"Estamos a falhar." Fármacos para a obesidade não são comparticipados e falta prevenção

Em Portugal, os medicamentos para a obesidade não são comparticipados. Quem precisa tem de pagar do próprio bolso, o que agrava a situação de uma doença que afeta principalmente classes sociais mais desfavorecidas.

A obesidade é a doença do século XXI, o flagelo da nossa sociedade, um problema de todos e não de cada um. É preciso apostar numa verdadeira prevenção, numa educação que permita mudanças fulcrais no dia a dia da população mundial, desde a política à alimentação.

No Dia Nacional e Europeu de Luta Contra a Obesidade, a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade alerta para o facto de as pessoas com obesidade em Portugal não terem acesso a comparticipações nos fármacos existentes no mercado, mas deixa claro que há também necessidade de existir uma abordagem multifatorial e multidisciplinar.

"A obesidade continua a aumentar, estamos a falhar." As palavras pertencem Paula Freitas, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). A especialista garante que este "falhanço não é só a nível nacional", já que a "obesidade tem vindo a aumentar em todos os países", contudo é preciso criar mais e melhores políticas.

"A obesidade não é só da responsabilidade individual, são os aspetos da globalização: da arquitetura das cidades, da poluição, são os disruptores endócrinos, fatores hormonais, genéticos. As políticas de saúde, da indústria alimentar, da agricultura, a educação, os meios de comunicação social, a publicidade, os transportes... tudo vai impactar na obesidade", justifica a professora em declarações à TSF.

Paula Freitas explica que "estamos virados para o indivíduo", enquanto aponta para a necessidade de "haver estratégias viradas para a sociedade", para o todo, para uma população que ainda aponta o dedo a pessoas com obesidade. Assim, e apesar de Portugal ter vindo a fazer "algum esforço no sentido do tratamento cirúrgico da obesidade", são precisas "mais medidas na obesidade e pré-obesidade".

Uma "educação para a saúde a todos os níveis" e "programas para pessoas com obesidade e que ainda não têm indicação cirúrgica" são referidos pela especialista como fundamentais para lutar contra a doença.

A obesidade, mais do que um problema em si mesmo, diz, está associada a múltiplas doenças como "diabetes, doenças cardiovasculares, respiratórias, ortopédicas e cancro" e é imprescindível que haja uma abordagem com "vários profissionais" que melhore o tratamento do problema.

A falta de comparticipação de fármacos

O facto de os tratamentos farmacológicos não serem comparticipados é uma das grandes preocupações da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade. A doença afeta maioritariamente as classes sociais mais desfavorecidas, o que torna esta situação ainda mais evidente.

Em Portugal existem três fármacos aprovados para tratamento da obesidade, mas os doentes têm de os pagar do próprio bolso. "Não há qualquer tipo de reembolso, os fármacos não são comparticipados. O doente paga integralmente o tratamento", explica.

A professora acredita que está em causa uma "ameaça à saúde que gera desigualdades e interfere com os esforços de intervenção", o que é muitas vezes agravado pelo "estigma" e "preconceito" existente em relação a estas pessoas.

Apesar de acreditar que a comparticipação é essencial, a especialista reitera a necessidade de uma força de vontade do doente que permita a mudança radical do estilo de vida. Tem de haver "compromisso" e "envolvimento" para que haja resultados.

Um estudo realizado entre 2015 e 2017 concluiu que quase 60% da população portuguesa tem obesidade ou pré-obesidade. A nível mundial estima-se que, em 2025, mais de 20% da população mundial seja obesa. A obesidade infantil é outro dos grandes problemas apontados pelos especialistas, tendo em conta uma incidência crescente nos últimos anos.

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