Covid na linha da frente: a segunda vaga e as lições para o futuro
Covid-19

Covid na linha da frente: a segunda vaga e as lições para o futuro

Paula Coutinho trabalha no SNS há 42 anos. Médica intensivista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), tem estado sempre na linha da frente na luta contra a Covid-19 e abriu a porta de casa a um amigo, jornalista da TSF.

Paula começa a segunda parte da nossa conversa com uma pergunta: "Quando nós precisamos, verdadeiramente, dependemos de quem?". O jornalista ajuda na resposta: "Do SNS...". Acrescenta a intensivista: "E do Estado". "Quando foi mesmo necessário responder, fomos nós que respondemos, não foram os médicos alemães que vieram cá tratar de 16 doentes. Aquilo foi um bocadinho para a fotografia, não é?" "Nem foi levarem aqueles três doentes para a Madeira que resolveu alguma coisa, não é? Sejamos sérios: os três doentes que foram levados para a Madeira teriam sido tratados na mesma."

A idade não é um posto, e Paula Coutinho, 65 anos feitos, não quis saber o que diz o BI: "A meio disto, já não sei quando, um dos meus colegas dizia-me: "Doutora Paula, a senhora já não precisa de andar aqui. Não vale a pena". E eu respondia: "Mas porquê?". E eles nunca me diziam que era pela minha idade". Receando pela saúde da colega, temiam que pudesse ficar infetada: "Sim, sim. Foi isso. Aos 65 anos, sou um grupo de risco para todos os efeitos. Mas a verdade é que, em termos de trabalho, eu não tenho a noção de que a idade me impeça de alguma coisa. Por exemplo, eu faço 24 horas seguidas a trabalhar, e faço bem. Claro que a capacidade de recuperação não é a mesma que eu tinha quando era mais nova. Mas é preciso meter um cateter ou tratar de um doente às 3h00 ou 4h00 da manhã e eu faço tudo. Tenho capacidade para o fazer".

Mas há coisas para as quais não há um remédio. Entropias de um sistema que geram cansaço, que se foi acumulando ao longo de 42anos: "Acho que estou cansada de algumas questões organizativas, estou cansada de algumas administrações, acho que eram precisas direções clínicas mais interventivas e mais... clínicas". E menos administrativas? "Exatamente. Estou cansada de não haver uma planificação adequada, como penso que deveria existir, estou cansada de andar a lutar contra moinhos de vento e questões contra as quais luto há anos, coisas que tentamos fazer e planear e não podemos porque, normalmente, a resposta é "não há dinheiro". Agora o dinheiro apareceu, e gastou-se imenso dinheiro. Sabemos que, em termos médicos, foram muitos dias, muitas horas, muitas noites, gastou-se muito dinheiro, tinha de ser. Era preciso, apareceu dinheiro. E isso é bom. Conseguimos responder. Nós somos um país pobre, tínhamos um SNS depauperado, os hospitais estavam depauperados, aquele desinvestimento que vem de há mais de dez anos, desde o governo Sócrates, em 2008, mesmo antes da troika. Desde essa altura, o desinvestimento na saúde tem sido assustador."

Na conversa, puxamos a fita do tempo para a frente, volta-se à pandemia e ao momento em que as pessoas começaram a morrer. Paula Coutinho afirma que cedo começaram "a perceber que os mais velhos e os mais frágeis eram os mais atacados e abrangidos".

"Tivemos, imediatamente, imensos surtos em lares. E quando se fala na mortalidade nos lares, eu acho que temos de ser realistas e sérios. E eu acho que um dos dramas deste ano de pandemia, na minha opinião, foi a comunicação. E não estou só a referir-me à comunicação social, falo também da informação pública. A comunicação foi muitíssimo má. Passámos a ter horas infindáveis de diretos, passámos a ter demasiada ciência em direto, que foi coisa que nunca deu bom resultado. Acho que foi péssimo, por exemplo, dar em direto imagens do hospital, aquilo era tudo muito. Foi muito. Uma avalanche", critica.

"Teve uma vantagem, criou medo nas pessoas e as pessoas ficaram fechadas em casa. Teve essa vantagem. Não estou a dizer que é tudo negativo, teve, aliás, pontos muito positivos. Mas, depois, começou a haver... desculpa lá, mas eu tenho de dizer isto... uma quantidade enorme de espertos, os experts, tens espertos em tudo e mais um par de botas, tens todos os dias, há um ano, dezenas de experts a opinar sobre isto, aquilo e aqueloutro, e tens matemáticos a falar de mortalidade e escolha de doentes, e tens epidemiologistas a falar das escolhas que é preciso fazer, tens o que queiras: toda a gente opina sobre tudo. Quando isto passar, será importante fazermos uma reflexão sobre isto, "aponta.

Sobre a pressão a que a medicina intensiva foi sujeita pela constante divulgação dos números, considera que foi "horrível". A pressão dos números, aliada à pressão mediática, com as solicitações diárias dos meios de comunicação social, as imagens recolhidas há um ano mas que continuam a passar incessantemente. "Eu vi, há quinze dias, uma imagem da minha unidade, na primeira temporada". A verdade é que "estamos sempre a ver aquilo", desabafa.

"Tivemos uma situação que nos perturbou imenso e mudou a nossa forma de estar perante os jornalistas. Uma senhora que esteve muito tempo connosco na primeira temporada - agora está ótima, a fazer fisioterapia, já apareceu de novo na televisão e tudo, está maravilhosa -, naquela altura, estava péssima, e, certo dia ela estava em ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) e foi fazer uma TAC (Tomografia Axial Computorizada) e uma das imagens que passa repetidamente é uma vinda dela da TAC - a câmara apanhou a cara da doente, não está tapada, não está ocultada. O filho da senhora ligou-me a dizer: "Vi a minha mãe na televisão, ela está horrível". Isto foi aí em maio do ano passado e, para nós, foi uma lição. A partir daí, tudo passou a ser mais controlado. Passámos a ter muito mais cuidado", revela.

"Acho que não há necessidade desta intrusão permanente nas unidades de cuidados intensivos. Aquela história do viver e morrer, escolher quem morre, os números, as ambulâncias, cria um pânico que nunca existiu. Diziam: "está tudo fora de controle" - como naquela altura das ambulâncias em Santa Maria, quando, na verdade, nunca esteve fora de controlo. Eu tenho a certeza do que estou a dizer." Mesmo no Amadora-Sintra, quando faltou oxigénio, "nunca esteve fora de controlo, esteve difícil, mas não fora de controlo. Quando se precisou de transferir doentes, conseguiu-se, foram transferidos", afirma a médica.

A conversa para a TSF discorreu sobre quais os hospitais e regiões do país que estavam melhor e pior apetrechados para lidar com a pandemia na primeira vaga. Paula prefere chamar-lhe "temporada". Como se de uma série se tratasse. Mas daquelas tão más que não esperamos que venha uma terceira. A segunda já foi "muito assustadora". Apesar de ter havido tempo para a preparar. "Chegámos ao verão. E isto parou tudo. Eu acho que houve muitos responsáveis, políticos e técnicos, que acharam que isto tinha acabado." Mesmo quando era do senso comum que uma nova vaga poderia vir no outono/inverno? "Claro, mas a preparação foi: pode ser que não aconteça. Os planos de contingência estavam feitos, mas ninguém previu que ia ser desta dimensão". Nem os médicos intensivistas? "Nem nós. Eu sou otimista por natureza. Achei que, se tínhamos passado entre os pingos da chuva na primeira temporada, "agora também vamos passar". Mas logo em outubro começou-se a perceber que não íamos passar entre os pingos da chuva. E começou-se a perceber que eram números assustadores, cada vez mais, aquilo era exponencial". Os números não deixavam dúvidas: "Na primeira temporada tivemos, no máximo, 260 doentes em cuidados intensivos. Na segunda tivemos 960".

"Quando o Norte (ARS Norte) rebentou, aquele novembro tenebroso, principalmente no Hospital Tâmega Sousa, o Padre Américo, em Penafiel, foi horrível. Lembro-me que um dia, no CHUC, recebi dois doentes de Bragança, um de Matosinhos, além dos nossos. Aquilo foi assustador, e de uma violência, para nós profissionais, enorme. Eu nunca senti nada assim. Houve dias em que me sentia assustada... Mais, do que isso, foi a expressão em inglês: overwhelming. Aquilo era uma coisa que nos inundava por todos os lados, eram doentes por todos os lados. Abrimos uma terceira unidade e acabámos por abrir uma quarta unidade Covid, que começou a ser preparada no verão e ficou pronta em setembro, com o equipamento. Passámos de 10 camas para 42 e, mesmo assim, chegámos a ter 40 doentes internados e ventilados ao mesmo tempo. Houve planeamento, conseguimos fazer isso, com o esforço de muita gente", defende.

O amigo jornalista lembra-se dos bancos de urgência que Paula Coutinho fazia frequentemente. Agora foram mais? "Foram, muito mais. Tive colegas a fazer dez urgências - ou seja, a trabalhar 24 horas seguidas - num mês. Eu já não fiz tantas", explica, antes de dizer: "fiz oito, o que, para a minha idade, é muito." Agora, imagine-se o leitora ou a leitora, independentemente da idade, a trabalhar duas vezes por semana durante 24 horas por dia. Pode ser a uma terça e a uma quinta. O fim-de-semana pode, depois dessas jornadas, não ser uma coisa muito agradável... Paula pensa que "era a mais velha das pessoas que trabalhou em Covid".

A médica intensivista explica por que é importante retirar desta experiência, pela qual o país tem passado, lições para o futuro: "Já se percebeu que há áreas que são fundamentais. Isto é uma pandemia infecciosa, mas pode ser uma acidente de avião ou de comboio, uma catástrofe. Eu acho que isto nos ensinou a trabalhar em catástrofe, pelo menos a mim ensinou-me."

Em relação à evolução da medicina intensiva em Portugal, considera que é importante que a medicina intensiva cresça, "como outras especialidades cresceram, antes". "Eu sou muito otimista e acho que vou sair e passar à reforma numa altura em que me sinto muito segura com os meus colegas intensivistas que estamos a formar. Nós temos de saber para onde vamos em termos de instalações físicas, que equipamento vamos buscar e onde o vamos buscar, e acho que isso aprendemos. Pelo menos, aqui no hospital, já percebemos isso tudo. Outra coisa que aprendemos - e não sei se as administrações já aprenderam, creio que estão a desmontar demasiado depressa para o meu gosto, por exemplo, as unidades intermédias, que são fundamentais - foi que a medicina intensiva não é só aqueles doentes que estão ligados aos ventiladores, naquelas camas, virados de barriga para baixo."

A pandemia mudou a vida a Paula Coutinho? "Mudou, mudou. Passei a valorizar mais coisas extremamente importantes. Uma coisa tão banal como a minha noite de terça-feira, que deixei de ter. Era a noite da minha aula de pintura que, na verdade, era muito mais do que isso, era um momento de socialização. Faz-me falta. O teatro, o cinema, as viagens, tudo me faz falta. Faz-me falta ter a minha vida de volta. Fazem-me falta as viagens. Eu posso não ir, mas tenho a possibilidade de ir. Ter escolha. Eu deixei de ter escolha. Mas penso que isto é o que se passa com toda a gente. Mudou a vida de toda a gente."

E, admite, também mudou a sua vida no sentido em que percebeu que "está na altura de ir embora". "Estou cansada, isto cansou-me um bocadinho. Foi um ano muito duro." Vai embora por ter "direito" mas também porque se sente sem forças para "enfrentar tudo de novo, como a galinha e o ovo, num repetir de desgraças", como diz a canção "Longa Se Torna a Espera", dos Xutos & Pontapés? "Não, tenho a noção de que era capaz de fazer. Se fosse preciso, voltava a fazer, sem problema nenhum." Recentemente avó, Coutinho assegura que não vai deixar de ajudar e tomar conta quando for necessário, mas também não vai deixar de viver a sua vida. "Tenho de ir ver o "Nomadland"." Sobreviver na América. E à Covid. Na linha da frente. Em Coimbra.

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