Droga e falta de policiamento. "A Serafina faz-me lembrar o Casal Ventoso"
Lisboa

Droga e falta de policiamento. "A Serafina faz-me lembrar o Casal Ventoso"

No bairro da Serafina, em Lisboa, os moradores alertam para o aumento do tráfico de droga. Uma realidade que conhecem desde sempre, mas que agora chega acompanhada pelo consumo nas ruas. O problema preocupa um bairro envelhecido, mas com a memória fresca do que foi o Casal Ventoso, ali tão perto.

A TSF visitou a Serafina à boleia de um morador, que o bairro viu nascer há mais de quatro décadas. Nesta viagem, "João" pediu o anonimato.

"Se formos por aqui acima é só seringas, eles dormem aí. Os que têm carro começam a estacionar daqui para cima, e injetam-se, haja miúdos na rua, não haja", relata João.

João, nome fictício, cresceu paredes meias com o tráfico de droga, um problema que "sempre existiu", reconhece. E hoje conta que até há espaços para reunir os mais antigos: "Aqui é a velha guarda, dos traficantes reformados."

"Esta é uma das ruas problemáticas, a Inácio Pardelhas Sanchez, aqui no início da rua costuma estar um a avisar quem entra e quem sai, (...) e ali em cima há uns pátios, é difícil lá entrar, já houve relatos de que, quando os serviços sociais lá vão, têm de se identificar", atira.

E a viagem da TSF continua: "A esquadra é aqui, mas eles coitados não têm condições e acho que ainda os querem tirar daqui."

Mas, o presidente da junta de freguesia de Campolide, Miguel Belo Marques, garante à TSF que o fecho da esquadra nunca esteve em cima da mesa: "Eu oiço essa lenda há muitos anos, mas nunca tive, desde que sou presidente da junta, há 11 meses, algum contacto, seja da PSP, do Ministério da Administração Interna ou da Câmara Municipal de Lisboa, onde essa temática fosse abordada, portanto, para mim, é um não-assunto, eu não quero que a esquadra saia dali."

Miguel Belo Marques sublinha que, além de manter a esquadra em funcionamento, a preocupação da junta de freguesia é garantir "um efetivo da PSP que permita assegurar a segurança no bairro".

Até lá, e com poucos polícias nas ruas da Serafina, os problemas acentuam-se, e João já compara cenários: "Os miúdos vinham para aqui brincar, andar de bicicleta, com umas condições brutais que tínhamos e isto agora só me está a fazer lembrar o Casal Ventoso dos anos 80 e 90. Ainda não está lá, mas estamos a caminhar para lá a passos largos e ninguém faz nada."

Mas o presidente da junta de freguesia de Campolide, recusa comparações: "No Casal Ventoso tínhamos um problema de tráfico de droga muito mais acentuado, com um problema conexo, que é a questão do consumo nas ruas."

"Eu não lhe posso dizer que na Serafina não há consumo nas ruas, mas se esse consumo é uma realidade diária, vigente e reinante, não é, e eu passo lá todos os dias", afirma Miguel Belo Marques.

Francisca Indi também é filha do bairro, mas é dentro de casa que ouve o relato de outras gerações, que recordam a união de outros tempos: "O bairro realmente está mais perigoso agora do que na altura deles. Quando eles tinham a minha idade sentiam mais proteção, porque quem era do bairro cuidava de quem era do bairro. E quem não era tinha medo de cá entrar, porque de certa maneira, este era um bairro unido. Defendiam-se uns aos outros e protegiam o que era deles."

E mais uma vez, a nuvem do Casal Ventoso a fazer sombra ao bairro da Serafina. "Realmente existe consumo, mais para cima da serra de Monsanto, há tendas montadas, de pessoas que vivem ali, e há vestígios de consumo", relata Francisca.

A jovem de 24 anos vê com preocupação a tendência crescente da criminalidade no bairro, sobretudo entre os mais novos, e alerta para a "falta de alternativas e estímulos sociais" que levam muitos jovens a "preferir entrar na vida do tráfico de droga" porque "conseguem ajudar as famílias".

Francisca Indi pede mais ação por parte da Câmara Municipal de Lisboa e da junta de freguesia de Campolide, "um braço dado entre estes dois polos" que a jovem acredita "faria a diferença".

Mas o presidente da junta de freguesia de Campolide garante que tem estado atento e a atuar. A fórmula proposta por Miguel Belo Marques passa por uma melhor higiene urbana, e por um reforço do policiamento nas ruas.

Até lá, a Serafina continua de costas para Monsanto, o Aqueduto ainda faz sombra, o rio corre ao fundo, e o Casal Ventoso, ali tão perto

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