Em 150 apartamentos só um é habitação própria. Acontece numa rua de Lisboa

Investigadores do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa acompanharam durante dois anos a evolução do mercado habitacional numa rua em Alfama. Dos 150 apartamentos vendidos na rua dos Remédios, apenas um foi destinado a habitação própria.

O bairro histórico de Alfama, um dos mais visitados da capital, tem assistido a uma enorme transformação desde o início do "boom" imobiliário. As ruelas, o fado e a identidade única faz as delícias dos milhares de turistas que ficam deslumbrados com as particularidades de um local que a canção de Amália imortalizou.

O povo que outrora tinha a sua casa no bairro foi envelhecendo e hoje as casas foram transformadas em alojamento. Um estudo realizado por dois investigadores do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa concluiu que, na rua dos Remédios, dos 150 apartamentos apenas um se destina a habitação própria. Ou seja, naquela rua há apenas uma família de moradores.

"14% do parque habitacional já era destinado ao alojamento local. Fizemos outro levantamento um ano depois e nessa altura 25% por cento estava destinado a alojamento turístico. Houve uma subida muito drástica no número de alojamentos locais. Também importante dizer que em 2011 não havia alojamento turístico nesta área", explicou à TSF uma das autoras do estudo, Ana Gago, que falava sobre um universo de 935 casas.

A autora do estudo sublinha que em 2011, naquela rua, não existia qualquer casa destinada ao mercado turístico, referindo-se a "uma mudança muito drástica" e à "violência das transformações sociais". "É um processo em que o turismo para o investimento no tecido habitacional mas não é um investimento dirigido às pessoas", alerta.

Questionada sobre a forma como a população abandonou o bairro de Alfama, Ana Gago salienta dois casos distintos: os proprietários e os arrendatários. Os inquilinos "foram expulsos", sendo que alguns "foram forçadas a aceitar indemnizações".

"Houve uma pessoa que recebeu 10 mil euros, outros montantes mais baixos como 1000 euros." Do lado dos proprietários, a investigadora refere que a grande maioria quis vender o seu património ou arrendá-lo em regime de alojamento local. "É uma passagem do bairro residencial ao turístico".

Ana Gago aponta ainda o dedo à Câmara de Lisboa que tinha quatro prédios devolutos naquele local. Os edifícios foram vendidos e reabilitados através do programa municipal "Reabilita, paga depois" mas o destino foi mesmo o alojamento local. "Agora são pequenos hotéis".

O processo de transformação não é transversal apenas a Alfama. É uma realidade por todos bairros da capital. Para a investigadora, este é ainda um "processo em curso" que poderá estagnar em breve naquela zona. A investigadora denuncia ainda "a pressão muito grande" sobre os inquilinos que ainda não abandonaram os prédios que foram alvo da "reabilitação seletiva". "Temos casos de inquilinos cujas casas sofreram danos com essas obras e depois não foram reparados. Ficaram com rachas nas paredes ou com buracos no telhado".

Ana Gago estudou ainda os impactos negativos do crescimento do alojamento local em Alfama, concluindo que os resistentes perderam as relações sociais que tiveram durante uma vida. "Perder os vizinhos à volta, pode também ser muito violento, é isolar as pessoas que ficam, sobretudo as mais idosas", conclui.

Com a vida e a música de outros tempos, Alfama perdeu quem lá viveu durante décadas. O destino do bairro mistura-se com as palavras cantadas por Amália.

"Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção"

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