Falhas da Carris Metropolitana deixam centenas de crianças em Setúbal sem transporte escolar
Transportes Públicos

Falhas da Carris Metropolitana deixam centenas de crianças em Setúbal sem transporte escolar

A Câmara de Setúbal estima que, só em Azeitão, cerca de 400 crianças não têm autocarros para irem à escola. A autarquia e as juntas de freguesias convocaram uma manifestação contra o "mau serviço" da Carris Metropolitana.

É com emoção e revolta na voz que Manuela Inácio se levanta para criticar o serviço da Carris Metropolitana em Setúbal.

"Desde Março, sou uma doente oncológica. Perdi consultas já no hospital. As duas últimas tive de ir de táxi", porque não havia autocarros.

Como Manuela, muitos doentes queixam-se de terem falhado exames e consultas por falta de transporte. Há relatos de trabalhadores que foram dispensados por chegarem sempre atrasados, avós que esperam horas nas paragens depois de irem buscar os netos à escola.

O filho tenta confortar Manuela, acariciando-lhe as costas, quando a mulher se emociona ao confessar uma dor na alma. Há quase quatro semanas que não vê a família que vive na Quinta do Anjo, em Palmela, "porque para virem almoçar com a mãe, ao fim-de-semana, chegam-me a casa já ao meio-dia, quando estão na paragem a partir das oito. E depois para regressarem, vão-se embora mal acabam de almoçar, para ficarem quatro a cinco horas no interface à espera que os levem para a Quinta do Anjo. Na última vez, tiveram de pagar 25 euros para chegarem lá, porque esperaram cinco horas para que os levassem lá. Portanto, estou a perder até a minha família graças a esses senhores".

As queixas acumulam-se há quatro meses, desde que a Carris Metropolitana assumiu o serviço, que foi concessionado à empresa Alsa Todi.

A Câmara de Setúbal reconhece que a situação é "dramática" e "muito grave". Nos últimos dias, tem promovido reuniões com os moradores para ouvir queixas e procurar soluções.

Num desses encontros, que juntou cerca de 80 pessoas, a utente Elisa Dâmaso conta que, de repente, começou a chegar atrasada ao trabalho. "Nos primeiros dias, a minha chefe andou a dar-me na cabeça porque achava que eu adormecia, até perceber pelas conversas das restantes pessoas, que o problema não era meu. A Alsa Todi e a Carris Metropolitana andam a destruir a vida de muita gente", acusa. "Os horários são ridículos. Pessoas idosas que têm exames e consultas, pelas quais esperaram meses e anos, chegam àquele dia e falham porque não têm um transporte. Começou a escola e não há transporte para as crianças."

Com 12 anos, Liliana confirma que "muitas vezes, os autocarros não aparecem. Temos de ficar duas horas à espera, como eu já fiquei". Vários colegas de Liliana chegam atrasados às aulas e "muitas vezes, os nossos pais têm de nos ir buscar".

O presidente da Câmara de Setúbal admite que os utentes têm razão para estarem revoltados.

André Martins adianta que já há processos em curso para multar a Alsa Todi, por incumprimento do contrato. A autarquia está à procura de autocarros alternativos para garantir o transporte escolar, porque há centenas de alunos afectados pelas falhas da Carris Metropolitana. "São, sobretudo, os jovens do 2.º e 3.º ciclo e do secundário. E sobretudo, nas freguesias da periferia como é o caso de Azeitão, Gâmbia-Pontes-Alto da Guerra e do Sado." No caso de Azeitão, André Martins estima que 400 alunos não têm transporte escolar, porque a freguesia não tem ensino secundário e os jovens têm de deslocar-se para Palmela, Sesimbra e Setúbal.

A autarquia está a contactar várias empresas do Alentejo para garantir estes circuitos, uma vez que não existem autocarros na Área Metropolitana de Lisboa.

André Martins espera que o problema esteja resolvido na próxima semana, mas para pressionar a Alsa Todi, apela à participação num protesto marcado para sábado. "É uma manifestação de força", para que "possam perceber e com maior urgência, cumprir os contratos". O autarca pede ainda que os setubalenses guardem os comprovativos das despesas com táxis e TVDE's, usados em caso de falha dos autocarros, para eventualmente serem ressarcidos no futuro.

Ouvido pela TSF, o director de operações da Alsa Todi, Sérgio Adegas, entende que "não correu nada mal", admitindo apenas "alguns constrangimentos que advêm da falta de motoristas", devido às "muitas alterações de serviço e muitas necessidades adicionais".

Ainda assim, o responsável pede desculpa e sobretudo, paciência aos utentes. "O pedido de desculpa é sempre devido, até porque reparamos que as pessoas têm sofrido muitos constrangimentos", mas mais do que as desculpas, Sérgio Adegas apela à paciência, com uma mensagem de "esperança e tranquilidade. Tenham a certeza que, nos tempos mais próximos, a situação estará completamente regularizada e que poderão voltar à vida normalmente".

O director de operações de Alsa Todi revela que já foram contratados 75 motoristas em Cabo Verde e acredita que "na próxima semana, já teremos, em Portugal, os motoristas prontos para serem formados". Sérgio Adegas garante que "durante o mês de Outubro, com certeza, o serviço será muito melhor do que aquilo que é hoje".

Por enquanto, "é uma vergonha", clamam os setubalenses, que ponderam não pagar o passe em Outubro, pedir indemnizações e sair à rua.

A manifestação está marcada para este sábado, às 10h30.

Os passageiros, como Adelina Rocha, querem saber "porque é que a população de Setúbal anda há quatro meses a penar nas paragens de autocarros? Vejo os autocarros a virem, mas vêm fora de serviço. Não sei qual é essa a rota. É o que a gente vê mais na cidade de Setúbal: autocarros fora de serviço!"

* A autora não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico

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