Há uma casa que prepara jovens com deficiência intelectual para uma vida autónoma

O Centro de Capacitação D. Carlos I da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa abriu portas em março e tem capacidade para acolher sete jovens com deficiência cognitiva.

No parque de campismo da Galé joga-se futebol, apesar do calor. Frederico Vieira, 17 anos, entrou agora no campo. José Pedro Fortes, 18 anos, está no banco.

É a primeira vez que acampam juntos e ainda estão a habituar-se à partilha de tenda. Durante três dias vão jogar à bola, dar mergulhos na praia, saltar nos insufláveis coloridos, andar de mota de água e cantar karaoke.

Depois do acampamento, seguem juntos para o Centro de Capacitação D. Carlos I, em Lisboa, uma casa para jovens com deficiência intelectual ligeira e moderada.

Ricardo Rodrigues, diretor do centro, explica que "o principal foco da intervenção é prepará-los para uma transição para uma vida adulta, para tudo o que tenha a ver com a questão escolar e tudo o que tem a ver com a questão emprego".

O Centro de Capacitação D. Carlos I, um espaço da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), abriu portas em março e tem capacidade para sete jovens entre os 16 e 19 anos, uma equipa móvel de apoio e consultas de pedopsiquiatria.

"Os nossos jovens que aqui residem têm um perfil deficitário. Ou seja, têm, do ponto de vista cognitivo, menos recursos comparativamente com a média. Ainda assim, nós consideramos que têm o potencial para se poderem reconhecer a eles próprios como adultos autónomos", explica o diretor do Centro de Capacitação D. Carlos I.

A casa acolhe jovens com deficiência intelectual numa encruzilhada entre escola e vida adulta e, juntamente com os técnicos da SCML, pretendem repensar o projeto de vida de cada um deles.

"Eles estavam em respostas que nós consideramos que não eram as respostas mais apropriadas para o perfil e para o potencial e para as características de cada um. O que se pretende, no próximo ano letivo, é que estejam em respostas escolares mais adaptadas, mais adequadas e que os preparem para a ideia de, futuramente, poderem ter um trabalho. Ou seja, na perspetiva apoiada, protegida ou mesmo um emprego efetivo", acrescenta o pedopsiquiatra.

Frederico Vieira já decidiu que vai trabalhar numa cozinha. "Quando for grande, vou trabalhar em qualquer coisa da área de cozinha". Ganhou gosto pela cozinha ao ver a mãe cozinhar arroz de cabidela. Visita a família ao fim de semana mas nem todos os jovens do centro têm a mesma possibilidade.

"O perfil da criança que é retirada aos cuidados da sua família tem muito a ver com questões de maus tratos, da inadequação da função parental, de tudo o que é disfuncional no dia-a-dia da família", esclarece o diretor do centro.

Os jovens que vivem no Centro de Capacitação D. Carlos I já passaram por outras casas de acolhimento. O diretor explica que o novo lar quer ser "cada vez mais uma cara de uma casa familiar, como qualquer uma das nossas famílias".

Por essa razão, os grupos são pequenos e há um técnico de apoio para cada jovem. "Nós acreditamos que só nesta pequena escala é que é possível ser consequente naquilo que são os nossos focos de intervenção."

O centro promove várias atividades com a presença constante de um adulto de referência. "Desde o despertar, a preparação do pequeno-almoço, a preparação das malas e dos pertences para a ida para a escola, o regressar da escola, o recebê-los em casa, preparar tudo o que tenha a ver com o final de tarde, as higiene, a refeição. Tudo aqui é feito em conjunto", explica Ricardo Rodrigues.

A equipa considera que o trabalho com um técnico é essencial para o desenvolvimento dos jovens. "Estes jovens sabem qual é o seu adulto de referência, a quem podem recorrer sempre que estiverem mais aflitos, sempre que estiverem mais felizes, mais entusiasmados, sempre que quiserem ter um momento individual preferencial, poderão ter."

Além do trabalho com os técnicos, a equipa fomenta o trabalho em equipa entre os moradores da casa e incentiva os jovens a pensarem no futuro. "Esta questão do futuro é uma questão que ainda os deixa bastante apreensivos, ambivalentes. Pensarem-se enquanto adultos ainda é um grande desafio para cada um destes jovens", concluiu Ricardo Rodrigues.

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