"É difícil dizer quando a vacinação em massa vai quebrar a subida dos casos"

Manuel Carmo Gomes reafirma as previsões da ministra da Saúde: dentro de 15 dias ou menos, o país pode registar quatro mil casos diários. E, com a variante delta a acelerar, os efeitos da vacinação em massa podem demorar a quebrar a tendência crescente da epidemia.

Manuel Carmo Gomes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos peritos ouvidos recorrentemente pelo Governo nas reuniões no Infarmed, reitera as estimativas que Marta Temido apresentou na noite de segunda-feira, para os próximos 15 dias. A ministra da Saúde previu que em duas semanas os casos diários ascenderão aos quatro mil, com 800 internados devido à Covid-19.

"Tiro o meu chapéu à senhora ministra, que foi das poucas pessoas que foi sempre muito cuidadosa nas palavras relativamente a este assunto. Muito cautelosa, e fez muito bem." O epidemiologista assinala, em entrevista à TSF, que "nem todos estiveram assim, quer na área da política, quer na área de responsáveis da Saúde", mas que, de forma contrastante, "a senhora ministra está razoavelmente bem informada".

Manuel Carmo Gomes lamenta o "discurso pouco cauteloso" e "perigoso" que faz "as pessoas baixarem a guarda", e explica que ainda há razões para ter cautela. "O discurso que nós estávamos a ouvir em finais de maio, inícios de junho, era um discurso no sentido de que 'já não há óbitos, a pressão hospitalar não vai ser a mesma'", analisa.

Combinada com outros acontecimentos, "ligados ao futebol, na sua maioria, em Lisboa, Porto e Braga", que foram "maus exemplos", esta narrativa levou a um "baixar da guarda, nomeadamente nos grupos etários mais jovens, que, compreensivelmente, estão fartos disto", diz ainda o perito, num momento em que as métricas são estas: uma média a sete dias de 2100 casos diários e um Rt "à volta de 1,21", o que significa, na prática, que "estamos a duplicar, ou que vamos duplicar, se tudo assim continuar, o número de casos em menos de 15 dias", ou até dentro de "10 a 12 dias".

Depois de atingidos os quatro mil casos por dia, os números "poderão continuar a aumentar", considera Manuel Carmo Gomes, depois de Marta Temido ter tecido as mesmas considerações. "A senhora ministra ontem fez um apelo à nossa tomada de consciência ao perigo que [a subida do número de infeções] representa."

Manuel Carmo Gomes alerta ainda para o facto de que uma grande franja dos infetados se encontra na faixa dos 20 aos 29 anos, isto é, são "indivíduos que têm menos de 10% de cobertura vacinal". Também significativo contributo para o aumento de contágios, no intervalo de idades entre os 30 aos 39 anos há também menos de 20% de cobertura vacinal. São grupos, descreve o investigador, que "socializam muito e não estão homogeneamente misturados com o resto da população", tendo muitos contactos entre si.

O alerta do epidemiologista é feito num momento em que também a variante delta já domina entre os novos casos do país. "Começou com grande incremento em Lisboa e Vale do Tejo, mas neste momento já se estendeu até ao Norte", onde o Rt é o mais elevado (1,4 ou 1,5 - "um valor elevadíssimo"). Mas este aviso tem vindo a ser feito pelos especialistas, garante Manuel Carmo Gomes, contrapondo os discursos políticos mais otimistas. Os indicadores da matriz de risco vêm a aumentar exponencialmente desde 7 de maio: "Sobe todos os dias, mas sobe devagarinho, e, de repente, explode."

Se não houver alterações comportamentais significativas, o perito prevê que os casos continuem a aumentar, com a entrada no período de férias de grande parte dos jovens com o estabelecimento de contactos superiores à média. Em termos de nível de alerta, Manuel Carmo Gomes compara o período vivenciado por esta altura com o de outubro de 2020. Nos cuidados intensivos foi aumentada a ocupação de camas em 157% nas últimas cinco semanas.

"Neste momento, nós temos uma espécie de uma corrida cujo desfecho é difícil de determinar. A corrida tem, por um lado, a variante delta, com essas características que provocam o aumento muito rápido dos casos, e, por outro, a vacinação a decorrer a um ritmo bastante bom. É extremamente difícil dizer, com variáveis que se movem tanto, quando é que finalmente a vacinação em massa vai conseguir quebrar esta subida do número de casos."

O epidemiologista aponta "talvez" para agosto, quando a vacinação até aos 18 anos deverá ser concluída, mas lembra que, com uma variante com transmissibilidade tão grande, nenhuma previsão é fácil de fazer.

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