Envolvente ao abrigo onde morreram animais em Santo Tirso não estava limpa

Os abrigos em Santo Tirso onde morreram dezenas de animais carbonizados já tinham sido alvo de uma queixa em 2018.

O abrigo na serra da Agrela, em Santo Tirso, onde no sábado morreram 54 animais vítimas de um incêndio, não tinha os terrenos anexos limpos, mas sobravam avisos de que a propriedade tem dispositivo de segurança.

No alto da serra da Agrela, a cerca de 15 minutos a pé das casas mais próximas, cerca de 200 cães e gatos foram durante anos "abrigados" naquele espaço apesar das críticas das associações protetoras de animais, mantendo-se as instalações em funcionamento apesar das multas que o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR foi instaurando.

Em dezembro de 2017, a Lusa deu conta da abertura de um processo-crime pelo DIAP do Porto aos dois abrigos existentes no local, "Cantinho das Quatro Patas" e "Abrigo de Paredes", mas oito meses volvidos o Ministério Público arquivou o processo-crime, considerando "não haver crueldade em manter animais num espaço sujo, com lixo, dejetos e mau cheiro", como refere o despacho.

Quase dois anos passados, os dois abrigos voltaram a ser notícia pelos piores motivos e, no local onde tudo aconteceu no sábado, à porta do "Cantinho das Quatro Patas, Catarina Ferraz, voluntária da causa animal, explicou o que as autoridades podiam fazer mas não fizeram.

"A câmara [de Santo Tirso] já tinha sido avisada do que estava a acontecer aqui já fez três anos e nunca agiu. [Durante a contestação] passaram aqui funcionários da câmara e não saíram do carro. De certa forma não quiseram saber e as pessoas ficaram desagradadas com essa inação", relatou a voluntária.

Reiterando que os "maus-tratos aos animais" são anteriores ao incêndio, Catarina Ferraz falou de "condições péssimas de habitação" para animais que "estavam subnutridos, não tinham água, não tinham comida".

O facto de os terrenos em torno do abrigo não estarem limpos é para a interlocutora "mais uma prova da inação da Câmara de Santo Tirso", lembrando que o executivo liderado pelo socialista Alberto Costa "recebeu inúmeras queixas, mas continuou sem limpar os terrenos".

"A proprietária de certeza que sabia da situação em torno da sua propriedade e continuou sem agir", acrescentou.

Em comunicado no domingo à noite, a câmara anunciou que "em articulação com a GNR, durante a noite deste domingo e o dia de segunda-feira, será feita uma vigilância em toda a área envolvente dos dois abrigos de animais na freguesia de Agrela, no sentido de encontrar outros animais que não tenham sido realojados", ação que Catarina Ferraz considerou despropositada.

"Acho que não há animais assustados fugidos pela serra porque à volta do terreno há arame farpado e eles não conseguem sair", disse, sendo certo que no tempo em que a reportagem da Lusa esteve no local não foi visível a presença de patrulhas.

"Não existia segurança para os animais, nem plano de contingência"

Ana Isabel Silva, representante do Bloco de Esquerda em Santo Tirso, relatou à Lusa uma "reunião em 2018 com o veterinário municipal da câmara para falar desta situação", tendo sido informados por este de que "sabia do que se passava nos abrigos, tal como a câmara municipal".

"O incêndio veio mostrar o problema que existia aqui, que não existia segurança para os animais, nem plano de contingência para o caso de haver incêndio", lamentou Ana Isabel Silva.

A Associação dos Amigos dos Animais de Santo Tirso (ASAAST) foi um dos locais que recebeu uma parte dos 190 animais resgatados do abrigo, com a presidente Fátima Meinl a descrever à Lusa a situação de dez dos 11 animais recebidos, informando que um deles foi reencaminhado para casa de um voluntário.

Na triagem feita ainda no local do incêndio, explicou a responsável, "os que estavam feridos foram para as clínicas e os restantes, que não apresentavam riscos de vida, foram distribuídos por associações e por canis".

"Os que aqui estão em comum têm pânico, estão apáticos. Fisicamente, oito deles tinham muitos parasitas, estavam subnutridos e três tinham feridas, que estão a ser tratadas", descreveu.

Conseguida a estabilização, a recuperação, segundo Fátima Meinl -, "vai ser caso a caso", estando no horizonte da ASAAST a recuperação "o mais rapidamente possível dos animais para poderem ser adotados".

Entretanto, foi marcada para hoje, às 21:30, uma vigília diante da Câmara de Santo Tirso, para que "honrar a memória dos animais que perderam a vida e dos que continuam a sofrer por conta desde incêndio", disse à Lusa Catarina Ferraz.

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