Distanciamento social pode durar "muitos meses"
Covid-19

Distanciamento social pode durar "muitos meses"

"Nunca se tentou fazer uma intervenção de saúde pública com efeitos tão disruptivos na sociedade durante tanto tempo", avisam investigadores que concluem, contudo, que neste momento não há outra hipótese.

É provável que as medidas de distanciamento social em larga escala que têm sido implementadas para evitar que seja ultrapassada a capacidade de resposta dos sistemas de saúde em vários países tenham de durar muitos meses ou mesmo até que uma vacina esteja disponível contra a Covid-19.

A conclusão é de um estudo feito por um centro de análise da evolução de doenças infecciosas, sediado no Imperial College de Londres, que colabora com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os efeitos de achatar a curva

Muitos já viram a famosa curva de doentes que iria disparar se nada fosse feito para travar o disparo dos casos do novo coronavírus, sobrecarregando muito além das suas capacidades os sistemas de saúde de vários países.

Aquilo que a equipa de trinta investigadores fez foi perceber qual será o impacto de medidas, como aquelas que estão a ser tomadas pelos governos, que envolvem a diminuição de contactos sociais.

Os cálculos são feitos para o Reino Unido e para os EUA e se nada fosse feito, nenhuma medida para travar o avanço da doença fosse aplicada, o pico da mortalidade seria atingido dentro de 3 meses infetando 81% da população.

Nos Estados Unidos morreriam 2,2 milhões de pessoas e no Reino Unido 510 mil.

Estratégias do passado não chegam

Por norma, este tipo de epidemias, no passado, foram combatidas com estratégias de "mitigação" que desaceleram a evolução da doença na sociedade.

Foi assim que se fez em algumas cidades norte-americanas em 1918 e no mundo, em geral, nas pandemias da gripe de 1957, 1968 e 2009.

Se fosse seguida a estratégia da "mitigação" na Covid-19, o estudo conclui que a procura por cuidados de saúde iria reduzir-se para dois terços e as mortes para metade, mas mesmo assim teriam muito mais procura que capacidade de resposta e as mortes seriam aos milhares.

Uma estratégia nunca tentada no passado

Depois, a segunda estratégia é a da "supressão" que tenta reverter o crescimento de contágios para níveis baixos mantendo essa solução indefinidamente com a conjugação de várias medidas (o tal achatamento da curva).

Entre essas medidas está a distância social de toda a população, o isolamento em casa dos doentes e família e o fecho de escolas e universidades.

Vacina pode demorar ano e meio

Os investigadores avisam, contudo, que achatar a curva da doença e de contágios, prolongando-a, na prática, no tempo, mas dando-lhe um pico menos alto, é uma estratégia "intensa" e que tem de ser mantida até que exista uma vacina que "potencialmente demorará 18 meses ou mais".

Afrouxar medidas não é hipótese

Imaginando que um país consegue travar a propagação do novo coronavírus, afrouxar, de seguida, as medidas de supressão de contactos quando ainda não exista uma vacina pode, segundo os investigadores, fazer a curva da epidemia voltar a disparar a qualquer momento, desfazendo todo o trabalho e esforço de limitação de contactos que existiu antes.

Na prática, se as medidas de restrição de contactos sociais não se prolongarem por muito tempo o número de doentes desce nos próximos meses... mas pode agravar-se à frente, mais tarde, nos meses mais frios de 2020.

Qualquer relaxamento das regras tem de ser rapidamente revertido mal surjam novos casos.

É possível seguir esta estratégia durante muitos meses?

O estudo diz que a estratégia da supressão seguida na China e Coreia do Sul revela que esta é possível de ser posta em prática "no curto prazo", mas ainda falta saber se é viável de durar "no longo prazo" e como é que os custos económicos e sociais podem ser reduzidos.

Resumindo as conclusões, o primeiro autor deste estudo, Neil Ferguson, diz, citado pelo Imperial College de Londres, que se seguirmos a estratégia da supressão é "provável" que as medidas de "distanciamento social em larga escala" tenham de estar em vigor "durante muitos meses, talvez mesmo até que exista uma vacina disponível".

Outras dúvidas

A complicar todas as variáveis de um problema que já é complicado, com opções de ação que parecem sempre o menor dos males, o estudo acrescenta que existe uma "grande incerteza sobre a transmissão do vírus, a efetividade provável de diferentes políticas e a forma como a população adoptará espontaneamente as medidas de redução de comportamentos de maior risco".

É difícil dizer quanto tempo durarão as medidas de contenção social, sendo no entanto certo que vão "durar vários meses", tudo dependendo da evolução da epidemia que tem de ser avaliada momento a momento.

Restrições sociais são mesmo a melhor estratégia

Os investigadores não têm contudo dúvidas em concluir que a estratégia da "supressão", a tal que envolve fortes restrições sociais, é "a única estratégia viável neste momento", mesmo que os efeitos sociais e económicos sejam profundos.

A primeira estratégia, a de "mitigação", sobrecarregaria muito o sistema de saúde.

Aliás, os autores dizem que os resultados deste estudo estiveram na base das decisões, dos últimos dias, de vários países, apesar admitirem que não é certo que a estratégia da "supressão" vá ter sucesso no longo prazo.

Várias fontes apontam que terá sido este estudo a fazer o Governo inglês mudar de ideias sobre a forma como estava a tentar responder ao novo coronavírus.

Nunca se fez isto antes

Na última frase, o artigo deixa um alerta final: "Nunca se tentou fazer uma intervenção de saúde pública com efeitos tão disruptivos na sociedade durante tanto tempo. A forma como as populações e sociedades vão responder continua incerta".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de