Há vinhas no Douro que não recuperaram do granizo e onde não compensa fazer a vindima

Quase dois meses depois da primeira intempérie da primavera, os agricultores continuam desanimados e a fazer contas à vida.

No dia 31 de maio deste ano, 20 minutos de trovoada com granizo intenso provocaram avultados prejuízos em dezenas de hectares de vinha na Região Demarcada do Douro. Duas semanas depois a intempérie repetiu-se e destruiu por completo alguma esperança que ainda restasse aos viticultores. Quase dois meses volvidos e depois de terem efetuado tratamentos para, pelo menos, salvar as videiras, o desespero não esmoreceu.

Maria de Lurdes e Mário Aires percorrem uma vinha na Galafura, concelho de Peso da Régua. Arrancam às videiras o que deviam ser cachos de uvas. Mas elas já lá não estão. "Vê aqui alguma coisa? Os cachos estavam já grandinhos e ficaram sem nada. Ficou tudo no chão. Não vale a pena vindimar, porque não dá nada. É uma calamidade", lastima Maria.

A sorte, dela e do marido, já entrados na casa dos 70 anos, é que têm outras vinhas menos afetadas, que hão de dar para garantir uma parte das 20 pipas de vinho que colheria num ano normal. Algumas delas de vinho do Porto, que "ainda é o que dá dinheiro".

Na Galafura o granizo caiu pela primeira vez no dia de Santo António. Mas em Guiães, concelho de Vila Real, a trovoada de 13 de junho só veio acabar com o que se salvou no dia 31 de maio, quando ocorreu a primeira grande intempérie da primavera deste ano.

Passaram quase dois meses sobre "um dia de terror", mas Maria Gina Frederico, 66 anos, ainda lamenta a sorte, pois na vinha da Gonta, onde habitualmente colhe uns quatro mil quilos de uvas, terá este ano "meia dúzia de cestos". As poucas uvas que restam estão "rachadas".

É nestes dias de calor intenso no Douro que melhor se percebe que muitas videiras ficaram seriamente danificadas e podem não garantir poda para o próximo ano. Sente-se tristeza infinita no meio daquela vinha de Guiães. É o pão do ano que está em risco. "Aqui vivemos do vinho e do azeite. As oliveiras estavam cheias de flor e o granizo também destruiu tudo", lamenta Maria Gina.

Agora, resta que os apoios anunciados recentemente pelo Ministério da Agricultura cheguem a quem deles está precisado, mas os agricultores estão pouco confiantes. "Que se há de fazer. Para aqui ninguém vem", desabafa Maria de Lurdes.

Há vinhas e pomares em vários concelhos da região do Douro onde a produção deverá ficar este ano pelos 20%, devido ao forte granizo que caiu entre 31 de maio e 15 de junho. Para ajudar os agricultores prejudicados, o Ministério da Agricultura anunciou que Conselho Interprofissional do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto vai avaliar possibilidade de transferir mosto generoso entre parcelas do viticultor ou entre os viticultores.

O ministério prevê ainda a celebração de protocolos com as autarquias que visam apoiar a comparticipação em 50% dos custos com tratamentos fitossanitários de vinhas, pomares e culturas de pequenos frutos, para restabelecimento e cicatrização das plantas.

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