ECDC admite necessidade de novo confinamento. "Próximo inverno? Não sabemos"

Especialista considera que novo confinamento na Europa é "um cenário que precisa de ser considerado".

O principal perito do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC) afirma que o coronavírus vai continuar "a circular", e, enquanto assim for, diz Josep Jansa, "existe risco" de novas vagas de Covid-19.

Entrevistado pela TSF, a partir de Bruxelas, numa videochamada para Estocolmo, onde fica a sede do ECDC, Josep Jansa esclarece ainda porque as autoridades insistiram tanto na necessidade de controlar o pânico que, afinal, não existiu na população. E pronuncia-se sobre o tom crispado que tomou conta das relações internacionais, particularmente entre os Estados Unidos e a China. Olhando para a Europa, admite que há risco, no levantamento das restrições.

Na UE há a expectativa de que o turismo possa ajudar a salvar o verão, em termos económicos, e a Europa já está largamente, digamos que, a desconfinar. O levantando parte das medidas e estas experiências de desconfinamento, realizadas um pouco por toda a Europa, merecem algum tipo de inquietação, no Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças?

Na Europa, houve diferentes abordagens. Agora discute-se como regressar a outro cenário, a uma situação diferente. Os vários países estão a adotar abordagens diferentes, de acordo com o impacto da pandemia na sua região. Está a avançar-se devagar, lentamente, na direção certa. Ainda há alguns parâmetros que precisam ser alcançados, ao nível dos prazos, para a circulação de mercadorias e de pessoas, entre as fronteiras. Para mim, a questão principal é que ainda existem fronteiras que não são completamente abertas. E isso, é claro, é algo que deve ser totalmente resolvido.

Mas é credível pensar que essa experiência de desconfinamento não trará, ou não irá, pelo menos, dar um contributo para uma segunda vaga?

O levantamento de algumas das medidas muito rígidas que têm sido tomadas, em alguns países, é claro, pressupõe um risco de aumentar novamente a transmissão. Mas, ao mesmo tempo, agora, olhando para o número de casos e mortes, na maioria dos Estados-membros da União Europeia, é o momento de avançar nessa direção. Pode haver algum aumento, aqui e ali, mas não espero uma grande onda nas próximas semanas, ou nos próximos dias. Isto é diferente do que supomos sobre o que pode acontecer no outono. Porém, no verão, se as pessoas continuarem com a higiene das mãos, a higiene respiratória e a distância física, da maneira recomendada pela maioria dos Estados membros, podem evitar a segunda onda ou um aumento rápido.

Mas esse aumento que mencionou que pode acontecer no outono, não é uma consequência do desconfinamento de verão?

Não. O aumento ou outros cenários é porque o vírus continuará sempre a circular durante o verão. Mas num nível inferior. Mas, quando a situação ambiental e social mudar - quando houver alterações -, é quando podemos começar a ver um aumento. Mas não está relacionado com as medidas de desconfinamento. Outra coisa é que se os países adotarem uma abordagem sem tantas medidas de contenção, mais relaxada do que estamos a ver, a curva, em vez de cair drasticamente, de forma dramática, será uma curva a cair de modo lento. Seria um abrandamento mais suave e continuado por mais tempo. Podemos dizer que é um efeito das medidas de controlo e de confinamento mais ou menos rigorosas, mas não o facto de a epidemia estar a seguir uma diminuição e depois um aumento.

Referiu que ainda há questões relativamente às fronteiras. Temos ouvido sucessivamente que há países a imporem quarentenas obrigatórias, para quem chega do exterior. Vê utilidade nessas quarentenas?

Penso que, nas atuais circunstâncias, provavelmente isso [a quarentena obrigatória para quem chega] deve ser revisto, porque, se as pessoas estiverem a circular e o vírus estiver amplamente disseminado, talvez essa medida não contenha o vírus e não evite a sua continuação. Então, penso que, provavelmente, é algo que precisa de ser revisto nos países que estão a impor essa medida.

Quais são as alternativas às quarentenas?

Bem, nesta fase, uma vez que não há medicamentos disponíveis, e como não há vacinas disponíveis, a única forma são as medidas não farmacêuticas. Então, uma vez mais, sendo muito cauteloso, deve haver quarentenas. Evidentemente que é para aqueles que são sintomáticos, aqueles que são positivos, que são os que, realmente, precisam de fazer quarentena. Mas para a população em geral, apenas como medida de precaução, para todas as pessoas que chegam a um Estado-Membro ou um país, sem apresentarem sintomas nem nada, não penso que essa seja a melhor abordagem.

Com que cenários é que o ECDC está a trabalhar em matéria de imunidade? Está preocupado com a possibilidade de inúmeros pacientes não desenvolverem anticorpos? Isso é inquietante relativamente a possíveis surtos futuros?

Sim. É uma das linhas de investigação que está a avançar bastante rápido, pois, até ao momento, sabe-se que aqueles que enfrentaram, e passaram pela doença, como sempre, possuem anticorpos. O que não está completamente claro é até que ponto esses anticorpos os vão proteger no caso de uma nova exposição à doença, se pode haver uma recaída ou não. Essa é a principal preocupação. E, é isso que, como mencionei, está em análise e em estudo para garantir, o mais possível, o nível de imunidade, havendo anticorpos contra o vírus.

Ultimamente têm-se intensificado os anúncios sobre vacinas e medicamentos para tratar a Covid-19. Do seu ponto de vista, que credibilidade e que esperança podemos depositar nestas experiências?

Relativamente a termos um tratamento com um nível aceitável de proteção para quem está a ser tratado, penso que é bastante provável que nos próximos meses tenhamos algo. Os países que estão a desenvolver ensaios e estão a realizar estudos e investigações baseiam-se em experiências clínicas anteriores, com pequenas quantidades de pacientes. O que eles fazem é alargar [o estudo] para ver, num maior grupo da população, se o impacto observado no nível mais baixo também é eficaz num nível mais alto. O nível de credibilidade - ou, digamos, de expectativa, mais do que credibilidade - desses estudos dependerá da linha de base de que todos os estudos partem e também do tipo de molécula da droga que esteja a ser testada. Portanto, não é a primeira vez que nomes diferentes foram mencionados aqui e ali, que drogas diferentes foram testadas. Espero que algumas delas, mais cedo ou mais tarde, sejam comprovadamente eficazes para serem usadas como medida de proteção contra esta doença.

Este vírus dissimula-se, ataca o corpo de diferentes formas, surpreende pela forma como ataca uns e poupa outros. Presto atenção ao tom positivo do seu discurso e pergunto-me se, quando afirma que é provável que haja algo nos próximos meses, é mais uma esperança ou tem conhecimento de alguma coisa que esteja prestes a ser divulgada?

Bem, muito obrigado por esse ponto, porque não será totalmente científico, da minha parte, que eu manifeste a minha esperança, como você disse. O que me refiro é que, olhando e revendo os diferentes documentos e esboços que foram publicados, parece-me que algumas linhas de investigação estão a ir na direção certa, para alcançar resultados adequados, num curto período de tempo. E digo isto não como uma esperança, mas porque há um grande investimento, um grande interesse e muitas equipas diferentes a trabalhar em conjunto, o que significa que todo este esforço pode trazer algum tipo de solução. Não diria que espero ter "a Solução", mas alguma solução, mesmo que parcial, que possa contribuir para atenuar os efeitos da doença, principalmente nos casos mais graves.

Durante o período pré-pandémico, houve sempre uma grande concentração numa necessidade de evitar o pânico. Isso foi sempre uma questão central. Como avalia a reação das pessoas na Europa em termos de pânico no início e agora nesta fase?

Esse também é um ponto excelente porque, de início, os políticos, responsáveis de saúde pública, dirigentes, avançaram por aí, para evitar traumas desnecessários, já que a situação não era bem conhecida. O que eu vi, de modo geral, lendo jornais e na comunicação social, foi que não houve pânico na população. Penso que isso ficou claro. Mas [houve], paralelamente, um nível crescente de consciencialização, à medida que novas informações eram divulgadas. No entanto, penso que ainda existe uma grande parte da população que pensa que isto não é tão grave quanto poderia ser. O que, parcialmente, é verdade. Ou seja, a doença, em geral, não é tão grave. Mas - aqui é a parte importante da mensagem - pode ter efeitos e impacto graves num número bastante elevado de pessoas. E não apenas naqueles que têm outras condições de saúde e nos idosos. Temos visto pessoas sem essas condições que foram severamente afetadas. E essa é uma das principais razões que nos leva a ter muito, muito cuidado e prestar muita atenção a este combate.

Na Europa, ao cuidar tanto do pânico - que acabou por ser uma "doença" inexistente -, as autoridades não descuraram o foco principal, que deveria ter sido impedir a propagação do vírus?

Aqui, em termos de comunicação, ouvi algumas vezes que quando se menciona "evitar pânico" é uma mensagem errada, porque o pânico está lá e as pessoas podem pensar que estamos a esconder alguma coisa. Este é um dos aspetos. O outro é que, há uma nova doença, uma doença emergente, com muito mais incógnitas do que certezas - é por essa razão que as autoridades e os que fazem as comunicações insistiam nisso, para evitar que as crises de pânico e a crise da saúde pública estivessem juntas. Tanto quanto sei, essa é a razão por trás da mensagem. E foi por essa razão que foi repetido tantas vezes. Também há outra mensagem muito importante. É que havia alguma expectativa de que os sistemas de saúde atingissem o nível máximo de capacidade.

Como enfrenta as acusações de que o ECDC subestimou o risco associado ao coronavírus, na reunião realizada a 18 de fevereiro?

Esse artigo do El País é baseado no relatório de uma reunião e, é claro, no ECDC tivemos muitas outras e podemos verificar no geral o que viemos a dizer. Desenvolvemos as nossas mensagens de acordo com as informações disponíveis e com o que aprendemos ao longo do caminho. É verdade que no início da crise, em fevereiro, quando havia muito pouco ou nenhum caso na Europa, estávamos a considerar que o impacto seria menor. Essa foi a estimativa desde o início. No entanto, no ECDC, produzimos avaliações de risco e estamos a produzir essas avaliações regularmente. À medida que vamos sabendo mais, fomos aumentando o nível de risco, claro. Porque as informações que dispomos tornaram-se suficientes para dizermos: o risco é alto, muito alto, ou de moderado a alto. Então, acho que este artigo aponta alguns problemas que são retirados do contexto, em certa medida. Mas se disser agora muitas coisas pode parecer que estou a defender-nos contra esse artigo, o que não é o caso. O que digo é para explicar que o nível de risco mudou ao longo da crise.

Tem havido um debate fervoroso, com troca de acusações, numa tentativa de dar nome a um culpado pela situação atual. Os grandes protagonistas têm sido os Estados Unidos e a China. O nível de confronto que tem existido é motivo de preocupação no ECDC?

Não no ECDC, porque não somos uma organização política. Nós somos muito técnicos. Tentamos afastar-nos nesse aspeto. Mas é claro que, ao mesmo tempo, somos cidadãos e somos trabalhadores da população da União Europeia. E achamos que esse tipo de acusação e de debate pode enfraquecer a capacidade de algumas organizações de lidar adequadamente com uma ameaça séria, que é esta pandemia. Então, qualquer que seja a forma de contestar a legitimidade [das organizações], acho que não é bom, de todo. As discussões, as críticas, as acusações, terão de vir noutra fase. Não agora, no meio da crise. E, principalmente, quando não ajuda nada ao nível do apoio à resposta que precisa ser dada.

Realtivamente à eventualidade de uma segunda vaga? Qual deve ser o grau de prontidão dos países?

Estou a tentar ser positivo, no sentido de que estivemos expostos - não em todos os países, mas na maioria dos países - a uma primeira onda desta pandemia bastante intensa, o que significa que houve tempo para todos se prepararem o suficiente para o que virá a seguir. Vimos excelentes exemplos em Itália, Espanha e noutros países, onde conseguiram, num período muito curto, preparar novas camas, unidades de terapia intensiva, planos de contingência que foram revisitados, e tudo foi posto em prática. O meu palpite é que, sempre que surgir um novo cenário - um novo aumento, digamos assim (mais do que uma onda) -, primeiro, vamos ver que medidas não farmacêuticas podem ajudar a uma contenção abaixo do pico da curva [epidemiológica], evitando um grande impacto nos hospitais. Isto é realmente uma esperança. Não tenho qualquer evidência disso. E segundo, que os Estados-membros e países de todo o mundo estarão mais bem preparados nessa fase. Principalmente aqueles que foram afetados anteriormente.

E aqueles países que não foram severamente afetados? Portugal, por exemplo. As autoridades portuguesas têm tido algum sucesso, comparativamente com Espanha. Correm mais risco, numa segunda vaga?

Precisamos ter em consideração que muitos casos foram assintomáticos ou com sintomas muito leves. Isto significa que o vírus continua a circular na sociedade. E assim continuará. O facto de não ter tido um impacto tão alto e agudo não significa, necessariamente, que isso irá acontecer, quando o vírus passar para a segunda onda - ou para uma nova situação. Porque, como aprendemos, muitos daqueles [países] que foram severamente afetados e altamente atingidos, tendo unidades de cuidados continuados ou instalações para idosos, instalações de atendimento domiciliar - quando soubermos e todos souberem que deve ser dada atenção particular a esse tipo de unidades, penso que todos os países estarão numa posição muito melhor, quando o vírus atingir o ponto mais alto. Uma vez mais: é preciso prestar atenção específica a essas áreas. Portanto, não considero necessariamente que se não tiver atingido um pico muito alto [da primeira vez], o terá da segunda. Não acho que seja necessariamente esse o caso.

A ministra da Saúde de Portugal admite que podemos ter de passar por um segundo confinamento. Que orientações é que o ECDC está a dar e que expectativas têm, não só sobre Portugal, mas relativamente à UE?

Na verdade, tentamos ao máximo não interferir nas decisões que os Estados-membros estão a tomar, em termos de contenção ou mitigação da situação. Portanto, sempre que um país decide ir mais numa direção ou noutra, respeitamos plenamente, na medida em que isso esteja sob o princípio da contenção através do distanciamento físico, evitando a ampla disseminação. Se Portugal decidir que a melhor forma é aumentar essa contenção, provavelmente é porque é disso que o país precisará nessa fase. Penso que todos os países estão plenamente conscientes das outras consequências de uma medida dessas, para as pessoas, para a sociedade, para a economia, para a saúde mental. Portanto, temos certeza absoluta de que todos são orientados o suficiente para tomar as medidas que encontram o equilíbrio certo entre proteger as pessoas e garantir o funcionamento normal da sociedade.

Nesse sentido, tem uma ideia de como será o próximo inverno?

Eu desejaria saber, mas infelizmente não sei. O que posso dizer, com todas as incógnitas - e até com as incógnitas que desconheço -, é que, enquanto o vírus continuar a circular, podemos esperar um aumento em termos do número de casos, depois do outono e do inverno. Isso é altamente provável. A maneira como isso acontecerá, onde isso acontecerá e até que ponto isso acontecerá, ainda não podemos dizer. Estamos a trabalhar no ECDC, em conjunto com equipas em todo o mundo, ao nível de possíveis previsões, modelos matemáticos. E isso está ajudar-nos a entender melhor o que podemos esperar nos próximos meses. Mas não estou em posição de dizer que o inverno será severo e, portanto, que podemos esperar um aumento severo da pandemia.

Admite, portanto, um novo cenário de confinamento...

Talvez. Espero que isso não aconteça. Espero que isso não seja necessário, mas alguma coisa desse género é uma possibilidade. Esse é um cenário que precisa ser considerado, sim.

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