Hospital de Lisboa para crianças não cumpre uma dezena de regras contra a Covid

Denúncia de enfermeira do Hospital Dona Estefânia gerou inspeção que encontrou inúmeras falhas. O hospital recorda que o edifício tem 150 anos.

A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) encontrou uma série de falhas e incumprimentos às regras da Direção-Geral da Saúde (DGS) para evitar o contágio de SARS-CoV-2 no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, um dos mais importantes hospitais pediátricos do país.

A deliberação da ERS, lida pela TSF, tem data do final de novembro, mas só agora foi tornada pública. São apontados uma dezena de incumprimentos em relação a diferentes normas e orientações da DGS, nomeadamente na prevenção, controlo e vigilância da infeção da Covid-19.

Por exemplo, falhas no plano de contingência, nas áreas de isolamento, na circulação de doentes Covid e a falta da obrigatória implementação na urgência de áreas dedicadas a estes casos, separando, em paralelo, os suspeitos de SARS-CoV-2 logo na triagem.

Por outro lado, são apontadas falhas no cumprimento das regras de ventilação nos serviços e espaços onde se encontram doentes com Covid-19, faltando a "criação de zonas de transição Covid-não Covid, com relações de pressão que evitem a contaminação da envolvente e de profissionais que circulem em espaços não Covid".

Nos 30 dias que são dados ao Hospital Dona Estefânia para responder à deliberação fundamentada da Entidade Reguladora da Saúde é ainda exigido que este "demonstre o cumprimento das condições de extração de ar dos espaços com doentes infetados", nomeadamente ao nível da existência de determinados filtros e da "mitigação da possibilidade do ar rejeitado ser encaminhado para os outros vãos do edifício, pertencentes a serviços ou zonas não Covid".

Foram, inclusive, detetados problemas na morgue não apenas ao nível da "ausência de registo das pessoas envolvidas no processo de tratamento" de um corpo com Covid-19, bem como no revestimento "a azulejo que se apresenta danificado", com uma parede, junto à entrada, no interior do espaço, que "apresenta fendas profundas, em risco do colapso".

Sem tempo para "construir trincheiras"

No contraditório enviado à ERS, a administração do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (responsável pelo Dona Estefânia) não conseguiu responder de forma satisfatória a grande parte dos problemas detetados.

Os responsáveis destacam que o hospital "tem mais de 150 anos de construção e não está estruturalmente preparado para enfrentar (como aliás o parque hospitalar do país e da maioria dos países no mundo) uma pandemia, com este grau de exigência".

A administração defende que "as soluções para os problemas aqui encontrados serão mais morosas e dispendiosas e até difíceis de implementar em plena crise (no auge da batalha não podemos destruir as trincheiras para construir novas, correndo o altíssimo risco de ficarmos desamparados)".

Pelo contrário, o Centro Hospitalar avisa que "o cumprimento estrito de algumas normas elencadas no relatório, principalmente nos cuidados intensivos pediátricos, irá diminuir a capacidade instalada a nível regional da resposta aos casos graves, não havendo alternativas válidas noutros locais e aumenta o risco direto para os doentes, sem significativas melhorias dos riscos para os profissionais".

Queixa de enfermeira motivou inspeção

A investigação da ERS ao Hospital Dona Estefânia nasceu da queixa de uma enfermeira que em maio, num e-mail, comunicou uma situação que considerava "preocupante e alarmante, correndo o risco de se tratar de um problema de saúde pública".

A denúncia surgiu depois de um surto de Covid-19 que nesse mesmo mês atingiu bebés internados no hospital pediátrico.

A enfermeira "realçava", na exposição detalhada no processo na ERS, que as crianças infetadas eram bebés de berço, "restritas à sua unidade, e cujo acompanhante (duas delas sem acompanhante), apenas saía da unidade para se deslocar ao WC, uma vez que as refeições para os pais estavam [há 12 dias] providenciadas juntamente com as das crianças, evitando assim a circulação dos acompanhantes pelo serviço e hospital".

Outra das crianças, também com Covid-19, "estava sujeita a técnica de substituição renal, encontrando-se em quarto isolado, saindo apenas para realizar tratamento numa sala a cerca de 5 metros do quarto, onde também não tem outra criança no decurso do mesmo".

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