Estrela, a aldeia que não é para velhos nem para novos

A Estrela é uma aldeia que a barragem de Alqueva transformou numa península. Apesar da chegada da água, os dias têm sido de desilusão, com os mais novos a abandonarem a terra. Agora a população tem um novo sinal de esperança.

Ana Maria dá voz à desilusão depois da esperança prometida anos fio, que anunciava um futuro promissor com a albufeira de Alqueva a banhar a aldeia da Estrela. "A nossa aldeia está deserta. Eu ainda podia trabalhar, mas não tenho onde trabalhar no campo. Isso já não há", justifica.

Esta moradora de 56 anos viu partir as duas filhas, que contribuíram para que hoje a população esteja abaixo dos 50 habitantes. Já foram mais de 300 há uns 40 anos, mas Maria Joana explica que à medida que o trabalho foi faltando os braços mais jovens abandonaram as origens.

"Esta terra não é para velhos nem para novos, não há trabalho", resume, recordando que a partir do momento em que a barragem encheu "até as pessoas que tinham gado e terras ficaram com tudo debaixo de água", diz ao lado das vizinhas da rua da Parreira, a mais central da aldeia ribeirinha, mas onde só a presença da TSF consegue garantir a curiosidade de quatro pessoas a meio da tarde.

A escola e o parque infantil estão vazios. Não há crianças desde que a mãe do pequeno Francisco também decidiu ir procurar melhor sorte no vizinho concelho de Reguengos de Monsaraz, lamenta Antónia Carapeto Coelho. Por andam, então, as caras mais jovens? "Os mais novos têm hoje 23 e 24 anos anos, são dois ou três Depois há mais três ou quatro com 30 e tal, uns seis com 60 e tal e o resto é tudo com 70 e 80 anos."

É preciso entrar na Associação de Moradores da Estrela para se encontrar um contraciclo, com a chegada à terra de um lisboeta. Aos 30 anos David Gomes, que já abriu uma unidade de alojamento local, toma conta do bar da associação. Diz que acredita no futuro da Estrela, mas pede investimento privado, recordando que as comportas de Alqueva já fecharam há quase 20 anos "mas ainda aqui não aconteceu nada e a água não dá comida a ninguém".

Pela aldeia são muitas as casas fechadas. Algumas vendem-se, mas outras estão simplesmente devolutas. E até vão surgindo compradores que procuram imóveis para férias e fins de semana, havendo ainda quem conserve a casa da família para regressar à terra em tempo de caça, como é o caso de António Ferreira, que há uns anos foi viver para o Pinhal Novo (Palmela). "Da minha criação não está cá ninguém", resume.

A Junta de Freguesia da Póvoa de São Miguel assume dificuldades em dinamizar a aldeia. O presidente António Montezo lamenta que as expetativas tenham sido exageradas, desencadeando a desilusão a que se assiste nos dias de hoje. E lembra como recentemente uma nova esperança foi por água abaixo. Chegou a admitir-se a possível criação de uma praia fluvial para atrair turismo, mas, afinal, o projeto já está canalizado para Moura.

Agora é a Câmara mourense que tenta levar um sinal de esperança à aldeia, tendo apresentado a candidatura da Estrela a Aldeia dos Sonhos 2019, estando a formalização da nomeação agendada para esta terça-feira no âmbito da Gala Social INATEL, no Teatro da Trindade, em Lisboa.

A Aldeia dos Sonhos é um programa que vai na sexta edição destinando-se a localidades com menos de uma centena de habitantes, que ambiciona contribuir para o desenvolvimento social das comunidades isoladas e de pequenas dimensões, integrando-as nos roteiros turísticos que a Fundação INATEL organiza no âmbito da sua atividade, "com a consequente dinamização da economia local e do território", segundo resuma a autarquia de Moura.

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