Especialistas dividem-se sobre vacinação de adolescentes

Henrique Barros, especialista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, defende que a decisão já devia ter sido tomada há mais tempo e o presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos garante que os pediatras vão cumprir as recomendações, mas o vice-presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia diz-se triste com a decisão.

Henrique Barros, especialista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, considera que esta decisão da Direção-Geral da Saúde já podia e devia ter sido tomada. O que se sabe sobre a vacina, segundo o especialista, já é conhecido há muito tempo.

"A vacinação entre os 12 e os 15 anos estava indicada e podia ser já proposta há bastante tempo. Na verdade, o conjunto de hipotéticos conhecimentos que têm surgido nos últimos dez dias não muda nada aquilo que se sabia e a decisão devia ser a mesma há já bastante tempo. É importante que tenha existido uma tomada de decisão baseada no conhecimento, o que não foi o caso há uns dias", explicou à TSF Henrique Barros.

O especialista em saúde pública lembra que as crianças são transmissoras do vírus e continuam sintomáticas durante muito tempo.

"Assumiu-se que a infeção nas crianças não tinha importância porque resultava em poucos internamentos e em, felizmente, praticamente não existirem mortes, mas estamos a esquecer-nos que uma proporção muito importante dessas crianças permanece sintomática vários meses depois de ter infeção aguda. Se repararmos, a faixa etária dos dez aos 19 é a segunda, há vários dias, onde são diagnosticados mais casos e, provavelmente, o subdiagnóstico até será mais alto nessas faixas etárias exatamente porque não se teme tanto as consequências da doença como acontece nas faixas etárias mais velhas", afirmou o especialista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

O professor admite que, com a vacinação universal, mesmo que noutros continentes isso não aconteça, o vírus pode ser praticamente erradicado.

"Com a vacinação universal podemos imaginar que eliminamos a infeção e se não vamos conseguir erradicá-la porque há uma enorme desigualdade no acesso a vacinas em todo o mundo, teremos pelo menos capacidade, no nosso espaço geográfico, de ter um controlo muito claro sobre a ocorrência de casos e caminhar num sentido de ter valores absolutamente residuais de casos", considera Henrique Barros.

Para o especialista era importante que os adolescentes entre os 12 e os 15 anos fossem vacinados antes de começar o ano letivo.

"Era muito importante que isso fosse possível porque ajudar-nos-ia não só do ponto de vista da nossa compreensão dos fenómenos e da nossa tranquilidade a iniciar a abertura das escolas, mas também porque, objetivamente, quanto mais crianças estiverem vacinadas, mais improvável é que aconteçam surtos nas escolas que afetem quer os professores quer as crianças", alerta o especialista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

Jacinto Gonçalves, vice-presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e um dos 30 médicos que assinou a carta que se insurgia contra a vacinação de crianças, diz que não esperava esta decisão da DGS e está triste.

"Estou triste porque nunca esperava que houvesse este tipo de decisão. Apenas quatro crianças morreram, no grupo até aos 18 anos, e tinham comorbilidades. A expressão da doença é mais pequena que a expressão de uma gripe, então porque é que se está a submeter as crianças a uma vacina que tem alguns riscos? São raros, mas são riscos. Vamos aguardar", confessou Jacinto Gonçalves.

Por sua vez, Jorge Amil Dias, presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos, garante que os pediatras vão cumprir as recomendações da DGS.

"A direção do colégio de especialidade que represento reconhece a competência da autoridade de saúde. Como tal tomo boa nota e cumprirei, dentro da minha possibilidade, as normas da Direção-Geral da Saúde. Fizemo-lo antes e não faria sentido não o fazer agora", garantiu Jorge Amil Dias.

O presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos tinha já considerado prudente aguardar por dados mais sólidos antes de avançar para a vacinação contra a Covid-19 das crianças e dos jovens.

Em declarações à TSF lembra o caso da Alemanha e sublinha que não teve acesso aos novos dados citados pela DGS.

"Esta nova informação não era do meu conhecimento embora soubesse, tal como todos os portugueses, da polémica e rejeições de vários quadrantes. Não desejo acrescentar nenhum argumento à polémica, aquilo que fiz e que outros colegas fizeram foi apresentar problemas e argumentos que deviam ser devidamente ponderados. Respeitamos a decisão da Direção-Geral da Saúde há uma semana como respeitámos as anteriores. Na Alemanha, que foi usada como um bom exemplo paradigmático de mudança de opinião, esta decisão não mudou do ponto de vista técnico, mudou do ponto de vista político, o que é uma decisão aceitável", acrescentou o presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos.

A Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) considera que a decisão da DGS dá tranquilidade, mas o presidente da instituição fala de alguma confusão na forma como a informação tem sido transmitida. Jorge Ascensão receia que isso deixe dúvidas a alguns pais sobre se devem ou não vacinar os filhos.

"Houve alguma confusão na informação que foi passada e é óbvio que algumas famílias neste momento terão algum sentimento de desconfiança porque, de repente, mudou. Sempre dissemos que era bom que a informação fosse clara, coerente e que queríamos garantida a segurança dos nossos filhos e de toda a população. É isso que desejávamos", disse Jorge Ascensão.

A Direção-Geral da Saúde não garante que estes jovens estejam todos vacinados até ao início do ano letivo, daqui por um mês. Por isso, Jorge Ascensão lamenta que não tenha sido possível avançar mais cedo.

"É um aspeto que, sendo favorável e dando maior segurança, esperamos que se possa fazer o mais rápido possível. Seria bom que pudessemos tratar disso mais cedo e de ter certezas mais cedo, até para, no início das aulas, termos essa maior segurança. Nas escolas teremos o que for necessário em termos de regras para que todos os que lá estão e as próprias famílias estejam em segurança", acrescentou o presidente da Confap.

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