Formação sobre discriminação racial para GNR serve para "deixar a semente"

Desde 2017, mais de dois mil membros das forças de segurança receberam formação sobre discriminação racial em Portugal.

É dia de formação para dezenas de militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) por todo o país. A capitão Andreia Vieira está a organizar o encontro online e vai chamando as várias secções de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário.

"Setúbal? Montijo?", pergunta e os militares vão confirmando a presença. Nesta sessão online participam cerca de 30 militares da GNR do Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu. É a última de três turmas da GNR que, no mesmo dia, receberam formação sobre discriminação racial.

O formador, Péricles Pina, é coordenador do gabinete que dá apoio à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial e prepara-se para apresentar o trabalho da comissão e para esclarecer conceitos. "Fala-se de preconceito, discriminação, racismo e xenofobia como se fossem a mesma coisa e não são", refere.

Admite que uma hora é pouco para falar de discriminação às forças de segurança, mas a pandemia encurtou as formações e atirou-as para o online. "Já demos formações que eram o dia inteiro."

Ainda assim, Péricles Pina acredita que este workshop pode ser o início de uma caminhada de desconstrução de ideias feitas entre agentes de segurança e militares. O formador considera essencial evitar "um estereótipo que se cole aos agentes", defendendo que o problema da discriminação é transversal, não se resumindo às forças de segurança. "Os preconceitos que eu encontro no dia-a-dia encontro também nos agentes. Porquê? Porque são construídos na sociedade em que vivemos", explica.

A formação é teórica, mas com exemplos reais. Péricles Pina avisa logo: "Não me levem a mal que eu diga asneiras". É com casos do dia-a-dia que o formador vai mostrando as diferenças entre um caso de xenofobia ou racismo.

O formador não poupa nas palavras e relata também episódios pelos quais já passou. Nasceu em Cabo Verde, mas veio para Portugal em criança. Já teve de lidar com vários tipos de preconceitos.

"Antigamente, quando era mais novo, tinha umas reações um bocadinho mais efusivas, era uma questão de sobrevivência. Hoje em dia, já tenho uma reação mais pedagógica", explica.

Desde 2017, estes cursos já chegaram a 2108 mil agentes de segurança em Portugal. A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial já formou 1351 agentes da Polícia de Segurança Pública, 238 militares da GNR, 150 inspetores da Polícia Judiciária e 369 guardas da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.

Durante a formação, Péricles Pina lembra que os funcionários públicos e os agentes do Estado têm de ter ainda mais atenção a comportamentos discriminatórios. "Temos de ter cuidado, o grau de exigência sobre nós ainda é muito maior que sobre o cidadão comum. Então, estarmos vigilantes aos nossos próprios preconceitos é essencial para a nossa atuação."

O capitão Andreia Vieira, adjunta da repartição de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário, considera as formações essenciais, sobretudo se forem dadas pelas entidades competentes na área, e garante que são bem recebidas pelos militares. "Eles acabam por ter interesse em aprender e eu notei que eles adoraram. Quanto mais informação nós tivermos, melhor conseguimos atuar", afirma.

No fim da formação, não houve perguntas, mas o formador sabe que costuma ser assim, sobretudo online. Péricles Pina espera que o workshop sirva para deixar a semente. "Às vezes, é preventivo porque uma pessoa que tenha preconceitos e não está ciente deles, depois da minha formação, se calhar vai pensar na sua ação."

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