Grande Depressão, II Grande Guerra, pandemia: humor no fim do mundo é estar "num patamar superior"?
Covid-19

Grande Depressão, II Grande Guerra, pandemia: humor no fim do mundo é estar "num patamar superior"?

Nos Estados Unidos da América dos anos 1930, a crise económica deixou mais de 15 milhões de pessoas desempregadas, mas a população não deixou de pensar nas formas mais imaginativas para continuar a rir. Maratonas de dança que duravam dias ou semanas, filas imensas para assistir ao one man show de voluntários presos em mastros a mais de 60 metros de altura do chão, emissões de rádio para lavar a alma dos ouvintes, os filmes mudos cheios da comédia de Charlie Chaplin, que convida a rir da própria desgraça: as escolhas já eram muitas. Troçar e falar mal dos políticos também não foi prática começada nessa época, mas o hábito brotou com fecundidade.

Nem sempre a vida foi fácil e a comédia difícil, mas a História evidencia que de grandes desgostos podem nascer grandes piadas. Abraham Lincoln, que governou os EUA durante a Guerra Civil, e Franklin Roosevelt, que liderou o país no pós-crash da bolsa de valores e ainda durante a II Guerra Mundial, são os Presidentes norte-americanos mais lembrados pelo humor e pela sátira.

Foi na II Grande Guerra que os britânicos conquistaram a fama de que não mais se livraram: o humor serviu, através de campanhas panfletárias, para caracterizar o espírito britânico, em oposição aos nazis, que pouco uso faziam da comédia. A vida militar, que também afetava as relações românticas, as hierarquias e Hitler eram os tópicos de tendência da altura. Também hoje o grande conflito mundial continua a alimentar um grande universo de piadas temáticas.

Tracey Platt, uma das autoras que mais tem estudado o efeito da comédia em tempos de crise, conta à TSF que a pandemia lhe deu "a oportunidade de investigar o poder do humor de uma forma que antes da pandemia não seria possível".

"Tanto a sua ligação com o bem-estar das pessoas como o possível impacto negativo do humor, como quando se zomba de alguém, são coisas importantes de compreender, especialmente agora, no contexto em que é fácil comunicar globalmente", explica a investigadora da Faculdade de Ciências da Saúde e do Bem-Estar da Universidade de Sunderland.

A psicóloga estabelece uma correlação entre o humor e a capacidade de superação: "É uma excelente forma de ajudar a reduzir ansiedades e preocupações. Sabemos, por exemplo, que quando as pessoas sofrem de depressão, o limite para usar o próprio humor ou apreciar o humor dos outros diminui. Portanto, manter um bom sentido de humor e fazer os outros rir é uma maneira muito boa de proteger o bem-estar mental."

Do ponto de vista do humorista, esclarece Guilherme Fonseca à TSF, correlação não significa necessariamente explicação. "Seria estranho para mim se alguém me agradecesse por manter a sua saúde mental. Não vejo uma correlação direta: as pessoas felizes às vezes são as mais deprimidas."

O humor não é cura, mas ajuda. "Notou-se durante o primeiro confinamento que as pessoas faziam muitos vídeos e trocava-se muito humor no WhatsApp, isso é uma necessidade das pessoas", rememora o guionista.

"Não sei se é causa-efeito: 'Aconteceu-me um desastre ou aconteceu-me um problema na vida e só quando me conseguir rir disto é que está resolvido.' Não é uma vacina para o problema." O comediante que trabalha com Ricardo Araújo Pereira em "Isto é Gozar Com Quem Trabalha" acredita que o humor também pode significar que as pessoas estão a pensar a sério sobre os assuntos. "Acho que as pessoas associam o ato de rir a estar tudo bem, e às vezes não é só isso. É só mais uma camada do processo, não é necessariamente a solução ou o ponto final ou um novo capítulo."

O guionista do canal Q vê o humor como uma ferramenta mental, um músculo a ser trabalhado. "Há várias teorias filosóficas que dizem que rir de uma coisa ajuda-nos a sermos superiores a ela, mas acho que, quando me rio de uma coisa, não é necessariamente porque já a domino", completa.

"É como um brinquedo: quando estou curioso com um brinquedo, eu vou desmontá-lo para ver as pecinhas e brincar, ver o que posso tirar e colocar noutro sítio", sustenta Guilherme Fonseca. E como brincar durante uma crise sanitária de dimensão mundial? "Se estou a passar por uma pandemia global, fechado em casa, com a minha vida virada do avesso, é normal que eu tenha vontade de tentar perceber o que as pessoas estão a passar e a pensar. 'Estou fechado em casa, transformei-me nos meus gatos?'"

É, sim, possível criar humor em torno da pandemia de Covid-19, quando o mundo se vê a braços com uma crise sanitária e económica sem precedentes para a maioria das pessoas atualmente vivas, vinca o comediante. Até porque comédia precisa-se em momentos como este. "Quando o meu pai morreu, eu decidi escrever um espetáculo de stand-up sobre isso, e uma das perguntas que me faziam era: 'Como é que consegues fazer piadas sobre uma coisa tão séria, tão triste?' E o meu argumento era: 'Se eu fosse padeiro, dedicava-lhe um pão.'"

Como não encara a comédia como um ataque, Guilherme Fonseca não define alvos preferenciais, mas dirige-a para os aspetos que mais lhe despertam a curiosidade. "Uma das coisas que me deu mais vontade de usar na minha comédia foram os negacionistas da pandemia, por fascínio", admite.

Quando não se esperava que a pandemia durasse mais do que um ano, os humoristas dividiam-se entre falar ou não continuar a falar do tão "batido" coronavírus, mas, sem se forçar a seguir as tendências, Guilherme Fonseca quis apresentar o seu "ponto de vista sobre as coisas", o que incluiu uma reflexão sobre "pessoas que começaram o ano a serem perfeitamente normais, pessoas com as quais se conseguia conversar, e, no fim de 2020, eram negacionistas loucos que não acreditavam no coronavírus e achavam que o Bill Gates queria pôr chips nas nossas vacinas".

Nos espetáculos que conseguiu fazer ao longo do ano de 2020, Guilherme Fonseca falou sobre a Covid-19 e a forma como lidou com o isolamento - "ficar fechado em casa com a Rita, minha mulher" -, mas tentou fugir aos temas de tendência em que muitos se focavam: "E quando te esqueces da máscara e tens de voltar para trás?"

O podcast semanal "Terapia de Casal", com a coautoria da mulher, Rita, ajudou a exercitar a vontade humorística sobre o tema. "Escrever comédia é como uma ida ao ginásio. É um músculo que tem de se manter ativo. Quanto mais se trabalha e mais se escreve, melhor."

Para Miguel Góis, ex-GatoFedorento e guionista de "Isto é Gozar Com Quem Trabalha", o humor não é um boicote ou uma fuga a esta realidade, de inegável complexidade. "Às vezes, as pessoas precisam que se fale dessa realidade. A comédia nem sempre serve para nós nos esquecermos do que nos preocupa; às vezes, pode ser para nós vermos outro ponto de vista sobre o que nos preocupa."

O humor ajuda a criar uma visão menos pesada sobre os acontecimentos, sobretudo quando a carga noticiosa é avassaladora, aprofunda o autor, ouvido pela TSF. "Pode acontecer realmente as pessoas precisarem de uma pausa em relação às suas preocupações, mas há uma segunda maneira de as pessoas reagirem, que é quererem falar de aquilo que as preocupa de outra maneira, mais leve", analisa.

E as pessoas não deixaram de procurar conteúdos sobre o tema. "Sinto essa necessidade, do humor sobre a pandemia. Sinto que as pessoas precisam de rir disso, até porque é difícil falar de outro tema. Os humoristas até podiam fazer humor sobre outra coisa qualquer, mas seria um pouco estranho, uma vez que está o mundo todo a falar da mesma coisa."

"As pessoas precisam de ouvir falar sobre esse tema, do ponto de vista humorístico, sim. Não faço piadas sobre outra coisa há um ano. Quer dizer, não é verdade, fazemos também piadas sobre a realidade política."

Os alvos "fáceis"

O humorista ex-Gato Fedorento não esconde que há focos preferenciais das piadas durante esta crise. "Numa altura em que nasce esse desafio de como combater a pandemia, os alvos mais fáceis serão aquelas pessoas que estão a tentar combatê-la e, de forma natural, erram. É perfeitamente natural que os governantes, como têm esse desafio muito grande de combater uma coisa que desconhecem, vão através da tentativa e erro."

Tracey Platt também o analisa: "As decisões tomadas pelos nossos Governos suscitam a sátira, por exemplo. Mas, como estamos todos juntos nisto, usamos também o humor benevolente para mostrar aos outros que entendemos a comunalidade da situação - estamos juntos nesta situação estranha, especialmente quando nós impuseram distanciamento social."

Mas só que hoje há redes sociais

Apesar de não ter redes sociais, Miguel Góis recebe os relatos de quem lá anda, muitas vezes a assistir aos estilhaços de um barril de pólvora. "Sinto que as redes sociais estão sempre nesse estado, não é preciso um grande tema para atingirem esse estado bombástico. Tomou quase a natureza do que é bombástico, do que é confronto."

Podem, por isso, ser um "inimigo", admite o humorista. "Infelizmente para nós, as redes sociais têm coisas muito engraçadas. Em princípio, são amadores, mas são milhões de amadores que fazem coisas com imensa graça, que competem com as nossas, que são profissionais. Às vezes, não nos sentimos muito bem, ficamos furiosos, porque as deles são melhores do que as nossas."

É ainda incontestável a "dificuldade que é estar a fazer piadas sobre o mesmo tema há um ano", aponta Miguel Góis. "As coisas não evoluem tanto assim. Tivemos essa dificuldade agora neste desconfinamento, porque, há menos de um ano, já houve outro desconfinamento. Damos por nós a falar sobre os mesmos temas de há uns meses, já não é tão fácil fazer piadas originais, porque as situações estão a repetir-se."

O humor, que o "ajuda" sempre, não é pensado muito além no momento da piada, confessa ainda o comediante, que não deixa de reconhecer: "Parece-me natural que, quando olharmos para trás, historicamente o humor também seja uma forma de recordar."

Se as piadas serão lembradas mais tarde, ainda é cedo para saber, mas Tracey Platt não tem dúvidas de que auxiliam a superação. "No seu livro sobre envelhecer bem, George E. Vaillant sugeriu que o humor desempenha um papel fundamental."

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