É desta que vem aí o sistema de depósito? Projeto-piloto já recolheu mais de 17 milhões de garrafas
Reportagem TSF

É desta que vem aí o sistema de depósito? Projeto-piloto já recolheu mais de 17 milhões de garrafas

Em vários hipermercados, por todo o país, há máquinas onde se entregam garrafas de plástico usadas, em troca de pontos, que dão prémios. 'Quando do Velho Se Faz Novo' é um projeto-piloto financiado pelo Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e da Ação Climática. A ideia é preparar o terreno para o futuro sistema de depósito de embalagens de bebidas, que, segundo a lei, já deveria ser obrigatório desde o início deste ano, mas que ainda não avançou. O Governo garante à TSF que tem a intenção de lançar o projeto "muito em breve".

"Acumulo bastantes garrafas que vamos consumindo em todo o lado, em restaurantes, em cafés, e costumo trazer e coloco aqui." Mariana Garoupa é cliente de um hipermercado na Amadora e utilizadora habitual do 'Quando do Velho se Faz Novo'. "Costumamos vir pelo menos uma vez por semana à máquina trocar", conta. "Sai um talão e depois é só inserir o código na aplicação na internet... e pronto!"

Mariana quer juntar pontos suficientes para ganhar uma bicicleta elétrica, um dos prémios máximos disponíveis na aplicação. Mas nem sempre o sistema funcionou assim. Pedro Lago, diretor de Projetos de Sustentabilidade e Economia Circular da MC, lembra que, quando o projeto arrancou, em março de 2020, a entrega de garrafas resultava em descontos diretos nas compras do supermercado ou em doações a instituições de solidariedade social. O objetivo era que o programa funcionasse como projeto-piloto para o futuro sistema de depósito de embalagens de bebidas em plástico, vidro, metais ferrosos e alumínio, que deveria ser obrigatório a partir de 1 de janeiro de 2022.

"Começou, numa primeira fase, por um incentivo de dois a cinco cêntimos por embalagem recolhida", recorda Pedro Lago. O Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e da Ação Climática tinha avançado com 1,665 milhões de euros para o projeto. Os consumidores receberam 500 mil euros em vales de descontos. Mas, passado menos de um ano, em fevereiro de 2021, a verba destinada aos descontos nas compras esgotou-se e os consumidores deixaram de ter essa hipótese.

A receita dos depósitos das garrafas passou, então, a ser entregue, na totalidade, a instituições de apoio social. Só que, três meses depois, também essa verba chegou ao fim. A partir daí, nem descontos nas compras, nem apoios a instituições. Nessa altura, os depósitos de garrafas caíram 70%.

"Quando deixou de haver o incentivo económico, naturalmente, a adesão baixou", constata o diretor de Projetos de Sustentabilidade e Economia Circular da MC.

Mas, em janeiro deste ano, surgiu uma nova vida para o projeto, que resulta da candidatura de um consórcio formado pela Associação Portuguesa dos Industriais de Águas Minerais Naturais e de Nascente, pela Associação Portuguesa das Bebidas Refrescantes Não Alcoólicas (PROBEB) e pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED).

"Para redinamizar o projeto, foi lançada a fase atual, que está prevista terminar a 30 de junho, mas poderá ainda ser prolongada, e que é baseada num sistema de pontos", explica Pedro Lago.

Para isso, a startup tecnológica verde The Loop Company foi chamada a desenvolver a aplicação onde as garrafas são trocadas por pontos e os pontos por prémios. "São prémios, sobretudo, sustentáveis ou digitais, como vouchers para concertos e outros produtos culturais, iPhones recondicionados, que estão na sua segunda ou terceira vida, e também produtos de mobilidade elétrica", aponta Ricardo Morgado, da The Loop.

Os pontos continuam também a poder ser convertidos em donativos, agora para duas instituições pré-selecionadas: a Associação Mais Proximidade Melhor Vida e a Ajuda de Berço. Para isso, basta aceder à plataforma online onde cada utilizador faz a gestão dos pontos que acumula.

A empresa preocupou-se em garantir que a app fosse de acesso simples para todos e que incentivasse à adesão ao projeto. "Fruto de uma abordagem de 'gamificação', em que há um incentivo positivo e uma facilidade grande em utilizá-la, a participação tem sido mesmo muito boa", sustenta Ricardo Morgado.

Um cenário confirmado no terreno pelos hipermercados. "Apenas nesta loja, esta máquina já recolheu quase 1,5 milhões de embalagens, num total de mais de 17 milhões que foram recolhidos neste projeto em todo o país", indica Pedro Lago.

A esperança é de que o projeto-piloto ajude a mudar os hábitos dos portugueses, antes da entrada em vigor do sistema de depósito de embalagens, já ativo noutros países europeus. Neste sistema, o consumidor começa por pagar um depósito cada vez que compra uma embalagem de bebidas e é reembolsado desse valor quando devolve a embalagem.

"Esta lógica, normalmente, funciona e as taxas de recolha e de reciclagem atingem valores na casa dos 90%, muito acima dos valores que ainda temos em Portugal", nota Pedro Lago.

"Neste momento, a única questão que se coloca é quando é que vamos ter o sistema de depósito e até quando é que vamos prolongar estes sistemas de incentivo", porque, se estes terminarem muito antes da implementação do sistema, pode perder-se este costume.

À TSF, o Governo garante que se encontra "em fase final de elaboração o Projeto de Portaria que irá regulamentar o futuro sistema de depósito de embalagens de bebidas, existindo a intenção de o colocar, muito em breve, em consulta pública".

O projeto 'Quando do Velho se Faz Novo' está presente em mais de duas dezenas de hipermercados, por todo o país, com as máquinas automáticas para a entrega de garrafas. Foram também lançados dois projetos semelhantes nos municípios de Lisboa e Cascais.

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