Feira da ladra. "Antigamente havia mais respeito, mais camaradagem"

Assinala-se esta terça-feira, pela primeira vez, de forma oficial, o Dia Nacional do Feirante. Para assinalar a data, a TSF esteve esta manhã na mais antiga feira de Lisboa: a incomparável feira da ladra.

São seis e meia da manhã. Rui Branco está junto a um dos vários retângulos delimitados a tinta branca no alcatrão. A cada retângulo corresponde uma licença atribuída pela Câmara Municipal de Lisboa a quem quer vender, aqui, no campo de Santa Clara, na mais antiga feira da capital - a feira da ladra. Cada licença custa "entre 40 e 90 euros".

Rui veio de Setúbal. Trabalha numa empresa que faz a gestão de condomínios. Há seis anos começou a vender os bens doados pelos condóminos. Hoje, por exemplo, é possível encontrar discos de vinil, um fax, um rádio gravador de cassetes, quadros, um carro de bombeiros em miniatura, moedas, entre outros objetos arrumados de forma simétrica em cima de um pano que ocupa a totalidade do retângulo.

Foi dos primeiros a despachar-se. Ou nas palavras de Rui: "as redes estão lançadas agora é preciso esperar pelos clientes".

Enquanto os clientes não chegam, os feirantes trocam alguns piropos e provocações relacionadas com o desfecho do jogo da taça de Portugal em futebol. "Marco Paulo", alcunha que ganhou por causa dos cabelos semelhantes ao cantor de música popular, é um dos principais visados.

O adepto do FC Porto, com banca ali mesmo ao lado da de Rui, vende discos de vinil. Reina um ambiente de boa disposição e camaradagem. Quando Rui precisa de se ausentar, é "Marco Paulo" quem deita um olho à banca. "Aqui há, de vez em quando, assaltos, é preciso estar atento", explica o feirante, com um olho em cada banca.

Por volta das oito da manhã já a feira da ladra respira a plenos pulmões. As bancas estão montadas e começam a ver-se os primeiros compradores. Alguns são vendedores que compram com o objetivo de vender mais tarde a preços mais elevados. Entre este grupo há feirantes, antiquários, vendedores de velharias.

É por esta altura que encontramos Luís Silva a deambular por entre centenas de objetos que as marcas do tempo aqui trouxeram. Luís vende numa loja de um amigo, ali não muito longe, "brinquedos antigos". Todas as terças-feiras e Sábados passa pela feira da ladra à procura de uma oportunidade, de "brinquedos, alguns estragados, que depois são reconstruídos". Hoje não foi um bom dia. Luís não encontrou nada que lhe enchesse o olho. "Nem sempre encontramos aquelas coisas de que nós gostamos", explica Luís.

A maioria dos objetos em segunda mão são vendidos a preços reduzidos. Mas por aqui também há peças que podem valer várias centenas de euros. Por exemplo, aquele alambique em cobre e bronze vendido por Jorge Valente com banca situada ao cimo deste enorme "centro comercial" a céu aberto.

"1250 euros", atira Jorge.

Uma das marcas desta feira é o regateio de preços que, neste caso em concreto, poderia levar o comparador a conseguir comprar este alambique por "1100, 1150 euros".

É também desta ordem de grandeza o valor da balança em cobre assente numa pedra de mármore que, tal como o alambique, salta à vista de quem por ali passa. Por aqui só se encontram objetos de grande dimensão que exigem "algum esforço" a quem tem de carregar e descarregar estas peças todas as terças e sábados, os dias da feira da ladra. Jorge mergulha no trabalho "com gosto". Vende na feira da ladra há três anos. Antes trabalhava numa sapataria. E afinal, o que tem de especial a vida de feirante? "Saber de onde vêm [as peças], a origem delas, o espaço de onde vieram", explica Jorge.

Abílio Pereira é uma figura incontornável da feira da ladra. Tem 84 anos, há 72 que aqui vem vender os mais diversos objetos. Esta manhã são palmilhas, óleo para máquinas, molas. Tudo novo e com pouco peso já que a idade não permite "grandes aventuras".

Tinha 8 anos quando começou a vir com o pai. Aos 12 aventurou-se por conta própria. Começou por vender "ferragens" e daí para a frente "um pouco de tudo". Dos tempos de menino para agora, houve algumas mudanças. À cabeça "as pessoas".

"Há outro género de gente a vender. Antigamente era só mesmo vendedores, hoje é uma mistura: reformados, rapazes da escola que vêm vender coisas do pai e da mãe, é totalmente diferente". Imutável parece ser a incapacidade de alguns vendedores avaliarem de forma mais correta o valor dos objetos à venda. Abílio resume esta ideia com a seguinte frase: "Coisas de um euro, vende-se por dez; coisas de dez vendem-se por um euro".

Para Abílio o tempo de feirante está prestes a terminar. Está a pensar em arrumar as botas este ano. Em jeito de balanço explica que desta vida de feirante leva "conhecimentos, conhecimento de vendas, das pessoas, da vida, amizades, camaradagem que hoje está um bocadinho diferente. Antigamente havia mais camaradagem, mais respeito".

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