InterAge. Um convívio familiar para todas as idades

O Projeto InterAge da SCML vai renovar 21 centros de dia em Lisboa até 2026 para abrir as atividades a pessoas de todas as idades.

Às quintas-feiras depois de almoço há sempre aula de ioga no Centro de Desenvolvimento Comunitário da Charneca (CDCC). A sala torna-se pequena para tantos colchões estendidos no chão.

Quase todos os participantes têm mais de 65 anos. "Descarregamos o nosso stress todo e naquela hora esquecemos todos os problemas", conta Júlia Soares, 71 anos, que nunca perde uma aula de ioga.

Isabel Abreu, diretora do CDCC, explica que a atividade é bastante concorrida entre os mais velhos, apesar de alguma resistência inicial porque "as pessoas pensaram que era muito complicado e que nunca iriam conseguir fazer".

Com aulas a decorrer há quatros anos, as dúvidas dissiparam-se. "Isto foi muito desmistificado. Eles começaram a perceber que qualquer pessoa pode fazer ioga", conta a diretora.

A aula está disponível para todas as idades e é apenas uma das atividades que o centro oferece. Recentemente, o CDCC decidiu abrir as portas para a comunidade, como parte do projeto InterAge, um programa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que aposta em atividades como ioga, teatro, expressões plásticas, costura criativa, ginástica e ateliês de culinária.

"O InterAge quer ser uma resposta a pessoas de qualquer idade que queiram frequentar um equipamento da Misericórdia que tenha atividades apelativas a pessoas, não só mais novas, como também idosos, mais qualificados e que procuram de facto outras atividades", explica a diretora do centro.

Não faltam atividades nem candidatos

Júlia Soares anda no centro há sete anos, desde que se reformou. Garante que o centro lhe dá energia para o dia a dia. "Vimos aqui buscar forças para os nossos problemas. A gente convive uns com os outros".

Natália Henriques, 78 anos, frequenta o centro há cerca de uma década. Quando chegou tinha alguns problemas de saúde. "Eu vinha mesmo tonta. Caía". As técnicas do centro perceberam que tinha dificuldades em tomar os medicamentos a tempo e horas. "Esquecia-me de pôr uns ao pé dos outros. Então, as doutoras fazem-me a medicação numas caixinhas. Desde aí para cá, tenho andado sempre bem".

É das mais ativas no centro e recebeu bem o projeto InterAge. "A gente quer cá é pessoas novas porque os velhos - aqueles caducos - já não interessa", brinca Natália.

Uma das aulas preferidas de Natália é informática. Gosta de estar ao computador ou no tablet. Também faz ioga, vai ler histórias às crianças da creche e não perde um passeio. "Para a minha saúde é tudo".

Lisboa envelhecida

Cerca de um quarto da população residente em Lisboa tem 65 ou mais anos. A grande maioria vive sozinha ou com pessoas da mesma idade. A cidade continua envelhecida mas o perfil do idoso em Lisboa está a mudar.

"Os idosos do futuro - daqui cinco ou dez anos - são idosos diferentes e, portanto, a resposta dos nossos centros de dia tradicionais não está de todo de acordo com as expectativas e a procura da população", refere a diretora do centro.

Foi para responder a essa mudança que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu requalificar 21 centros de dia até 2026 para que se transformem em espaços intergeracionais. O objetivo do projeto InterAge é chegar a cerca de 1600 utentes e desconstruir a imagem de um centro de dia. "É tentarmos mentalidades para que qualquer pessoa pode dizer: eu vou para o interage. Estão lá idosos mas estão pessoas de outras idades. Convivemos todos."

É do convívio que Júlia gosta mais. A reforma trouxe-lhe mais tempo para poder aproveitar a vida. "Eu só acordei para a vida quando fiquei reformada. Eu e muitas mulheres que trabalham, é o trabalho, a casa, os filhos. Esquecemo-nos que nós existimos e só pensamos nos outros."

Natália tenta ir ao centro todos os dias, ajuda-a a manter uma rotina e até a aperaltar-se. "Quando não venho, por qualquer motivo, nem me apetece fazer nada, nem vestir. Ando assim com uma bata qualquer em casa."

Faz questão de ir ao centro a não ser que o filho apareça para almoçar. "Tive sorte de encontrar o centro, que me ajudassem. Ajudaram-me muito. Para mim é a coisa mais bela que eu tenho."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de