Entre os refugiados da Ucrânia há jovens que "ninguém quer" acolher "porque não são brancos"

A secretária de Estado da Igualdade e Migrações estranha as declarações de Laurinda Alves: o Governo assinou um protocolo com a autarquia para 270 alojamentos de emergência que a câmara já podia ter acionado.

Cerca de 60 jovens de várias nacionalidades que estavam na Ucrânia a frequentar cursos superiores estão retidos num centro de acolhimento de emergência em Lisboa, ainda a aguardar alojamento.

Para a vereadora dos Direitos Humanos e Sociais na Câmara de Lisboa, Laurinda Alves, "porque não são brancos, estão lá, ninguém os quer". André Costa Jorge, coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados, concorda: é um caso de racismo.

"Muitas pessoas que se disponibilizaram para o acolhimento de refugiados ucranianos ficam surpreendidas quando nós propomos, por exemplo, que se acolham pessoas afegãs ou pessoas não ucranianas, mas são refugiados, são pessoas que precisam das mesmas oportunidades", afirma, em declarações à TSF.

"O racismo tem muitas formas, há formas mais flagrantes e formas mais subtis de o manifestar", lembra André Costa Jorge. "É preciso combater o preconceito".

Há que "ser criativo" para encontrar soluções de habitação para quem foge da guerra e criar parcerias de apoio, apela ainda o coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados, dando como exemplo o caso de uma refugiada ucraniana que já encontrou trabalho em Portugal mas que não consegue aceder ao mercado de arrendamento porque não tem fiador.

Vereadora socialista vai pedir esclarecimentos

Em declarações à TSF, a vereadora do PS na Câmara Municipal de Lisboa, Inês Drummond, vai pedir esclarecimentos à vereadora dos Direitos Humanos e Sociais na Câmara de Lisboa, sobre estes casos.

"Fomos surpreendidos com esta situação e ainda mais nos surpreende o que a vereadora nos disse de que se essas pessoas fossem brancas o assunto delas estaria resolvido".

"Compete à vereadora dos Direitos Humanos e Sociais fazer tudo o que está ao seu alcance para resolver esta situação", aponta. "Mas enquanto a câmara municipal não estiver disponível para alocar verbas para dar resposta [a estes casos] e depender exclusivamente da caridade dos lisboetas não vamos lá".

Câmara não acionou protocolo

Também nesse sentido, a secretária de Estado da Igualdade e Migrações estranha as declarações de Laurinda Alves. Ouvida pela TSF, Isabel Rodrigues afirma que o Governo assinou um protocolo com a autarquia para 270 alojamentos de emergência que a câmara já podia ter acionado.

Ainda há dias, afirma a secretária de Estado, o Alto Comissariado para as Migrações esteve com a vereadora para resolver a situação destes 60 refugiados retidos no centro de acolhimento de emergência em Lisboa.

Por outro lado, o Conselho Português para os Refugiados, que também tem recebido refugiados provenientes da Ucrânia de outras nacionalidades, assegura que não tem verificado situações de racismo.

Em declarações à TSF, a presidente Mónica d'Oliveira Farinha explica que a lei de acolhimento temporário abrange todas as pessoas que estavam na Ucrânia quando a guerra começou e que as dificuldades de integração são comuns.

No caso dos jovens retidos em Lisboa são "rapazes, que vieram da Ucrânia, que não são ucranianos nascidos na Ucrânia, mas estavam a estudar Medicina, Finanças, Gestão, Arquitetura, Design" e que "têm a expectativa legítima de continuar a estudar", afirmou esta terça-feira Laurinda Alves.

"É realmente uma realidade muito difícil e não é só racismo, também é, no imaginário comum, se nós dissermos 'um marroquino, um argelino, um rapaz que vem da Costa do Marfim, um muçulmano', as pessoas nem sempre sabem como é que hão de acolher", defende a vereadora.

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Notícia atualizada às 12h50

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