"Dormem à porta do teatro e nunca lá entraram." Mitos sobre pessoas sem-abrigo
A rua vista por dentro

"Dormem à porta do teatro e nunca lá entraram." Mitos sobre pessoas sem-abrigo

Dormem onde os outros passeiam. Vestem o que os outros já deixaram de vestir. E comem o que, ao cair da noite, os outros lhes vêm dar. Fazem parte da sociedade, mas vivem à parte dela, como uma face da paisagem das cidades que não merece estar nas fotografias das redes sociais. Estão ali porque "não querem trabalhar", nem "sair da rua". Estão ali porque "têm culpa", porque "são todos iguais". Existem, apenas, "à noite e no inverno" e só têm direito a um olhar mais demorado quando as temperaturas descem e se acendem as luzes de Natal. Ideias e mitos sobre as pessoas em situação de sem-abrigo não faltam. Talvez o que falte seja dar-lhes voz.

Passa pouco das 20h00 quando Joana Teixeira se aproxima do Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa. Os rostos que a veem chegar reconhecem-na, deixam as conversas a meio e quase se atropelam para manifestarem o quanto gostam das visitas daquela "menina de ouro". Manter uma conversa sem interrupções com a psicóloga de 29 anos, que faz voluntariado na rua desde os 16, é impossível. Por conhecer a rua como poucos, é ela quem nos guia, por várias zonas da cidade, até às vozes dos que se propõem a contar as suas experiências para desmontar os preconceitos sobre quem não tem casa ou teto.

Mito 1: "A fome é o grande problema da rua"

António Alves tem 60 anos e viveu na rua quase 10, com vários intervalos pelo meio. "Entrava em quartos, saía, e depois voltava para a rua porque as pessoas não eram limpas e eu chateava-me com aquilo", começa por contar. "Corri a cidade quase toda a dormir na rua. Dormi aqui, dormi em Santa Apolónia, no Terreiro do Paço, no Cais do Sodré, no Hotel Éden", recorda.

Há cerca de dois anos, arranjaram-lhe uma casa só para ele, mas António continua a visitar a zona de Santa Apolónia ao fim do dia para receber as refeições distribuídas junto à estação. A fome, garante, nunca foi um problema: "Nestes anos todos, passei muito frio, passei muito mal. Mas comida não me faltava."

A ideia de que a fome é um dos principais problemas da rua é - sobretudo nas grandes cidades - um equívoco. Joana Teixeira já trabalhou como técnica em equipas de rua e criou, recentemente, a Associação PertenSer que dá apoio a pessoas em situação de sem-abrigo. Pela sua experiência, garante que se pode dizer que "não há fome na rua".

Para a mestre em psicologia comunitária e proteção de menores "existem muitas equipas que distribuem alimentação e muita distribuição de alimentação por grupos informais". Na visão da especialista, esta é uma realidade que "por si só nem sempre é positiva", uma vez que muitas destas pessoas não têm formação para intervir junto de pessoas vulneráveis.

"Existe intervenção técnica com as pessoas em situação de sem-abrigo. E, muitas vezes, estas pessoas vão para a rua sem qualquer tipo de formação ou de intuito já preconcebido sobre aquilo que vão fazer. Assim, prejudicam a intervenção técnica que está a ser feita. Além disso, em Lisboa, torna-se o caos quando temos muitos grupos informais, que não estão coordenados entre si, a fazer distribuição alimentar e isto faz com que exista alguma abundância de comida na rua", explica.

Joana Teixeira entende que "para as pessoas que não vivem nesta situação" a fome seja "uma das maiores aflições", mas lembra que o problema se agrava quando, "todos pensamos assim" e "toda a gente vem para a rua entregar comida".

Além do excesso de comida na rua, a falta de supervisão destes grupos informais pode fazer com que a comida distribuída na rua não esteja nas melhores condições, pondo em risco a saúde pública. Por isso, na perspetiva da psicóloga, é fundamental uma organização coordenada dos grupos de distribuição alimentar: "A distribuição na rua, neste momento, é incontrolável".

Mito 2: "Só está em situação de sem-abrigo quem vive na rua"

Ter um teto não chega. Joana Teixeira explica que o conceito de pessoa em situação de sem-abrigo "é mais lato" do que ter algo que nos cubra a cabeça.

"O conceito oficial em Portugal, desde 2009, - ano da primeira Estratégia Nacional para a Integração da Pessoa em Situação de Sem-abrigo - considera pessoas em situação de sem-abrigo aquelas que, independentemente da sua idade, etnia, crença religiosa, se encontrem em situação de sem teto (pessoas que, de facto, dormem na rua, em alojamentos de emergência ou em espaços públicos) ou sem casa. Isto é, pessoas que dormem num centro de alojamento temporário ou em respostas temporárias com apoio de instituições ou de entidades públicas também estão em situação de sem-abrigo", explica.

Mito 3: "Quem vive na rua não quer trabalhar"

"Se eu tivesse um trabalho, mesmo sem contrato, eu iria trabalhar para sair da rua." Quem o diz é Abílio Pires. Transmontano, com 57 anos, dorme há quase quatro em frente à discoteca Lux Frágil, em Lisboa, nos dias em que a casa está fechada. Quando as portas do espaço noturno abrem, dorme uns metros ao lado, numa tenda, com a música a servir de pano de fundo. Lê muito, aproveita qualquer oportunidade para conversar e lamenta que a idade e a falta de uma morada o impeçam de trabalhar.

"Até já me aconselharam a não dizer que vivo na rua. Se eu estiver na rua é sempre difícil. Não dão. Têm aquele preconceito", conta, para logo depois explicar que o desemprego o atirou para a rua: "Fui técnico de uma empresa de tecnologia, e estava em Espanha a trabalhar quando, quase ao mesmo tempo, o meu pai e a minha mãe faleceram. Vim ao funeral deles e, depois, quando regressei a Espanha, houve uma crise tremenda e a minha empresa começou a despedir pessoal."

Voltar para Trás-os-Montes nunca foi opção e, desde que regressou a Portugal, Abílio nunca parou de procurar trabalho: "É a minha independência. Logo que eu tivesse a minha independência, um trabalhinho certo e tal, conseguiria arranjar um quarto pelo meu trabalho. Era diferente. Uma vida independente. A chave da liberdade."

Uns quilómetros à frente, perto do Arco do Cego, Joe (nome fictício sugerido pelo próprio), também com 57 anos, garante que está inscrito no centro do emprego, mas nunca foi chamado para uma entrevista: "Sou novo para a reforma, mas sou velho para o mercado de trabalho."

Quando ouve dizer que só está em situação de sem-abrigo quem "não quer trabalhar", depara-se com aquilo que diz ser "a indiferença" de quem não sabe o que é não ter casa e julga um grupo que desconhece como se todas as pessoas que a ele pertencem fossem iguais: "Cada caso, cada pessoa, cada um de nós tem uma história para contar. Porque é que está aqui. Se quer estar aqui. O que é que o levou a estar aqui."

Mito 4: "A maioria não quer sair da rua"

Foi aos 31 anos que Abílio Martinha soube pela primeira vez o que é viver na rua. Hoje, tem 50 e conseguiu abrigo em casa de duas amigas; não sabe por quanto tempo. Conhece a realidade da rua como gostava de ter conhecido o colo de uma mãe que o deixou para trás. Quando lhe dizem que quem está em situação de sem-abrigo "não quer sair de lá" reage com surpresa e sente-se incompreendido: "As pessoas não gostam de estar aqui na rua. Se tiverem alguém que as ajude para saírem, saem. A mim ajudaram-me e eu saí."

Abílio Martinha e Abílio Pires partilham, além do nome, os anseios, os medos e os preconceitos, sem nunca se terem cruzado. Para Abílio Pires há quem olhe para quem vive na rua como "vadios que acolhem esta vida como uma boa vida", mas para a maioria das pessoas "não é agradável" estar nesta situação: "estar aqui com as costas em cima das pedras e ter uma vontade de trabalhar e de ter a minha liberdade e não conseguir não é fácil".

Joana Teixeira realça que a ideia de que só está na rua quem quer é dos preconceitos mais frequentes, até porque muitas vezes são as pessoas em situação de sem-abrigo que a veiculam para "não serem chateadas".

"As pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa falam, em média, com seis voluntários por dia. Se eu estivesse nessa situação e toda a gente me perguntasse porque é que estava na rua, desse conselhos e fizesse promessas, se calhar também responderia isso. É uma forma de as pessoas não alongarem a conversa e não terem de responder. As pessoas que estão na rua já tiveram tantas promessas, tantas expectativas nas pessoas que depois foram defraudadas; a desilusão foi gigante. Utilizam essa ideia de 'eu não quero sair da rua' como uma defesa", defende.

Por outro lado, continua, "também sabemos que a rua engole as pessoas", porque o processo de sair da rua é "muito mais difícil do que vir para a rua".

"O processo de vir para a rua geralmente é imposto e a pessoa não tem solução. Sair da rua implica ter esperança, acreditar outra vez. E leva as pessoas sem-abrigo a pensar: 'Se eu acreditar outra vez e isto me voltar a acontecer, vai ser muito pior, porque eu falhei. Portanto, se eu não acreditar em nada, pior do que isto eu não fico'", remata.

Mito 5: "As pessoas têm culpa de estar nesta situação"

Joe acredita que há dois motivos para algumas pessoas terem a necessidade de apontar o dedo a quem vive na rua: falta de empatia e medo do que lhes pode vir a acontecer.

"As pessoas já não querem olhar, porque aquilo pode ser a realidade delas no futuro. Ela própria olha para o outro e pensa 'eu poderei ser aquilo' e isso não lhe agrada. Isso afasta-lhe o olhar. E a invisibilidade acontece. De certeza que se alguém estiver todo nu deitado as pessoas não olham. Não vai começar ninguém a gritar 'está ali um homem nu', pois não? Agora, se eu for a correr para um estádio de futebol toda a gente vai dar em cima de mim. Se eu estiver deitado ninguém vai olhar", exemplifica.

Abílio Pires não tem tantas certezas: "Nem é verdade nem é mentira. Há pessoas que estão na rua por culpa, há pessoas que estão na rua por causa do desemprego." De uma maneira ou de outra, os dois concordam que ninguém está livre de ficar sem teto ou sem casa: "Pode acontecer isto: perderes o emprego e depois não teres capacidade de encontrar outro devido à idade e manténs-te por aqui até que não se preocupem com a idade e comeces a trabalhar."

Na perspetiva de Joana Teixeira "existe uma série de circunstâncias, de contextos, de sistemas à volta da pessoa que promoveram ao mesmo tempo que ela viesse parar à rua. Não foi uma coisa, um infortúnio, foram várias situações, várias circunstâncias e algumas atitudes e escolhas das pessoas que foram numa direção e não foram noutra".

No entanto, a psicóloga admite que é muito fácil olhar para alguém que dorme na rua e pensar "eu nunca chegaria ali, portanto, alguma coisa aquela pessoa deve ter feito para estar ali". Para a especialista, "aquilo que nós fazemos é arranjar uma justificação a priori - sem conhecermos a pessoa e sem falarmos com ela - para aquela pessoa estar na rua".

Mito 6: "Só há pessoas na rua à noite e no inverno"

À medida que os dias vão ficando mais pequenos, as temperaturas vão descendo e os edifícios da cidade se enchem de luzes e bolas coloridas, Joe vê acontecer aquilo que apelida, ironicamente, de "a magia do Natal". Aqueles que durante todo o ano ficaram "indiferentes" e olharam "de lado" para quem dorme pelos cantos, mais e menos escondidos, da cidade, têm um rasgo súbito de empatia e solidariedade temporário: "Na véspera de Natal, acontece uma magia muito engraçada (depois, no dia 26, desaparece) em que toda a gente se lembra 'coitado, está na rua' e vem dali um espírito natalício."

Joana Teixeira não vai tão longe nas palavras, mas concorda que quando o frio aperta ou quando cai a noite as pessoas despertam para as dificuldades de quem não tem casa: "As pessoas estão muito mais expostas à noite, porque estão nos locais onde pernoitam, na rua, muitas vezes expostas a todas as pessoas que passam e, portanto, nós vemos. Porque nos faz muita impressão olhar para uma pessoa que está a dormir na rua, sobretudo quando está frio."

É por isso que a psicóloga acredita ser fundamental criar espaços para as pessoas que estão nesta situação ocuparem os dias, enquanto não arranjam casa ou trabalho: "É preciso perguntar: o que é que aquela pessoa fica a fazer durante o dia?Esta é uma questão essencial, porque os dias são desesperantes. Se à noite há muitos grupos de voluntariado, há muita distribuição, há muita interação com estas pessoas, durante o dia as pessoas passam o dia todo a pensar. Isto é doloroso. Não ter nada para fazer durante todos os dias é uma coisa muito complicada. As pessoas passam o dia todo sem fazer nada porque não têm estrutura."

Mito 7: "São todos iguais"

Olhar para as pessoas em situação de sem-abrigo como um grupo homogéneo é um dos principais preconceitos que António Alves sentiu na pele durante os anos que viveu na rua.

"As pessoas olham como se fossemos todos iguais. Acho que isto é muito mau, porque a sociedade não sabe o que é a vida da rua. Se eles soubessem o que é a vida da rua, eles davam valor, mas assim não sabem e não dão valor nenhum. Depois, há aquela desconfiança, quando me viam de canadianas pensavam que estava a fingir ou que lhes ia pedir dinheiro", lamenta.

É precisamente por causa deste preconceito que Joana Teixeira insiste que se deve utilizar o termo "pessoa em situação de sem-abrigo" ou "pessoa sem-abrigo", em vez de "o sem-abrigo".

"Quando as pessoas dizem 'os sem-abrigo' estão a falar de um grupo homogéneo de pessoas que têm todas as mesmas características, e que estão lá longe, como quem diz: 'Eu nunca vou ser sem-abrigo'. Quando nós dizemos 'pessoas em situação de sem-abrigo' estamos a dizer muitas outras coisas e estamos a olhar para este grupo de forma muito diferente."

A psicóloga explica que, ao utilizarmos o termo pessoas em situação de sem-abrigo, estamos a dizer duas coisas: "Em primeiro lugar, são pessoas. E, depois, ninguém é sem-abrigo, porque não faz parte da personalidade das pessoas. Não é um traço que define alguém. Eu não sou a com abrigo. É uma situação em que as pessoas se encontram. Encontram-se nessa situação hoje e amanhã podem não se encontrar nessa situação."

Para Joana Teixeira, chamar sem-abrigo a alguém é tirar-lhe a identidade: "Isso vê-se em tantas reportagens, os jornalistas dizem que foi 'um sem-abrigo' que fez alguma coisa, sem mencionar o nome da pessoa, mas se fosse uma pessoa que tivesse casa era o senhor Manuel ou o senhor Joaquim. Assim, as pessoas perdem a sua identidade e nós precisamos sempre da validação do outro na nossa vida. Se nos tiram a identidade, tiram-nos aquilo que é mais nosso."

Porque é que existem e persistem estes mitos?

A vulnerabilidade de quem vive na rua, a falta de voz destas pessoas e a distância da sociedade face a quem não tem teto nem casa são, na perspetiva da psicóloga, os principais motores para os mitos que existem acerca das pessoas em situação de sem-abrigo. Apesar de estas pessoas se movimentarem (e, em muitos casos, habitarem) nos espaços públicos, estão à margem da sociedade e nem sequer usufruem das cidades como os outros cidadãos.

"Há pessoas que dormem à porta do Teatro Nacional [D. Maria II, em Lisboa] que nunca lá entraram e que não têm sequer uma perspetiva de o fazer", sublinha a presidente da associação que se dedica, entre outras coisas, a levar as pessoas sem-abrigo a eventos desportivos e culturais.

Joana Teixeira explica que estes preconceitos "têm uma função", uma vez que "na nossa cabeça fica mais fácil se nós categorizarmos algumas partes da população."

"A questão dos preconceitos e dos mitos são as ideias preconcebidas que fazemos de um certo grupo. Só pelo facto de a pessoa pertencer àquele grupo, achamos que a pessoa é isto ou aquilo. A verdade é que as pessoas em situação de sem-abrigo são um grupo numa situação de muita vulnerabilidade e com muito pouca voz. Portanto, também não conseguem defender-se ou mostrar o contrário relativamente a esses preconceitos e a esses mitos", defende.

A chave para acabar com estes preconceitos é, para Joana Teixeira, a inclusão: "incluindo as pessoas na sociedade estamos a empoderá-las, estamos a dar-lhes ferramentas para que percebam que podem, que conseguem e merecem aceder a todos os espaços".

A noite avança e Joana Teixeira volta para casa, momentos depois de fazer das palavras o telhado de alguém. Há de voltar, uns dias depois, onde sempre a esperam, com as conversas, os sorrisos e os ouvidos prontos para os amigos da rua. Vão recebê-la com os mesmos gritos, chamar-lhe menina de ouro, e dizer-lhe que têm saudades, ainda que saibam que Joana voltará sempre, com dia e hora marcados, para lhes dar tempo e, sobretudo, para lhes dar voz.

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