Egoísmo? Portugueses recusam fazer sacrifícios pelas gerações do futuro

Estudo revela muita preocupação quanto ao futuro do ambiente e da segurança social, mas adultos de hoje, sobretudo os mais velhos, recusam fazer sacrifícios.

A esmagadora maioria dos portugueses está muito preocupada com aquilo que espera as gerações futuras e até concorda que devia existir um limite para a dívida pública, mas dificilmente aceita que se faça alguma coisa hoje que as prejudique em nome do bem-estar dos mais novos ou dos que ainda não nasceram.

A conclusão é visível num estudo promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian que inquiriu uma amostra representativa da população nacional.

Limitar a dívida pública

A preocupação com o futuro das novas gerações é tanta que 82% até defende uma medida muito falada no tempo da troika e que nunca avançou: que se defina um limite ao endividamento público para não deixarmos um encargo tão grande às gerações futuras (a dívida de hoje será os impostos do amanhã).

Por outro lado, 68% dos portugueses julgam que deveria existir um organismo estatal destinado a defender os interesses das gerações futuras (uma espécie de Provedoria das Gerações Futuras ou uma Secretaria de Estado do Futuro).

Sacrifícios? Não, obrigado

O problema é o que fazer hoje para melhorar o amanhã e aí é que as contas são mais complicadas.

Luís Lobo Xavier, diretor do Programa Gulbenkian Sustentabilidade, explica que fizeram neste estudo uma experiência que colocou aos inquiridos uma série de hipóteses e "a resposta foi contrária ao que disseram antes". Ou seja, "as pessoas estão preocupadas com as gerações futuras, mas se de facto essa preocupação implicar um sacrifício para elas próprias, então já não estão dispostas a fazer esse sacrifício".

Por exemplo, para preservar o ambiente, a maioria recusa que se imponham mais taxas e impostos às gerações presentes para que se restrinja o consumo de bens e o uso de energias não renováveis, nem quer mais impostos para investir em novas tecnologias que garantam às gerações futuras um meio ambiente pelo menos igual ao das gerações presentes. Pelo contrário, 58% defende que "as gerações futuras aprendam a viver com menos e utilizem menos recursos e energia".

Sem cortes na minha pensão

Outro resultado aponta para que 85% da população portuguesa considera que a Segurança Social não vai dar às gerações futuras os mesmos benefícios que dá hoje às gerações que se estão a reformar.

No entanto, Luís Lobo Xavier dá o exemplo de outro estudo recente em que mais de 70% dos portugueses disse que não aceitava um corte de 10% na sua pensão para que os mais novos tivessem pensões no futuro.

Questionado se o trabalho da Gulbenkian encontrou sinais, no fundo, de egoísmo, o investigador admite que sim, "com todas as gerações inquiridas a terem propensão a escolher as decisões que as auto beneficiam, numa tendência que é mais forte entre quem tem entre 20 e 40 anos e, sobretudo, nos portugueses com mais de 65 anos".

Luís Lobo Xavier explica que as barras a cor de laranja do gráfico anterior revelam uma perspetiva egoísta e as a azul uma perspetiva altruísta a favor de outras gerações.
"Na prática", conclui, "as pessoas acabam por escolher políticas que beneficiam a sua própria geração", numa tendência que se nota, sobretudo, entre os portugueses mais velhos e, no outro extremo, entre os mais novos.

Gulbenkian preocupada

Preocupada com as gerações futuras, a Gulbenkian acaba de lançar um projeto que vai procurar, durante os próximos anos, promover, junto dos políticos e dos cidadãos, uma maior consciencialização sobre o impacto dos compromissos e daquilo que fazemos hoje para as gerações de amanhã.

A ideia passa por incentivar o uso de critérios de "justiça intergeracional na definição de políticas públicas", promovendo uma metodologia para avaliar os impactos destas para as gerações do futuro, analisando os custos e benefícios para todos - mesmo os que que ainda não decidem nem votam.

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