélia Polónia.

Para setembro ficou também prometido um concerto no órgão renovado da Igreja da Lapa, bem como várias publicações, conferências e visitas.

A 30 de maio, o embaixador brasileiro George Prata, um dos coordenadores das comemorações do bicentenário da independência do Brasil, anunciou que o governo do seu país tinha enviado um pedido oficial a Portugal para a trasladação do coração de D. Pedro. Disse também que, se a trasladação fosse possível, a ideia é que, "em primeiro, o coração vá para Brasília", capital do país.

O rei D. Pedro I do Brasil e D. Pedro IV para Portugal foi o monarca que conduziu o Brasil, antiga colónia portuguesa, à independência e cujo corpo se encontra na cidade brasileira de São Paulo.

As chaves do tesouro

O coração que D. Pedro IV doou ao Porto não está guardado a sete chaves, mas são precisas cinco, mais mil cuidados e uma complexa operação para o retirar do mausoléu da igreja da Lapa, como aconteceu em 2009.

A descrição foi feita em 2013 à Lusa por Ribeiro da Silva, historiador e mesário da Ordem da Lapa, alertando para a fragilidade do coração do "Rei Soldado", que morreu em Queluz em setembro de 1834 e chegou ao Porto em fevereiro de 1835.

"Não podemos vê-lo porque o coração é órgão frágil e este tem muitos anos. Receamos que possa estar em estado precário. As operações são muito complexas, tudo isso agita muito e temos receio de um mau resultado. Tentamos que se abra o menos possível", observou o professor, em entrevista à Lusa.

Viagem não está isenta de riscos

A viagem do coração de D. Pedro IV até ao Brasil não está isenta de riscos, mas João Neto, diretor do Museu da Farmácia e presidente da Associação Nacional de Museologia, defende que há momentos históricos que justificam que se corram riscos.

Questionado sobre o que é preciso para garantir a segurança do coração do rei que liga dos dois países, o especialista assegura que há técnicas muito avançadas para o transporte deste tipo de peças históricas, mas começa por formular um desejo.

"Sobretudo que consiga não demorar tanto tempo no aeroporto de Lisboa, convém, isso é a principal situação, mas tirando aqui a brincadeira, hoje em dia já existem tecnologias imateriais que permitem o transporte de obras de arte e, sobretudo, peças únicas da história com alguma segurança. Claro que estamos a falar de uma viagem transatlântica que será por avião e é sempre um risco, mas julgo que há momentos históricos em que podemos arriscar um pouco porque estamos a falar de algo que une dois países: o coração, a alma, de uma pessoa que está ligada à história dos dois países. Há momentos da história em que temos de arriscar", explicou à TSF João Neto.

Seja como for, o especialista acredita que quem deu a autorização vai ficar com o coração nas mãos.

"É, sobretudo, uma grande tensão para quem autorizou e para quem, todos os dias, tem a tutela de preservar e manter para a posteridade. É sempre daquelas peças que quem é responsável por ela e a autoriza vai ficar com o coração nas mãos", acrescentou o presidente da Associação Nacional de Museologia.

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