Dois municípios querem refinaria de lítio na Serra do Alvão

Governo procurou quem tenha disponibilidade para ceder terreno e encontrou um espaço que vai ficar vazio com fim das obras para construir as barragens do Alto Tâmega.

Os municípios de Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena têm disponibilidade para receber uma refinaria de lítio na Serra do Alvão, num espaço hoje ocupado por um enorme estaleiro para construir as barragens do Alto Tâmega que em breve estarão concluídas.

A ideia das autarquias, que temem perder muitos postos de trabalho temporários criados com as obras das barragens, surgiu depois de uma ronda feita há cerca de um ano pelo Ministério do Ambiente para perceber onde existiria interesse e espaço para receber uma refinaria deste tipo, numa altura em que se estuda a forte hipótese de se abrirem minas de lítio, nomeadamente em Boticas e Montalegre, ou seja, igualmente concelhos do distrito de Vila Real.

Governo perguntou

O presidente da câmara de Vila Pouca de Aguiar, Alberto Machado, detalha à TSF que a pergunta do Governo foi enviada a vários municípios e a ideia era encontrar uma autarquia que tivesse disponibilidade para ceder uma terreno para avançar com a refinaria de lítio, também conhecido como o novo 'petróleo branco".

O dossiê, conjunto, de Ribeira de Pena e Vila Pouca de Aguiar foi entregue, segundo os autarcas, ao Ministério do Ambiente e ao Primeiro-Ministro há cerca de meio ano, numa visita que fizeram à região, mas desde essa altura as autarquias não existiu resposta.

Alberto Machado detalha que a área disponível está prestes a ficar sem atividade e tem tudo o que é preciso para uma refinaria de lítio: água, saneamento, energia em alta e em baixa, bem como acessos a duas autoestradas.

"Seria para nós útil ocupar aquele espaço que está devidamente infraestruturado, trazendo uma dinâmica de emprego ao Interior Norte de Portugal que é um território envelhecido e desertificado", refere o autarca.

Zona já desbastada na Serra do Alvão

O presidente da câmara de Ribeira de Pena, João Noronha, confirma a disponibilidade conjunta dos dois municípios e acrescenta que a zona proposta para a refinaria "está neste momento bastante desbastada no Alvão porque recebeu diferentes equipamentos de construção civil" para erguer as barragens.

"Se conseguirmos fixar pessoas, trabalhadores, no Alto Tâmega, uma vez que a paisagem ali já foi muito alterada, com cortes de manchas enormes de floresta (pinheiro), salvaguardando sempre as questões ambientais e da qualidade das águas, penso que poderia ser um bom projeto", refere o autarca de Ribeira de Pena que acrescenta que toda aquela grande área já está hoje coberta de cimento e convertida num "estaleiro gigante".

Ribeira de Pena e Vila Pouca de Aguiar ficam a cerca de 50 quilómetros de Montalegre e 30 quilómetros de Boticas, zonas para onde está a ser estudada a abertura de minas de lítio.

Os dois autarcas interessados em receber a refinaria de lítio sublinham a importância de criar centenas de postos de trabalho, mas igualmente que a avaliação ambiental será fundamental para avançar ou não com um projeto deste tipo, apesar de ambos recordarem que o terreno que oferecem para o projeto "já está alterado".

Alberto Machado afirma que aquele enorme terreno, que hoje está ocupado por empresas de construção civil e metalomecânica, vai ficar vazio com a conclusão das barragens, podendo e devendo ser de novo usado para criar emprego e fixar população.

Os municípios argumentam que não querem perder a grande dinâmica sócio-económica e muitos empregos criados pelas barragens.

Matosinhos recusou refinaria de lítio

A abertura de uma refinaria de lítio em Portugal foi notícia na última semana com a hipótese de construir uma estrutura deste tipo no local onde existe a refinaria de petróleo de Matosinhos, que a Galp anunciou que vai ser definitivamente desativada.

Depois dos protestos da câmara de Matosinhos, nomeadamente por questões ambientais, a Galp já recusou que esse projeto exista, mas para o geólogo e investigador Alexandre Lima, da Universidade do Porto, especialista em lítio, os receios não são fundamentados.

"Não faz sentido falar de um problema com poluição associada a uma refinaria moderna de lítio, muito menos se a compararmos com uma refinaria de hidrocarbonetos que é o que existe na atualidade em Matosinhos", refere o investigador à TSF, sublinhando que os resíduos produzidos neste tipo de refinaria teriam, naturalmente, de ser depois colocados em locais próprios.

Ambientalistas com dúvidas

O presidente da associação ambientalista Zero defende que as comparações entre a poluição causada por refinarias de lítio ou refinarias de petróleo não são fáceis, "havendo muitas contas e muitas incertezas".

Francisco Ferreira recorda que Matosinhos, que agora vai fechar, é a nona infraestrutura com mais emissões poluentes do país e que, à partida, "na comparação direta com uma refinaria de lítio, a refinaria de petróleo é mais poluente quer em termos de emissões poluentes para a atmosfera quer, de uma forma mais abrangente, pelo uso desse lítio em baterias elétricas que evitarão o consumo de derivados do petróleo".

No entanto, o ambientalista afirma que é preciso ter em conta todos os impactos associados à extração do lítio e que o dióxido de carbono emitido para a atmosfera é apenas uma parte da equação, sendo preciso equacionar uma série de outros aspetos.

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