Dois anos depois do fogo, maioria das casas já foi entregue. Mas nem todos estão satisfeitos
Incêndios de outubro

Dois anos depois do fogo, maioria das casas já foi entregue. Mas nem todos estão satisfeitos

Dois anos após os trágicos incêndios que assolaram a zona centro do país, a maior parte das pessoas que ficou sem teto já voltou à nova casa. As chamas destruíram um total de 1500 habitações. O Estado financiou obras em apenas 822.

Já foram entregues as chaves de 792 moradias, faltando devolver ainda 30, isto segundo dados da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Centro (CCDRC).

A maioria das vítimas já regressou ao seu lar, mas nem todos estão satisfeitos com as obras de reconstrução que foram feitas. Em Treixedo, uma das aldeias mais fustigadas pelas chamas no concelho de Santa Comba Dão, a TSF encontrou várias vozes críticas.

Armando Roque é uma delas. A irritação é tanta que fica ainda mais gago a falar. São vários os reparos que apresenta, dos maus acabamentos, passando pelas caleiras mal colocadas, pelo chão flutuante que levanta, e pelas portas que não fecham. "Já cá vieram algumas sete vezes e elas não fecham", lamenta.

Este habitante de Treixedo mudou-se para a nova casa em janeiro desde ano. A reconstrução do edifício demorou uns quatro meses. Armando esteve sempre muito atento a tudo e com as próprias mãos foi corrigindo muitas das coisas que o empreiteiro fez. Ainda hoje continua a realizar obras de melhoramento pelos próprios meios.

Não esquece a tragédia de há dois anos. Tudo o faz lembrar aquela noite de má memória, em que "o diabo desceu à terra". Há uma semana a luz faltou na aldeia e as lembranças daquele que foi o pior dia da sua vida voltaram ao de cima.

"Falta a luz à noite e a nossa mente vai logo lá virada. Às vezes é de noite e eu levanto-me a pensar que cá fora está tudo a arder. Por exemplo, a minha cadelita assim que falta a luz de noite ninguém a cala. Ela vem para a porta, chora, não é a ladrar, ela chora mesmo. Até ela que é um animal apanhou um trauma", diz.

Questionada pela TSF a propósito deste caso, a CCDRC afirma que José Armando Roque​ comunicou a presença de bolor numa das guarnições de uma porta interior e a situação "foi considerada resolvida em 23 de maio último".

Além disso, "o senhor José foi o construtor da própria casa" e nunca reportou à CCDRC quaisquer outros defeitos de obra."​

A família de Pedro Varela, reside em Treixedo, também seguiu com a sua vida, mas sem esquecer a noite em que foi obrigada a fugir de casa, para a encontrar horas mais tarde destruída pelo fogo.

A nova habitação foi entregue faz agora um ano, mas a moradia embora seja recente apresenta já vários problemas. Há humidade nas paredes e a base do chuveiro mete água.

Pedro queixa-se do atraso com que o empreiteiro responsável pela intervenção resolve os problemas que vão surgindo. Diz que muitas vezes são colocados apenas "pensos" para tentar "tapar os olhos" da sua família. Considera que a rapidez com que tudo foi feito não ajudou.

"[Foi por causa da] rapidez que estão a acontecer estes problemas nas casas porque quanto mais rápido for pior é. Eles depois esquece-me das coisas, de aperfeiçoamentos", defende.

Sobre a casa de Pedro Varela, a CCDRC afirma que "os defeitos de obra da habitação do Sr. Pedro Varela, em Treixedo, foram reportados à CCDRC em 27 de março, e relacionam-se com humidades no interior, com origem no alçado posterior da casa. Esta reclamação foi reencaminhada para o empreiteiro em 29 de março. Já foram feitas reparações no interior da habitação. Relativamente à impermeabilização efetuada no exterior, a situação está a ser monitorizada e se necessário, serão efetuadas as intervenções adequadas."

"A CCDRC tem gestores de obra que acompanham a execução de todas as empreitadas. Todas as famílias têm o contacto do gestor de obra da CCDRC e da respetiva câmara municipal, podendo a todo o momento solicitar o apoio para a solução e correção dos defeitos de obra, entretanto detetados, que normalmente surgem com a alteração das condições de humidade e temperatura", explica ainda a comissão. "Por norma, as famílias contactam os gestores de obra e/ou a câmara municipal quando detetam alguma situação a corrigir. Os gestores de obra da CCDRC reportam estas situações ao empreiteiro e acompanham a sua resolução."

Obras ainda em curso

Na aldeia do Alambique, em Tondela, a TSF encontrou uma outra família que só agora viu a sua casa a ser reconstruída. Os trabalhos começaram em agosto e só deverão estar prontos lá para o final do ano. A empreitada tardou em arrancar por questões legais.

"Foi mais uma questão de burocracia. O terreno era dos meus sogros, tivemos que passar para o nosso nome e [depois foram] essas burocracias normais, licenças, escrituras, etc. Foi isso que demorou bastante e conseguimos ultrapassar [esses problemas]", afirma Cristof Moreira.

A casa deste agregado familiar constituído por cinco pessoas ardeu quase na totalidade. Só foi possível "safar a sala", que teve que ser derrubada para que a reconstrução fosse feita. O prejuízo ronda os 55 mil euros.

Cristof vive com a mulher e os três filhos, de 8 e 2 anos, em casa dos seus pais. Gostava de passar já o Natal debaixo do novo teto. "Vai valer a pena a espera, vamos regressar ao nosso lar, ao nosso aconchego, à nossa vida de antigamente. Dois, três anos... Mais vale tarde do que nunca", atira.

Esta vítima dos fogos não é dos que mais se queixa, mas não esconde que ele, a mulher e sobretudo os filhos têm vivido tempos complicados.

"Para além de já terem passado dois anos, ainda é muito recente na cabeça deles. Não podem ver um incêndio na televisão que ficam logo aterrorizados", conta, acrescentando que eles estão ainda "muito assustados", mas também ele e a mulher.

"Quando vemos alguma notícia na televisão dos incêndios ficamos sempre com aquele reviver na cabeça", adianta.

A nova casa dá outro alento, mas olhar para os terrenos à volta dela não tranquiliza. As matas estão cheias de eucaliptos que depois dos fogos rebentaram "aos milhões".

"Isto assusta-me um pouco porque nada está a ser feito. As limpezas [são] poucas e então estamos naquela, na expectativa para ver como é que isto vai correr", refere Cristof Moreira.

Algumas casas só serão entregues em 2020

A grande maioria das moradias que ardeu já foi entregue aos respetivos donos, mas na região Centro ainda faltam devolver 30. A presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, explica que os trabalhos de recuperação das casas foram dificultados "por problemas de titularidade e de legalidade urbanística", que logo que foram ultrapassados permitiram que as obras se iniciassem com o apoio do Estado central.

"Quando estas situações se resolveram nós fizemos as aprovações do apoio às famílias. A esmagadora maioria ficará concluída ainda no final do ano, mas haverá habitações que passarão para 2020, mas a creio que o maior descanso para as famílias é que têm apoio", sustenta Ana Abrunhosa, que recusa a ideia deste processo ter decorrido de forma lenta.

"Estamos a falar de uma tragédia muito grande neste território. Nós trabalhámos com a maior celeridade, respeitando todas as regras, cumprindo todos os procedimentos que não se viam no terreno, mas que permitiram que depois do início das obras elas andassem com celeridade e portanto o meu balanço é que o processo correu muito bem", frisa.

"A esmagadora maioria das empresas nunca deixou de trabalhar"

As chamas penalizaram mais de 500 empresas de 28 concelhos, causando prejuízos na ordem dos 270 milhões de euros. O Governo está a ajudar a levantar 372 empresas, que apresentaram projetos avaliados em 131 milhões de euros. Os apoios estatais rondam os 104 milhões de euros. Mais de metade desse dinheiro já chegou ao tecido empresarial.

"Estes projetos vão permitir reter e criar mais de 4.200 postos de trabalho e portanto apesar de toda a desgraça, esta foi uma oportunidade que as empresas tiveram de se modernizarem, muitas de fazerem melhor, de pensarem em internacionalizarem-se. A esmagadora maioria das empresas, mesmo aquelas que arderam totalmente, nunca deixou de trabalhar", realça Ana Abrunhosa.

"O que fizemos até agora foi o mais fácil"

A presidente da CCDRC considera que o mundo empresarial e as pessoas deram o exemplo da forma como se deve enfrentar "uma tragédia nunca antes vista" no país. Quanto ao futuro, a responsável defende que só se pode evitar outro cenário devastador, como que se registou em 2017, com a ocupação do território.

"O que fizemos até agora foi o mais fácil, agora temos que cuidar de forma muito empenhada da nossa floresta, de manter ocupado o nosso território seja com que atividade económica for porque o abandono dos nossos territórios é que leva a que estejam mais suscetíveis a este risco. Portanto, o país precisa, e tenho a certeza que este Governo está sensível a isso, de uma estratégia de desenvolvimento integrado para estes territórios, que vá desde a floresta, à agricultura, à atividade industrial e à agroindústria nestes setores".

Os incêndios de há dois anos mataram 50 pessoas na região Centro do país. As investigações judiciais ainda estão em curso, pelo que a TSF apurou. Contactada a Procuradoria-Geral da Republica não facultou qualquer informação sobre as diligências que estão a ser feitas ou se já há arguidos nos vários fogos que faz agora dois anos assolaram a zona centro.

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