Lisboa, 16/02/2022 - O pneumologista Filipe Froes para a entrevista Em Alta Voz DN-TSF. Filipe Froes
Em Alta Voz

Filipe Froes: "Os dois vencedores da pandemia são a ciência e a população"

Nos últimos dois anos, os chamados "especialistas" saíram dos consultórios, laboratórios e salas de conferências para a ribalta - aos nomes associamos caras e durante todo este tempo ajudaram-nos a perceber o que estava a acontecer com a pandemia. Os pneumologistas foram dos mais requisitados, para explicar os efeitos de um vírus desconhecido e mortal. É o caso de Filipe Froes, médico, pneumologista, doutorado em saúde pública, Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Pulido Valente, consultor da Direção-Geral da Saúde e coordenador científico da área de infeções respiratórias do Plano Nacional para as Doenças Respiratórias. Na ordem dos médicos é o coordenador do gabinete de crise para a COVID 19. Acredita que a pandemia foi vencida pela ciência e pela população, que confiou na ciência; e defende que deve haver um plano nacional de combate ao Longo Covid.

Há consenso sobre o aliviar das medidas, mas permanecem ainda alguns alertas. Como e quando devem ser levantadas as restrições?
Os portugueses ganharam o direito de aliviar as medidas, sem qualquer sombra de dúvida. Temos múltiplos indicadores que provam isso. A diminuição sustentada do número de novos casos, a diminuição sustentada do número de novos casos em internamento em cuidados intensivos, ainda não se está a verificar a diminuição a nível da mortalidade, mas há um outro fator, que talvez seja o mais importante deles todos e o que tem mais implicação no futuro, que é o famoso R(t). Provavelmente, antes da pandemia ninguém sabia o que era o R(t) e agora entrou na terminologia. E o R(t), neste momento, está 0,7 e isso faz-me lembrar quando foi a primeira onda da pandemia, em 2020. Os especialistas foram consultados - e eu aí também fui consultado -, para saber que valores e parâmetros gostaríamos para abrir o país. Nessa altura, o valor ideal para abrir o país era um R(t) inferior a 0,7. Temos, neste momento, uma queda abrupta de todos estes indicadores e Portugal, digamos, está numa fase extremamente próxima de poder dizer que o impacto da pandemia é perfeitamente controlável ou, digamos assim, nós domesticámos a pandemia. Portanto, pode haver dúvidas de como fazer e quando fazer, mas não há nenhuma dúvida de que podemos e devemos fazer. E porque é que podemos e devemos fazer? Até por uma questão de credibilidade. Não nos podemos esquecer de que foram exigidos à população muitos sacrifícios, de acordo com o nível de atividade, agora é perfeitamente natural que façamos o caminho inverso, até para que as pessoas percebam que há coerência nas medidas, há credibilidade nas medidas, e esta credibilidade beneficia a todos, mas também prestigia as medidas de saúde pública e os médicos de saúde pública que as fundamentaram.

E que restrições devem ser levantadas no imediato?
Temos vindo a falar várias vezes sobre isso no gabinete de crise. Tenho a sorte de coordenar o gabinete de crise porque, realmente, as pessoas que o constituem são uma equipa de luxo. É preciso incidir o alívio das medidas de forma coerente, faseada, monitorizada e acompanhada de medidas em que as pessoas percebessem que a pandemia não acabou. E fizemos uma proposta - aquilo a que chamamos prova de conceito, com um balizamento do faseamento. O primeiro pilar seria o número de internamentos por 100 mil habitantes, em que também definimos três zonas, e chamámos-lhe "o semáforo" para questões de compreensão. E, portanto, aquilo que foi hoje apresentado no Infarmed como nível zero - que seria para nós a zona verde -, e que no Infarmed foi apresentado com dois critérios: o critério de número de óbitos por milhão de habitantes, de acordo com a estimativa do ECDC, que seria menos de 20 óbitos por milhão de habitantes - nós ainda estamos acima dos 50 óbitos por milhão de habitantes, mas a descer -, e o segundo critério seria a ocupação de cuidados intensivos inferior a 70. Quanto à ocupação inferior a 70, desde o dia 8 de fevereiro que já temos esse valor, portanto, nem existe este segundo pilar. Nós propusemos três pilares que são: número de internamentos por Covid, em que o pilar da passagem do nível um para o nível zero, ou seja, da zona amarela para a zona verde, seria dez, porque já é um número de referência que está a ser proposto, por exemplo, nos Estados Unidos. Além disso, o pilar da zona onde estamos agora, que seria a zona vermelha, para passar de nível dois para nível um, portanto, para a zona amarela, seria 25 e aqui até já ultrapassámos, porque se tivermos dez por 100 mil habitantes num país com 10 milhões, significa mil internamentos. 25 por 100 mil habitantes num país com 10 milhões significa 2500 internamentos, nós temos 2100, portanto, já ultrapassámos, e este seria o primeiro pilar. O segundo pilar seria os internamentos em cuidados intensivos, aqui propusemos nas etapas, 25% das linhas vermelhas que são 255 camas, 25% são 61 camas, e 50% na zona vermelha para a zona amarela que são 126 camas. Portanto, nós aqui ainda não temos porque estamos nos 140 internamentos em cuidados intensivos. Mas depois falta o nosso pilar mais importante, que é continuar a dizer às pessoas que elas precisam de continuar a criar condições para se defenderem da pandemia, porque a pandemia não acabou. Então, criámos um terceiro pilar que é a taxa de reforço vacinal na população, em que estabelecemos dois patamares: mais de 60% para entrar no nível um ou zona amarela, e mais de 70% para entrar na zona verde. Isto são tudo valores que se podem adaptar, mas nós tentámos justificar estes valores, por exemplo, os 70% é porque é o valor que a Organização Mundial da Saúde determinou para acabar com a pandemia, e os 60% é o valor que podemos atingir quando vacinarmos toda a população de risco. E, nessa altura, podemos, à medida que vamos descendo, tirar a máscara nos espaços exteriores no nível um, podemos só passar a utilizar a máscara em espaços interiores públicos. E no nível zero ou zona verde, provavelmente, só numa base de critérios de sintomáticos, pessoas vulneráveis, pessoas que ainda não terminaram o isolamento em termos de perigo de contágio, mas já estão a trabalhar, portanto, numa perspetiva de proteção do próprio, mas sobretudo de proteção dos outros, centrada na pessoa que tem riscos de saúde pública.

Os especialistas e médicos falam em levantar as restrições com prudência. Como os cidadãos podem interpretar essa prudência? Corremos o risco de passar do 8 ao 80?
Acho que é precisamente através da comunicação e, por isso, acho que um dos grandes vencedores da pandemia foi a comunicação, sem sombra de dúvidas. Tivemos alguns problemas na comunicação numa fase inicial, mas a comunicação foi determinante para estabelecer a coerência, a compreensão das pessoas, e através da monitorização. Porque tivemos capacidade de monitorização destes diferentes indicadores, sabemos onde estamos, para onde vamos e onde podemos ir. E aqui era fundamental incluirmos nestas medidas a taxa de cobertura vacinal com reforço. Vou dar só um exemplo: temos falado muito na Dinamarca, que foi o primeiro país a avançar com estas medidas, e bem, porque estava numa fase diferente do que os outros países europeus.

Mas também é a Dinamarca que já fala na quarta dose de reforço.
Sim, na quarta dose e depois já podemos explicar porquê. Mas quando a Dinamarca aliviou já tinha 60% da população com taxa de reforço e, portanto, nós estamos com 57%, o que significa que nos falta vacinar 200 mil pessoas com mais de 60 anos. Essas 200 mil pessoas que nos falta vacinar e que estão nos grupos de risco, dão-nos o balanço para prevenir a gravidade da doença e para estarmos com mais segurança e sustentabilidade noutra zona.

Não crê então que corremos o risco de passar do 8 ao 80?
Percebo que ao fim destes dois anos a população já esteja saturada, mas também já percebeu que é parte da solução. Indiscutivelmente, a população tem de ser respeitada e fornecida com comunicação para perceber que se portou muito bem, ganhou esse direito. Mas isto ainda não acabou, se aliviarmos precocemente podemos voltar para trás, mas estamos indiscutivelmente na direção certa e todos os indicadores estão a provar isso. Já atingimos o pico da incidência, do internamento, dos cuidados intensivos e dos óbitos. Está a cair acentuadamente.

Ainda falando sobre o alívio das restrições, o bastonário da Ordem dos Médicos chegou a apontar o dia 20 de março para tal. Concorda?
Neste momento, provavelmente, 20 de março é uma situação que, fruto da evolução e da taxa de cobertura vacinal, podemos fazê-lo mais cedo. Winston Churchill tem uma frase muito engraçada sobre isso: "A arte da previsão é tentar adivinhar o que vai acontecer para depois justificar como é que não aconteceu." Provavelmente, neste momento, diria que é muito mais viável anteciparmos as medidas, porque nós vencemos a previsão, isso é que é a grande vantagem. Porque é que fazemos previsões e cenários? Para que isso não aconteça e para que tenhamos capacidade de as ultrapassar.

Quando diz antecipar, diz de março ainda para fevereiro?
Diria que é possível e viável aliviar medidas ainda no decurso deste mês.

Há condições de segurança para abrir mais do que só tirar a máscara? Há outras medidas que podem cair nas próximas semanas? Quais?
Há, sim senhor. Desde o isolamento, por exemplo, porque na minha perspetiva estamos a manter pessoas em isolamento por uma questão de saúde pública, num contexto em que essas pessoas podem perfeitamente, por critérios de doença, já estarem a ser integradas, desde que respeitem a saúde dos outros. E podem fazer a mesma proteção, por exemplo, mantendo uma máscara e evitando alguns comportamentos sociais de risco. E o que isto quer dizer é que, muitas vezes, a pessoa pode almoçar sozinha para não estar a comer sem máscara à frente de outra pessoa, por exemplo. A testagem também poderá ser aliviada. O que pretendemos, no fundo e na minha perspetiva, é que, quer o isolamento quer a testagem, sejam feitos como fazemos para as outras doenças, ou seja, com base em critérios clínicos e com base em controlo da infeção, isso é o que é previsível. Na gripe, a maior parte das pessoas quando estão com gripe já vão trabalhar, exceto se tiverem grandes febres ou grandes mialgias e, então, por uma questão de doença é que têm atestado. Em relação à máscara, previsivelmente, ir aliviando a utilização da máscara e ir deixando, sobretudo, para estes contextos individuais.

A Ordem tem trabalhado com o Instituto Superior Técnico nos cálculos da pandemia. Esses cálculos podem ajudar e dar segurança para antecipar o alívio das restrições de março para fevereiro? E como foi importante esta parceria?
É a primeira vez que me fazem essa pergunta e é também a oportunidade de realçar dois aspetos essenciais: a colaboração Ordem dos Médicos-Instituto Superior Técnico foi, precisamente, promovida pela comunicação social. Uma vez fui a um programa televisivo e disse que nós, Ordem dos Médicos, precisávamos de ajuda para elaborar um indicador, porque não tínhamos capacidade estatística e matemática. E foi a partir daí que fomos contactados por esta equipa de luxo e que vem provar outro aspeto, que é o facto de termos de trabalhar em equipa multidisciplinar. O que aprendemos, o que ganhámos em termos de sinergias por trabalharmos juntamente com a equipa do Técnico, e até lhe vou dizer o nome das pessoas para lhes prestar a minha homenagem: é o presidente do Técnico, o professor Rogério Colaço, o professor doutor José Rui Figueira, a professora doutora Ana Serro e o matemático Henrique Oliveira. Da parte do gabinete de crise é impossível irmos todos, somos mais quatro pessoas, sou eu, o senhor bastonário, doutor Miguel Guimarães, o professor Carlos Robalo Cordeiro e o doutor António Diniz. Conseguimos apresentar esse indicador de avaliação da atividade pandémica no dia 14 de julho, e se formos agora ver os press releases que fizemos na altura, já aí tínhamos essa situação prevista, ou seja, incrementávamos as medidas de acordo com a subida do indicador e diminuíamos de acordo com a descida do indicador. O indicador está a cair de forma sustentada há vários dias, já saímos da zona de alarme e estamos na zona de alerta, aliás, hoje temos o indicador a rondar os 75 pontos. E temos, também, a confirmação de que o R(t) que determinámos - esta parte é calculada pelo Técnico - ainda é inferior ao R(t) apresentado no Infarmed, é 0,71 e, portanto, toda a conjugação destes saberes permitiu uma solução mais robusta, muito mais fundamentada e muito mais apta para servir Portugal e os portugueses. Portanto, se posso dizer alguma coisa é "obrigado Instituto Superior Técnico pela ajuda que nos deram e a nossa sinergia foi fundamental".

Falando agora dos efeitos do long covid. Está a inundar os hospitais?
O long Covid vai ser, provavelmente, das heranças mais pesadas que a pandemia nos vai deixar. O long Covid também é uma novidade e é um termo derivado de uma hashtag do Twitter e é a primeira vez que nós temos uma doença que resultou de uma arqueóloga chamada Elisa Perego, da University College of London, que teve Covid, não sei se em março ou abril, e que no dia 20 de maio de 2020 mantinha queixas e fez uma hashtag que dizia long covid. Pegou de tal maneira que toda a gente fala em long Covid.

Mas quando diz que deixa uma herança pesada é porque está a entupir os hospitais, a aumentar as listas de espera? Que herança é essa?
Exato. Para termos uma ideia, de tal maneira o peso é importante que a Organização Mundial da Saúde entendeu que era preciso uniformizar quer a linguagem e os procedimentos quer as definições e os conceitos. No início de outubro do ano passado, fez um questionário que envolveu centenas de peritos nesta área - onde, infelizmente, Portugal, como não publica muitas vezes e não publicou nada significativo nesta área, não foi convidado -, em que definiu a linguagem e a metodologia comum. Chamou-lhe outro nome, chamou-lhe condição pós-Covid-19 e estabeleceu que para definir long Covid, porque Covid longa foi a expressão que ficou, um indivíduo que tenha tido infeção por SARS-CoV-2 documentada ou provável há mais de três meses e em que persistam sinais ou sintomas há mais de dois meses, sem outra razão para a sua persistência, entende-se que seja condição pós-Covid-19. Na altura, estimava-se - quando ainda não havia vacinas e os meios de intervenção terapêutica que há agora -, que cerca de 10% das pessoas que testavam positivo iam manter sinais e sintomas mais de três meses após a data do diagnóstico.

Isso com a Delta. E com a Ómicron?
Podemos dizer que quando chegámos à variante Delta tínhamos cerca de um milhão de portugueses infetados, portanto, previsivelmente, já nessa altura íamos ter 100 mil pessoas a sobrecarregar por legítimo interesse, por necessidade, o Serviço Nacional de Saúde. A Ómicron ainda tem muito pouco tempo, foi declarada variante de preocupação no dia 26 de novembro, chegou a Portugal no dia 28 de novembro, no rastreio para um jogo de futebol Belenenses SAD - Benfica, e só a partir do dia 28 de fevereiro podemos falar de Covid longa relacionada com a Ómicron. Mas o que sabemos é que, atendendo ao facto de as pessoas estarem muito vacinadas, já há menor probabilidade de evoluírem para long Covid, portanto, a vacina tem múltiplas vantagens: previne a infeção, não a 100%, mas numa percentagem significativa, previne a transmissão - ao contrário do que se diz -, numa percentagem significativa, previne a gravidade e previne a evolução para long Covid. Portanto, as pessoas que estão vacinadas, como têm formas mais ligeiras da doença, e sabemos que as formas mais graves estão associadas a maior evolução para long Covid, evoluem menos. Long Covid pode acontecer a qualquer pessoa, na minha consulta tenho de todas as idades, adultas, com formas graves e menos graves.

Está preocupado se o SNS irá conseguir responder a todos os casos?
Estou, estou preocupado, porque exige um desvio muito grande de recursos para o long Covid. E imaginemos o que é mais 100 mil ou 150 mil pessoas a necessitarem de cuidados complexos multidisciplinares ou com uma abordagem muito grande em termos de consultas, recursos e meios complementares de diagnóstico. É por isso, por exemplo, que tenho proposto que devíamos ter um programa nacional para o long Covid, com um diretor, com centros de referência, com protocolos, com linhas de investigação, para encontrar os melhores tratamentos para os melhores resultados para recuperarmos mais rapidamente a população e, ao mesmo tempo, assegurarmos a sustentabilidade das nossas estruturas de saúde.

A 2 de março completam-se dois anos desde os primeiros casos de Covid em Portugal no Hospital de São João e no Hospital de Santo António. Que balanço faz destes dois anos de pandemia?
A pandemia foi declarada pela Organização Mundial da Saúde no dia 11 de março. Os primeiros casos em Portugal foram no dia 2 março e foi também a primeira reunião presencial do gabinete de crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos. No balanço que se faz, e numa perspetiva mais positiva, diria que houve dois grandes vencedores desta pandemia (a pandemia ainda não acabou e será a OMS a declarar o fim da pandemia). Vencedores à escala global e temos um vencedor muito particular em Portugal. Sem sombra de dúvida, quem venceu a pandemia foi a ciência em sede de planeamento e organização e digo isto porque, se vencemos a pandemia e estamos neste momento nesta situação de alívio, é fruto da vacinação. A vacina foi a cara mais visível de todo este conhecimento, mas tivemos toda a utilização das medidas de intervenção farmacológica que foram essenciais para nos protegermos enquanto não tínhamos a solução e podermos ganhar tempo, e agora já estamos a falar dos novos fármacos para combater que vão ser essenciais no pós-pandemia. O segundo vencedor foi a população, porque quando temos uma pandemia temos de perceber que esta situação nos obriga a reavaliar este equilíbrio frágil entre os direitos e as liberdades individuais e a saúde de todos, a saúde pública. E as pessoas aqui perceberam o essencial: pandemia é lidar com incerteza e exigir de nós uma resposta como comunidade. E foram as pessoas que, ao vacinarem-se e aderirem a estas medidas, na sua maioria, permitiram combater a pandemia e prevenir mais casos de mortalidade. E em Portugal acrescentaria que foi o Serviço Nacional de Saúde.

Do ponto de vista da rede hospitalar e dos cuidados primários, que balanço é possível fazer?
Diria que a pandemia está no melhor e no pior do Serviço Nacional de Saúde. A pandemia mostrou o melhor momento do Serviço Nacional de Saúde que foi bem revelado pela valorização dos seus profissionais. Demonstraram que estavam à altura para lidar com este problema, que tinham espírito de missão e de sacrifício, que estavam lá por vocação. E outro aspeto que não tem sido devidamente referido foi o modelo de gestão que tivemos nesta altura que nos permitiu dar resposta. Saímos de um modelo centralizado, lento, sem capacidade de adaptação e muito burocrático, para uma capacidade de resposta, em termos de instituições de saúde, de uma flexibilidade centrada na resolução do problema, de proximidade e em que se ouviram as partes que depois iam prestar cuidados.

E esse modelo pode e deve ser replicado no futuro para todo o SNS?
Acho que este modelo provou que, devidamente adaptado à realidade económica e com a devida responsabilização e avaliação, é a solução para o SNS. Até diria mais, é esse modelo e uma política efetiva de gestão de recursos humanos, porque o que o SNS tem de dar aos seus profissionais é o que deixou de dar, é futuro.

E aos doentes?
Aos doentes é o melhor, é um serviço diferenciado, de qualidade, de excelência e tendencialmente gratuito, é isto que devemos dar ao doente. E para darmos isto precisamos de profissionais de saúde que queiram trabalhar, que se sintam valorizados e reconhecidos e, para isso, precisam de ter futuro. Se vocês aqui, neste grupo, tivessem um modelo de gestão de recursos humanos que temos no Serviço Nacional de Saúde, se calhar já tinham falido.

O que é que quer dizer com isso?
É que não escolhemos as pessoas que vêm trabalhar connosco no SNS, isto não lembra a ninguém, mas é assim. Vou dar o exemplo dos médicos: há um concurso nacional para os especialistas e depois os especialistas, de acordo com a nota que têm a nível nacional, é que escolhem os hospitais para onde vão. Ou seja, o hospital não tem qualquer capacidade de escolher A, B ou C. É como se vocês não escolhessem os jornalistas com quem querem trabalhar. Isto faz sentido para vocês? Mas é este modelo de gestão de recursos humanos que temos no SNS.

Considera que, nestes dois anos de pandemia, em algum momento houve a politização da doença, da ciência ou até do combate e da vacinação? Aconteceu em Portugal?
Em Portugal não somos provavelmente o exemplo mais flagrante, mas diria que a politização do conhecimento começou logo no início da pandemia e é muito fácil perceber quando. A administração Trump, nos Estados Unidos, e em termos científicos temos de perceber que os Estados Unidos são uma potência científica única no mundo, são um farol, e que a administração Trump prejudicou muito o desenvolvimento científico durante o primeiro ano da pandemia. E uma das maneiras que teve para fazer isso foi, precisamente, através da politização do conhecimento. Todos nós nos lembramos de ouvir a expressão "o vírus chinês". Esta expressão, no fundo, descontextualizava a pandemia, rotulava a pandemia com uma conotação depreciativa, desviando a discussão do ponto de vista académico e científico para uma discussão do ponto de vista ideológico e político-partidário. E isso minou, por muito tempo, a intervenção da melhor ciência, da realização da melhor investigação para combater a pandemia.

E em Portugal houve politização ou partidarização?
Diria que houve uma união nacional de todos, pelo menos das pessoas que têm representação a nível parlamentar, contra a pandemia. Também senti o mesmo em relação a todas as ordens profissionais, toda a gente percebeu que tínhamos de dar uma resposta coletiva, em comunidade, de todos contra um inimigo comum.

Dinamarca e a Suécia consideram a quarta dose. Caminhamos todos nesse sentido? Ou deve ser administrada só aos mais vulneráveis?
É perfeitamente normal que haja países que façam opções diferentes e que valorizem mais na ciência uns aspetos do que outros. Por exemplo, em relação à Suécia, entenderam que deveriam recomendar a quarta dose da vacina em toda a população com mais de 80 anos, em toda a população residente em lares ou estabelecimentos residenciais para pessoas idosas e pessoas sob tratamento hospitalar domiciliário. Portanto, por uma questão de proteção dos mais vulneráveis, mas há outros países que também recomendam a quarta dose aos imunodeprimidos. Em Portugal, ainda não temos essa situação, diria que o grande foco, a meu ver, seria atingirmos pelo menos os 60% e, idealmente, os 70% da vacinação de reforço, mas se há algum grupo em que eu defenderia a quarta dose de reforço em Portugal seriam os grandes imunodeprimidos. Para a restante população, provavelmente, isto já não vai acontecer. O que vai acontecer previsivelmente, será que, se tudo aponta para que se aproxime de uma situação semelhante à gripe, uma eventual nova vacina, uma quarta toma ou uma primeira toma de uma nova vacina, mais à semelhança da vacina da gripe, no outono-inverno deste ano.

Poderia tornar-se, para toda a população, uma vacina normal no plano regular de vacinas, é isso?
Eventualmente. Se calhar, nem para a toda a população, porque para o futuro desta pandemia vamos ter de definir três aspetos essenciais: vamos ter de definir uma nova carga de doença, portanto, que signifique o que é que é aceitável, vamos ter de definir o que é aceitável em termos de absentismo, em termos de ocupação de camas hospitalares, em termos de ocupação de UCI, de mortalidade, mil mortos, 2 mil mortos é aceitável? São este tipo de números com que lidamos normalmente com a gripe. Temos de montar a nível global e a nível nacional uma rede de vigilância para este novo vírus que monitorize não só a atividade, mas também a evolução e novas mutações. E quando eles reemergem qual é o impacto que têm em termos de países e, depois, temos de fazer tudo para minimizar o impacto na população e isto chama-se identificar a população mais vulnerável e centrar nessa população as medidas que nos permitem diminuir o impacto. Se tivermos, por exemplo, uma nova variante de SARS-CoV-2 que afete, sobretudo, a população imunodeprimida, vulneráveis e idosos, também podemos manter, à semelhança do que temos com a gripe, um escalonamento preferencial para essa população.

No caso da imunidade, estará a ser reduzida dos cinco a seis meses para metade desse tempo? Deveria ser encurtado o reforço vacinal, tendo isso em conta?
Quem estuda infecciologia respiratória e vacinas do aparelho respiratório não vive com nenhuma ansiedade esta situação. Primeiro, nunca tivemos vacinas com eficácia como temos aqui, ou seja, uma boa vacina da gripe tem uma eficácia que ronda os 45% a 50% e a eficácia da vacina da gripe também dura poucos meses. É fácil perceber porquê: estamos numa pandemia em que a vacina foi desenvolvida nos primeiros nove meses contra uma estirpe que já nem está em circulação. Desenvolvemos uma vacina para a estirpe de Wuhan que já foi substituída por cinco variantes, estamos na quinta onda com uma vacina que foi feita para o início.

Ou seja, a imunidade pode estar a ser reduzida porque a vacina já não acompanha a nova variante?
A vacina vai diminuindo a sua eficácia porque o alvo que desencadeia no nosso corpo com a produção de anticorpos já é diferente daquele que está em circulação e isso chama-se discordância antigénica. Temos isso com a vacina da gripe e temos de perceber um outro aspeto: se fôssemos fazer um paralelismo entre estas cinco ondas de SARS-CoV-2 com cinco ondas de gripe, tínhamos tido cinco anos de gripe, tínhamos feito cinco vacinas diferentes para estas cinco ondas. Ou seja, nós estamos com cinco ondas com três vacinas iguais.

Os próprios laboratórios terão de desenvolver uma nova vacina?
Mas já estão a desenvolver, esta tecnologia é muito mais rápida de desenvolver.

Estamos quase no fim e queria fazer-lhe duas perguntas de resposta rápida. Portugal, ao nível da Europa e do mundo, em termos da vacinação das crianças, em que ponto está?
Na vacinação das crianças, em termos de Plano Nacional de Vacinação, Portugal está entre os melhores países do mundo, sem sombra de dúvida. Em termos de vacinação Covid, alguns países estão melhores, outros piores, mas diria que estamos entre os melhores países também.

O governo está prestes a tomar posse - agora foi adiada por causa da repetição das eleições para os círculos da Europa -, será breve. Se pudesse dar um conselho à nova ministra ou ministro da Saúde, qual seria a primeira medida urgente a tomar na saúde?
A primeira medida urgente a tomar na saúde, a meu ver, será ouvir as pessoas que trabalham em saúde para perceber as preocupações, para perceber o que motiva as pessoas a ficar ou a sair e do que é que estas pessoas precisam para continuar a trabalhar tão bem quanto trabalharam durante a pandemia no Serviço Nacional de Saúde.

Qual é a música que associa ao momento da pandemia que estamos hoje a viver?
We Are the Champions, dos Queen. É precisamente porque estamos, neste momento, na fase de grande viragem de combate à pandemia, de alívio das medidas que tiveram tanto impacto na nossa vida, e porque fomos uns campeões.

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