De Demóstenes a George VI e Joacine. Quem fala assim é gago

No dia internacional da gaguez, a TSF esteve à conversa com uma terapeuta da fala especialista na matéria e explica quase tudo.

Em setembro de 1939, a guerra contra a Alemanha nazi é declarada, e o rei George VI, de Inglaterra, no conforto do Palácio de Buckingham tem outro motivo para estar ansioso. Enquanto prepara o seu discurso para toda a nação, deambula pelos corredores dourados e ensaia um truque, também utilizado por Winston Churchill.

O rei inglês comunica então ao seu povo como a um amigo a inauguração de uma nova era que mudaria a História do século XX. "Ser ou não ser", o monólogo do Hamlet que o monarca lia enquanto ouvia Le nozze di Figaro, de Mozart, não se aplica à condição da gaguez.

O problema de fala, plasmado no filme de 2011, "O Discurso do Rei", compõe-se, na realidade alheia às produções cinematográficas, de fatores genéticos, neurológicos e até psicossociais. No dia internacional da gaguez, a TSF ouviu uma terapeuta da fala especialista na matéria.

Jacqueline Carmona começa por explicar que a condição não está relacionada com o susto: "Se sustos ou situações difíceis da vida provocassem gaguez, então, o número de pessoas que gagueja era garantidamente muito superior. Quem de nós, na infância, ou noutra fase da vida, não se assustou?"

Sobre a crença de que a gaguez pode ter origem na infância, quando uma criança recebe, no espaço que lhe pertencia, um novo irmão, a terapeuta da fala rejeita com convicção. Já vários tratamentos foram utilizados ao longo dos tempos, e Jacqueline Carmona lembra que muitos nascem dos mitos. "Essencialmente prende-se com a história de Demóstenes, um filósofo grego que, no pico da oratória, para conseguir falar, colocava pedras na boca no sentido de ser mais fluente."

Um orador nato, Demóstenes, a par com o George VI, de Inglaterra, provaram que a gaguez não é impedimento para a carreira política. Neste dia internacional dedicado ao problema na fala, a chegada ao Parlamento de Joacine Katar Moreira reacende o debate sobre os limites humanos e as variações na fluência do discurso das pessoas diagnosticadas. Jacqueline Carmona exemplifica: "Já estive com várias pessoas que, a cantar, também gaguejam. Depende do estilo de música, mas já assisti a pessoas a cantarem os parabéns e a gaguejar em simultâneo."

"A letra da música está predefinida, portanto não é a mesma coisa que uma conversa. Há vários aspetos a ocorrer em simultâneo que podem levar a que não se gagueje. Mas, por exemplo, como no rap há improviso, já não têm o mesmo resultado", destaca.

Jacqueline Carmona também salienta que, apesar de não haver uma forma concreta de sanar o problema, "relativamente a crianças, consegue-se bons resultados, mas não no sentido de 100% de cura". "Consegue-se ótimos resultados na adolescência, num adulto que se traduz em não se falar com tanto esforço."

E falar em esforço faz realmente sentido. "O esforço físico que, por vezes, nós observamos é real." Nestes momentos, como frisa Jacqueline Carmona, "há coisas que não ajudam". "Eu sei que, de repente, segundos parecem uma eternidade, mas terminar a palavra ou a frase das pessoas é algo de que ninguém gosta", conclui.

O rei George VI, Demóstenes e Joacine Moreira não são os únicos casos emblemáticos que se conhecem. Marilyn Monroe, Joe Biden, Bruce Willis, Winston Churchill ou Ed Sheeran, Mário Laginha, Raul Solnado e José Saramago também eram afetados pela dificuldade de fala. Mas, conforme explica Joacine Katar Moreira, não pela "gaguez do pensamento".

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