A médica que gosta de falar com doentes de Parkinson

A médica Raquel Barbosa de 31 anos venceu a terceira edição do Prémio João Lobo Antunes, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no valor de 40 mil euros, para investigar doentes de Parkinson que desenvolvem problemas na marcha, depois de uma cirurgia de estimulação.

Raquel Barbosa até nem tinha o sonho de ser médica mas o percurso escolar levou-a até à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Assim que começou a estudar neurologia percebeu que estava no sítio certo.

"Eu acho que neurologia é maravilhoso, porque só com um exame neurológico conseguimos perceber muito sobre a doença. Eu acho que isso é fantástico", conta a médica interna de neurologia no Hospital Egas Moniz em Lisboa.

A relação entre o médico e o doente, típica das doenças neurológicas, também a ajudou a escolher a especialidade porque Raquel Barbosa queria uma profissão que lhe permitisse o contacto direto com pessoas. "Eu gosto muito de falar com as pessoas. Eu acho que tinha de ser uma especialidade em que falasse com pessoas."

A médica interna de neurologia no Hospital Egas Moniz em Lisboa dedica-se às doenças de movimento, sobretudo ao Parkinson, uma doença neurodegenerativa que afeta, principalmente, a coordenação motora.

Apesar da doença não ter cura, há uma série de terapêuticas que ajudam a controlar os sintomas clássicos: tremor, dificuldades na marcha, a lentidão e falta de destreza motora. Inicialmente, o tratamento passa por comprimidos, que são eficientes na reversão dos sintomas.

"Nós dizemos que existe uma lua-de-mel na doença de Parkinson, que é quando introduzimos a terapêutica oral, e os doentes melhoram bastante os sintomas", explica Raquel Barbosa, referindo que à medida que a doença avança, a medicação oral deixa de fazer efeito.

Os doentes voltam a desenvolver complicações motoras e é aí que entra a cirurgia de estimulação. "Temos uma segunda lua-de-mel na doença porque consegue-se novamente controlar os sintomas", explica a investigadora.

Esta cirurgia vai estimular os núcleos profundos do cérebro do doente de Parkinson através de eletricidade e Raquel Barbosa garante que tem resultados positivos em muitos pacientes. Mas há um subgrupo de doentes que desenvolve alterações da marcha. "Os doentes descrevem-na como os pés ficam colados ao chão e não conseguem dar um passo. Muitas vezes, nesta sequência, até caem."

A ciência ainda não descobriu o porquê desta alteração na marcha e Raquel Barbosa decidiu investigar as razões que levam alguns doentes de Parkinson a ficar com os "pés colados ao chão" depois da cirurgia de estimulação cerebral.

Juntamente com uma equipa do Hospital de Santa Maria e da Fundação Champalimaud, a investigadora vai desenvolver um estudo retrospetivo, analisando doentes já operados e que tenham desenvolvido o problema e um estudo prospetivo, olhando os pacientes antes de fazerem a cirurgia.

Vamos tentar arranjar formas alternativas de estimulação, mudando a forma como entregamos a estimulação elétrica, dar diferentes frequências de estimulação para ver se conseguimos melhorar a marcha.

Foi com este projeto de investigação que a médica Raquel Barbosa venceu a terceira edição do Prémio João Lobo Antunes, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no valor de 40 mil euros. A investigadora considera que o Prémio João Lobo Antunes criado em homenagem ao neurocirurgião, que morreu em 2016 e destinado a médicos a fazer o internato em neurociências representa um valor importante para investir no projeto. "São precisos alguns recursos para financiar isto, há algumas tecnologias envolvidas no trabalho, mesmo depois para algumas coisas para apoio aos doentes que possam ser necessárias. Sim, é bom."

O projeto vai prolongar-se nos próximos dois anos e Raquel Barbosa vai conjugar o trabalho de frenético de médica com o de investigadora. "As ideias para a investigação só vão surgir do trabalho no dia-a-dia com os doentes, de ir vendo as necessidades e de ir vendo onde há as lacunas do conhecimento, onde é preciso ir investigar."

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