De porta em porta para combater a solidão dos mais velhos em Lisboa

O projeto Radar quer apoiar a população da cidade de Lisboa com mais de 65 anos, facilitando ajuda e serviços ajustados às suas necessidades. Além das entrevistas porta a porta, o programa prevê uma rede de apoio comunitário.

Todos os dias, André Viana sobe e desce escadas e elevadores de prédios um pouco por toda a cidade de Lisboa. Faz parte de uma equipa que percorre as prédios da cidade à procura de "pessoas com mais de 65 anos que residam sozinhas ou acompanhadas ou por alguém da mesma faixa etária em situação de isolamento, solidão ou outro tipo de circunstância que meta em risco a dignidade e a integridade física e psicológica da pessoa".

A equipa do projeto Radar quer encontrar os idosos que já não conseguem ir à rua, aos cafés, aos supermercados. André Viana fala de "pessoas invisíveis da sociedade", ou seja, idosos que estão em situações de isolamento e solidão extremas, e que hão saem de casa. "Há pessoas que há muito tempo - dez anos, vinte anos - que não saem do seu andar, da sua habitação, não têm um elevador ou no prédio já não residem vizinhos que fazem parte da rede social da pessoa, não têm família."

Na ronda pela freguesia São Domingos de Benfica, bateram à porta de Edgar Portugal. Foi sorte apanhá-lo em casa porque, depois da reforma, mais depressa está na estrada com a autocaravana do que em Lisboa. Confessa que não precisa do apoio do projeto Radar. "Aqui no prédio eu tenho ajudado muita gente. Estou muito bem visto aqui no prédio", explica com orgulho e acrescenta que "aqui por baixo de mim vive uma senhora de 80 e poucos anos, eu tenho a chave de casa, vou lá ver o que ela precisa. Outra vizinha do quarto andar que já esteve cá. Acompanho toda a gente que precisa do meu apoio".

Maria Oliveira, do prédio ao lado, espreitou antes de abrir. "Vi assim um grupo, vêm identificados e abri a porta. De outra maneira também não abriria.". Abriu e respondeu a um inquérito da equipa Radar que tem como objetivo conhecer o dia-a-dia da população com mais de 65 anos e perceber as dificuldades que têm. Depois do inquérito cada pessoa recebe um telefonema.

"Posteriormente à entrevista, é efetuada uma chamada por um técnico da Santa Casa para validar a entrevista e para perceber, mais aprofundadamente, se a pessoa necessita de algum tipo de resposta", explica André Viana, acrescentando que caso precisem de ajuda, são encaminhados para os serviços correspondentes na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Um radar vigilante em cada bairro

Além do trabalho a porta a porta, o projeto quer criar uma rede de vigilância local que funcionam como radares voluntários atentos a quem tem mais de 65 anos.

"Imagine uma situação de um senhor que costume ir todos os dias a um café ou a um estabelecimento do comércio local e, por alguma razão, deixou de o poder fazer, porque teve uma queda, porque se sentiu mal. Esta sensibilização deste olhar ativo, tendo um número informativo radar, que podemos denunciar a situação, de certa forma, previne certas situações", refere o técnico da SCML. "Qualquer pessoa, a partir do momento que tenha uma suspeita que alguém se encontra numa situação de risco, pode ser ligar sempre para o informativo radar e dar-nos a conhecer a situação."

O número é o 213 263 000 e qualquer pessoa pode ligar caso se aperceba que na zona onde moram há uma pessoa mais velha que possa sofrer de isolamento e quem tenha mudado de comportamento ou de aparência ou tenha mesmo deixado de aparecer.

Além do que cada um pode fazer, o projeto recruta pessoas na comunidade que possam estar mais atentas. José Ramos é uma desses radares. É dono de uma imobiliária e conhece bem a realidade da freguesia.

"O Radar é, no meu dia-a-dia, conseguir perceber uma fragilidade, perceber que essa pessoa não estará na melhor forma. Então aí temos de ter a capacidade de perceber se ela precisa de ser indicada aos serviços que possam prestar assistência."

José Ramos foi recrutado pela equipa Radar recentemente. Já começou a falar com os vizinhos e garante estar atento, sobretudo a quem vive sozinho. "Uma pessoa disse-me que o problema que tem é solidão. Tenho detetado outros problemas, problemas de alimentos, de pobreza envergonhada, existe isso. Então nós temos de saber lidar com estas situações."

André Viana garante que a presença dos radares voluntários tem sido essencial para fazer o projeto andar. "Há pessoas que vêm ter connosco, que acompanha-nos em prédios, que nos dizem onde se encontram pessoas que precisam de um suporte. Tem sido muito importante a ajuda da comunidade."

A equipa Radar conta também com a presença da polícia de segurança pública. "Devido às constantes burlas que existem e os assaltos nas freguesias as pessoas são mais reticentes em a abrir a porta daí a importância fulcral do acompanhamento da PSP para transmitir segurança à população."

A maior parte das pessoas que André Viana tem encontrado estão bem e ainda a fazer uma vida ativa mas também há casos mais preocupantes.

"Tem havido situações extremas, relativamente a violências domésticas, pessoas que não saem de casa há bastante tempo porque não têm como o fazer, pessoas que não têm dinheiro para alimentação, para cuidados de higiene, não têm como pedir ajuda aos serviços e não sabem como fazê-lo."

Até ao momento, as equipas Radar já fizeram mais de 12 mil entrevistas e contam com 800 radares comunitários. Os primeiros dados conhecidos, depois do trabalho nas freguesias dos Olivais, Areeiro e Ajuda, mostram que as maiores carências são ao nível da limpeza da casa cuidados de saúde, dificuldades económicas e fazer tarefas da vida diária.

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