Encerramento de escolas é uma emergência. "Não é tempo para estarmos com discussões académicas"

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes defende que as medidas de contenção não são suficientes nem efetivas na redução de contágios. "O vírus já lá vai ao fim da rua e nós ainda continuamos a ver se o conseguimos apanhar", ilustra, em sinal de alerta.

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também um dos peritos que o Governo escuta nas reuniões do Infarmed, não tem dúvidas de que o fecho das escolas é uma medida que se impõe, perante uma situação "de emergência sem precedentes".

"Não é tempo para estarmos em discussões académicas sobre onde os jovens se infetam. Temos de manter a proteção relativamente aos mais idosos. Não creio que consigamos desacelerar a velocidade a que vai esta epidemia com velocidade necessária para não nos encontrarmos na situação de estarmos agora muitas semanas com os casos acima dos dez mil."

Ouvido no Fórum TSF, Manuel Carmo Gomes admite que os estudos internacionais sobre as escolas contêm informação contraditória, mas que, mediante a subida a pique da incidência da Covid-19, torna-se necessário adotar o princípio da precaução e só depois avançar para uma discussão académica.

"Não podemos continuar a fazer experiências. O vírus já lá vai ao fim da rua e nós ainda continuamos a ver se o conseguimos apanhar."

Para o epidemiologista, o confinamento determinado agora pelo Governo "é insuficiente", já que "devíamos ter reduções de 60 a 70%".

"Ao longo desta epidemia, temos estado constantemente a subestimar este vírus; eu podia fazer um historial de subestimação que fizemos do que este vírus pode fazer", alerta o perito muitas vezes ouvido nas reuniões do Infarmed. Manuel Carmo Gomes garante que "medidas que não são totalmente consequentes" apenas servirão para "atrasar o processo", e que iniciativas como o encerramento das escolas são apenas uma questão de tempo. "Mais tarde ou mais cedo, vamos lá, estamos só a adiar aquilo que parece ser inevitável."

A Irlanda, com cinco milhões de habitantes, "é também um país católico, que celebra o Natal, como nós", e "teve um aumento brutal de casos, parecia que estavam a subir uma parede", assinala o epidemiologista. "Olhem para o gráfico da Irlanda. Antes do Natal, os irlandeses estavam com menos de mil casos por dia. No início de janeiro, chegaram aos seis mil." A população irlandesa é metade da portuguesa, pelo que, à escala, significariam 12 mil casos num país com os números demográficos de Portugal.

"Eles fizeram confinamento, mas confinamento sublinhado, com letra grande, e neste momento estão com três mil casos", argumenta o epidemiologista. Manuel Carmo Gomes aponta a gravidade da situação epidemiológica em Portugal: "O senhor primeiro-ministro fez um discurso em que chamou a atenção para a necessidade da nossa responsabilidade individual nisto, e eu espero que as pessoas oiçam e vejam as notícias sobre o que se está a passar às portas dos hospitais."

O investigador quer deixar uma "chamada de atenção para os jovens", até porque "qualquer um de nós, neste momento, não pode ter uma doença, porque, se tiver uma doença, não vai ter a assistência que em condições normais teria, podem ter um acidente, podem ter a necessidade de cuidados hospitalares que, neste momento, não podem ter por causa da pressão que a Covid está a exercer".

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