Da leucemia rara aos 31 anos à ida a Fátima em 2021. "Nessas alturas, agarramo-nos a tudo"

Ricardo Martins recebeu o duro diagnóstico aos 34 anos. Agora, o sobrevivente de leucemia vai realizar uma caminhada entre Lagos e Fátima, com o duplo objetivo de cumprir a promessa por ter vencido o cancro e angariar cem mil euros para a casa de acolhimento "Porto Seguro", da Associação Portuguesa Contra a Leucemia.

"Nunca ninguém iria ligar a uma nódoa negra que está num pé." Ricardo Martins andava sempre "para cima e para baixo", como diz, "pendurado" nos barcos da marina de Lagos. O trabalho ocupava-lhe o tempo e a cabeça, que ignorava os primeiros sinais. "Andava sempre em cima dos barcos, e sempre descalço. Nunca liguei àquilo."

O rasto alastrou-se, incontinente, ao resto do corpo. O baço deixou de ter o tamanho de um punho para ocupar metade do tórax. Tinha dificuldade em filtrar as células mortas do sangue "e começava a inchar". Numa viagem a Lisboa, Ricardo Martins tinha de parar cinco vezes pelo caminho. "Se calhar já tinha sintomas há um ano e meio ou dois anos, só que eu trabalhava muito. Trabalhava dia e noite praticamente."

A "aversão a médicos" ajudou a adiar a ida ao hospital e a agravar a doença, admite. "Comecei a perder peso, tinha falta de ar... O médico disse-me: 'Se tu chegasses ao pé de mim daqui a duas semanas, eu já não tinha cura para ti. Não havia hipótese de fazer nada.'"

Os sintomas duravam há mais de um ano e meio quando chegou o diagnóstico. Com "a vida pela frente" e as ideias a fervilhar, a saúde apresentava-lhe um novo caminho sinuoso, bem diferente do planeado. "Disseram-me que tinha uma leucemia das células pilosas. Eu, com 31 anos... Dá para imaginar como me sentia... Cheio de projetos, ia casar, e, de repente, tenho uma notícia daquelas. A única coisa que eu perguntei foi quantos anos tinha de vida."

Ricardo Martins foi diagnosticado em outubro de 2004. Foi quando resolveu ir a Fátima e deixar uma promessa: "Ir uma vez por ano a Fátima, para acender uma vela." A segunda parte da promessa fazia parte de um segredo que foi guardando para mais tarde contar.

Um mês depois, em novembro de 2004, já estava a fazer o tratamento. "Tinha um sócio americano e ele queria levar-me para os Estados Unidos para fazer o tratamento lá, só que enviámos as análises e eles disseram que eu já estava num estado em que já não conseguia fazer a viagem", rememora, em entrevista à TSF.

Acabou por ser tratado no hospital de Portimão, mas o fármaco era ainda parcamente utilizado e havia algum desconhecimento sobre as reações no organismo. "Precisaram de pedir uma autorização ao Ministério da Saúde, porque fui o primeiro em Portugal a fazer aquele tratamento. A leucemia das células pilosas é uma leucemia rara, e o tratamento é bastante caro."

Às sessões de quimioterapia - com um medicamento enviado para a veia ao longo de 20 horas por dia - seguiu-se uma semana de internamento. "Era quase tratamento de choque. Depois, o nosso corpo leva uma transfusão. Eu levei duas..."

"Quando eu fiz o tratamento, ninguém sabia o que ia acontecer. Ao quinto, sexto e sétimo dia, aquilo atira uma pessoa para baixo, e aí vêm todos os pensamentos que uma pessoa não devia ter." Confessa que chegou a acreditar que morreria daquela "coisa rara que não se sabia o que era".

"Tenho a minha fé, e, nessas alturas, agarramo-nos a tudo"

Quando Ricardo Martins saiu do hospital, perdeu 10 kg em três dias. "Não podemos constipar-nos. Não podia certas coisas, porque podia morrer." No entanto, o empresário da área de náutica de recreio, de compra, venda e recuperação de barcos, acredita que a fé o ajudou a superar a doença rara. "Tinha muitos objetivos de vida na altura, queria avançar e estava no princípio. Foi o que me ajudou mais."

No ano seguinte, Ricardo Martins passou a ir a sessões à segunda-feira. Depois, passaram-se mais quatro anos até entrar em remissão, com os números nas análises sanguíneas a aumentarem a esperança de vida. O corpo dava sinais de luta e a mente também criava defesas para si.

O empresário já acendeu 16 velas em Fátima desde então, uma por cada dezembro. Agora, falta fazer-se à estrada. "A segunda parte da promessa era que, em 2020 - não me pergunte porquê 2020, foi a data que me veio à cabeça para fazer a caminhada -, ia de Lagos a Fátima. Por causa da Covid-19, não pude ir em 2020, e vou em 2021", revela.

A partida está marcada para sexta-feira e a chegada para 21 de maio. São mais de 340 km a pé, que podem ser acompanhados nas páginas de Facebook e Instagram da Associação Portuguesa Contra a Leucemia, porque Ricardo Martins resolveu usar a iniciativa para angariar para a APCL. "Estão com um projeto para ajudar famílias carenciadas que não conseguem ter onde ficar, quando vão do Porto e do Algarve para o IPO de Lisboa. Estão a construir um prédio. Têm dinheiro para construir o prédio, mas não para o equipar. Pediram-me para dar a cara pela iniciativa de angariar cem mil euros."

A angariação de fundos já está a decorrer e os donativos podem ser feitos aqui, através da plataforma Go Fund Me.

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