Estar de quarentena não é como estar de férias. Guia para manter a saúde mental
Surto de coronavírus

Estar de quarentena não é como estar de férias. Guia para manter a saúde mental

O novo coronavírus é uma ameaça à saúde física, mas há também riscos para a saúde mental a considerar. A Ordem dos Psicólogos criou um guia de boas práticas para quem tem de se submeter a uma situação de isolamento.

Como ocupar o corpo e a mente quando se está de quarentena e não se tem, como o Presidente da República, a proposta do Governo de Orçamento do Estado de 2020 para analisar? Neste caso, como noutros, Marcelo dá o exemplo e explica que não só tem feito as suas próprias refeições, como tem, ele próprio, tratado da roupa e de outras tarefas domésticas.

Mesmo com um teste negativo, o Presidente quis dar o exemplo e decidiu aguardar em isolamento a passagem do período máximo de encubação do novo coronavírus: 14 dias. Em entrevista à televisão, através de videochamada, o Presidente admitiu que a situação pode ser "desagradável e incomodativa", mas é a atitude responsável a tomar.

Se é verdade que Marcelo Rebelo de Sousa é o único chefe de Estado europeu em isolamento - mas também o único que manteve os beijinhos e selfies já o surto do novo coronavírus tinha chegado a Portugal -, não é menos verdade que em Portugal, como um pouco por todo o mundo, há cada vez mais pessoas nesta condição, isoladas do mundo, enquanto o mundo anda numa luta contra o tempo para travar esta epidemia ainda sem fim à vista.

A Ordem dos Psicólogos emitiu, por isso, um guia de boas práticas a adotar por quem está a passar por uma situação de isolamento.

Estou de quarentena. E agora?

1. Mantenha-se atualizado: Consulte uma ou duas vezes por dia as informações de instituições oficiais, "mas limite a sua exposição a notícias que possam aumentar a sua ansiedade e preocupação";

2. Peça ajuda para obter o que precisa para se sentir seguro e confortável, como medicamentos, compras, produtos de higiene pessoal ou meios de comunicação;

3. Mantenha o contacto com amigos e família: O isolamento físico não implica um afastamento social incontornável. "Falar com pessoas de quem gosta e em quem confia é uma das melhores formas de reduzir a ansiedade, a solidão ou o aborrecimento durante o período de isolamento", destaca a Ordem dos Psicólogos. Use o telefone, o email, as mensagens, as redes sociais e videochamadas para permanecer em contacto;

4. Relaxe: Mantenha-se ocupado com atividades e tarefas que lhe deem prazer e tranquilidade, como ler livros, ver filmes ou séries. "Aproveite também a oportunidade para fazer coisas para as quais não costuma ter tempo", aconselham os psicólogos;

5. Mantenha a rotina:Levante-se à hora habitual, vista-se e faça as refeições a horas. Se possível, trabalhe a partir de casa;

6. Faça exercício físico: Lembre-se da máxima "corpo são, mente sã" e realize atividades físicas simples como dança, yoga ou exercícios de fortalecimento do core no chão de casa. Há vídeo online em que se pode inspirar;

7. Aposte numa alimentação equilibrada;

8. Mantenha uma atitude positiva: Confie nas suas capacidades para lidar com situações adversas e recorra às estratégias que costumam resultar consigo noutras situações difíceis. Fale com amigos, família ou profissionais de saúde sobre a sua experiencia e "mantenha-se esperançoso e confiante de que tudo vai correr bem." Afinal, o isolamento não vai durar para sempre;

Isolamento com crianças

Uma situação de quarentena pode ser particularmente difícil para crianças pequenas, lembra a Ordem dos Psicólogos. "Podem sentir-se tristes, ansiosas, com medo, confusas com a alteração das rotinas diárias e com saudades dos amigos. Podem fazer mais birras e mostrar-se mais dependentes, irritáveis e terem dificuldade em adormecer."

Perante eventuais conflitos os pais devem ser compreensivos e pacientes, tentando resolve-los rapidamente. "Dê-lhes oportunidade para expressarem os seus sentimentos e receios. Explique-lhes o que se passa e tranquilize-as utilizando linguagem apropriada à idade." As crianças devem perceber a importância do isolamento e compreender que são apenas alguns dias.

Os psicólogos lembram ainda que os menores podem ficar facilmente perturbados pelo que ouvem ou veem na televisão, pelo que a exposição a notícias que as possam perturbar deve ser limitada.

Manter a rotina é importante, também para os mais pequenos. A hora das refeições deve ser a habitual, assim como a hora de dormir.

No caso de crianças em idade escolar, pode pedir aos professores que enviem por email informação de estudo, atividades ou trabalhos.

As crianças não deixam de ser crianças e devem ter espaço para brincar. Uma situação de quarentena familiar pode ser usada para passar mais tempo com os filhos, privilegiando atividades como jogos de tabuleiro, trabalhos manuais, desenhos ou leitura em vez do recurso à tecnologia.

Por outro lado, sendo possível, os cuidadores devem ter também algum tempo apenas para si próprios, lembram os psicólogos.

É normal sentir-me assim?

Todas as pessoas reagem de forma diferente a uma situação de isolamento. Não existe uma forma 'certa' de reagir, lembra a Ordem dos Psicólogos No entanto, numa experiência de isolamento é normal sentir:

Ansiedade e medo relativamente à própria saúde, à saúde de outras pessoas próximas ou com quem possa ter contactado, e à experiência de ter de monitorizar sintomas de doença;

Preocupação com o facto de amigos ou familiares terem de ficar em isolamento por terem contactado connosco, com o facto de ficarmos afastados do trabalho e com as dificuldades logísticas de não poder sair de casa e realizar as rotinas habituais.

Angústia por não poder cuidar dos filhos, de outras pessoas que habilitante tem cargo ou de dependermos de outros;

Incerteza sobre o que vai acontecer no futuro;

Solidão por estarmos afastados da sociedade e de família e amigos;

Frustração e aborrecimento por estar impedido de fazer a vida normal;

Zanga por pensarmos que fomos expostos ao vírus devido à negligência de outras pessoas ou pela situação de isolamento em si;

Tristeza, medo, falta de esperança, desejo de consumir álcool e drogas, alterações de apetite ou dos hábitos de sono.

Ouvido pela TSF, o Bastonário dos Psicólogos considera que os portugueses estão sensibilizados e disponíveis para acatarem ordens de isolamento necessárias para conter o surto de Covi-19, mas sublinha que isso traz sempre problemas de ansiedade.

E depois da quarentena?

Terminado o período de isolamento, pode sentir um "misto de emoções", como tristeza, raiva, e alívio, nota a Ordem dos Psicólogos. Além disso pode ser mais difícil lidar com amigos e familiares, sobretudo aqueles que revelaram receio de contrair a doença por terem contacto.

"Se experienciar stresse, nervosismo ou ansiedade extremas, dificuldades em dormir, comer de mais ou de menos, incapacidade em realizar as atividades do dia-a-dia ou desejo de consumir álcool e drogas para lidar com a situação, ligue para SNS24 (808 24 24 24) ou fale com um profissional de saúde."

A ministra da saúde vai reunir-se na próxima sexta-feira com as ordens profissionais e já conversou com o bastonário da Ordem dos Psicólogos para que exista também apoio psicológico disponível na linha SNS24.

A experiência de quem está em isolamento

João Pedrosa, o português em Wuhan que tem descrito através de crónicas na TSF o seu dia-a-dia em isolamento profilático, conta que tem mantido a saúde mental com ajuda de "uma agenda diária completa."

"Leitura, ouvir música e assistir a alguns filmes ajudam o meu cérebro a relaxar. A prática de exercício físico e uma alimentação regular e equilibrada ajudam a fazer-me sentir fisicamente são.

João Pedrosa está há sete semanas sozinho em casa e diz não se sentir psicologicamente "afetado", apesar de "um bocadinho falto de ouvir a palavra coronavírus".

Segundo a antropóloga macaense Loretta Lou, a clausura parece afetar mais as mulheres e pode agravar conflitos familiares. "O que sabemos agora é que as mulheres parecem ser mais afetadas pela permanência do que os homens, pois são as únicas responsáveis pela culinária e pelo ensino em casa", sublinhou em declarações à Lusa a investigadora da Universidade de Macau.

"Embora a permanência em casa possa significar mais tempo feliz e de qualidade para algumas famílias, os casais que lutam no seu relacionamento conjugal terão dificuldade em ficar num pequeno apartamento 24 horas por dia, sete dias por semana".

Há dezenas pessoas em quarentena preventiva em Portugal por terem tido contacto com doentes contagiados pelo novo coronavírus. No entanto, nem todos estarão a cumprir as recomendações das autoridades de saúde. É o caso de Felgueiras, onde há "indícios" de haver pessoas que não estarão a respeitar a situação de isolamento e continuam a circular "como nada se passasse".

A quarentena não é obrigatória em Portugal mas artigo assinado por cinco epidemiologistas e especialistas em saúde pública de várias universidades, entre eles o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, defende que é preciso clarificar a Constituição da República Portuguesa para facilitar a interpretação da lei em casos de isolamento forçada por riscos de contágio em casos de doenças infecciosas.

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