Covid-19: taxa de letalidade é quatro vezes mais baixa que na 1.ª vaga, mas isso não é uma boa notícia

Médicos têm melhores armas para combater a doença, idade dos infetados também sofreu mudanças, mas especialista defende que queda da letalidade é, em grande parte, "artificial".

A taxa de letalidade da Covid-19, ou seja o número de mortos em relação ao número de infetados, está a ser muito mais baixa do que na primeira vaga da pandemia, mas os especialistas avisam que isso não é sinal de que se possa desvalorizar a doença ou que esta esteja menos agressiva.

Apesar das mortes pelo novo coronavírus terem atingido nas últimas semanas valores nunca vistos em Portugal, matando, desde o início do mês (até 25 de novembro) 1.620 pessoas, o número de infetados disparou a um ritmo ainda mais elevado (133 mil diagnósticos).

Pelas contas da TSF aos boletins da Direção-Geral da Saúde, se na primeira vaga, entre março e final de maio, a taxa de letalidade rondou os 4,34%, agora, desde o início de setembro, altura em que começou a segunda vaga, fica pelos 1,07%.

A Covid-19 está a matar cerca de 1 em cada 100 casos com diagnóstico positivo.

Idade e tratamentos

António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, diz que os resultados anteriores têm várias causas, mas acredita que a mais importante será "a idade dos doentes - na primeira vaga as pessoas com mais de 70 anos eram proporcionalmente muito mais".

Além do fator idade, o médico sublinha que "hoje temos mais experiência e conhecemos muito melhor a doença e temos abordagens terapêuticas mais eficazes com dois fármacos com indicação terapêutico para determinadas fases, nomeadamente o remdesivir e a dexametasona".

"É completamente diferente estarmos em março-abril, com um vírus novo, em que andávamos a tentar perceber como se comportava e como os doentes evoluíam. Hoje já sabemos muito mais e conseguimos perceber quais os casos que poderão constituir um maior risco, levando a uma atuação mais eficaz", refere.

Não é, contudo, razão para baixar a guarda pois a taxa de letalidade pode ser baixa, mas com tantos casos positivos a mortalidade, como se tem visto nas últimas semanas, está elevadíssima em termos absolutos, "com os hospitais cheios de doentes em cuidados intensivos", não havendo sinais de que o vírus esteja menos agressivo.

Pelo contrário, na última semana registaram-se, em média, em Portugal, cerca de 70 vítimas mortais com Covid-19, por dia.

Uma descida artificial

Em vez dos tratamentos e da idade dos infetados, o presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia destaca outro fator que na sua visão será o mais relevante para a descida, drástica, da taxa de letalidade: o aumento, igualmente drástico, dos testes realizados.

Paulo Paixão fala numa descida "artificial" da taxa de letalidade: "Os dados foram alterados tendo em conta que estamos a testar mais e a detetar muito mais infeções assintomáticas do que na primeira vaga".

O especialista sublinha que a taxa de letalidade pode levar as pessoas a dizer que "o vírus está menos virulento, mas o dado real, aquele que realmente interessa, é o número de mortos" e não a percentagem de vítimas mortais na comparação com as infeções.

"É bom que se fale nisto para que as pessoas e alguns negacionistas não digam que a doença está menos perigosa", avisa Paulo Paixão, que também concorda que hoje os médicos têm novos e melhores métodos, bem como mais experiência, para tratar os doentes com Covid-19, mas garante que "essa não é a mais importante razão para a diminuição da taxa de letalidade" do novo coronavírus.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de