Há prisões sem guardas no Brasil e uma start up portuguesa quer aprender com elas

A APAC Portugal quer ajudar a desmistificar a vida nos estabelecimentos prisionais e defende prisões mais humanas, preparando os reclusos para a saída.

Duarte Fonseca não esquece a primeira vez que entrou numa prisão para participar num torneio de futebol entre reclusos e jovens universitários. Recorda-se que a equipa travou um jogo aguerrido, acabando por perder e depois da partida deu de caras com alguém conhecido. "Há um que vem ter comigo e diz-me assim: eu conheço-te. Tu não paras ali na zona da Boavista? Eu sou o Bruno". Duarte Fonseca reconheceu Bruno. "Tu já me roubaste!"

Foi um encontro inesperado mas que deixou Duarte a pensar. "O que a mim me fascinou na altura foi como é que este tipo que na altura roubava vinte cêntimos - uma coisa estúpida de miúdos, só porque era ali do bairro ou da escola ao lado - de repente a coisa vai evoluindo e não encontra outro caminho na vida."

Duarte Fonseca não quer desresponsabilizá-lo mas antes entender de que forma a falta de oportunidades pautou o percurso de Bruno. "Não houve oportunidades de alguma forma para ele perceber que aquele não era o caminho que queria levar porque, de certeza, que ele nunca pensou que queria ser preso. E isso tocou-me bastante. É uma pessoa da minha idade, que andou nas mesmas escolas, nos mesmos bairros, nas mesmas zonas, ele está preso e eu não. A linha é muito mais ténue."

O primeiro contacto com o meio prisional estava feito. Uns anos mais tarde, numa conferência, Duarte Fonseca teve a ideia de lançar a startup APAC Portugal. "Ouvimos um senhor brasileiro falar de umas prisões no Brasil sem guardas, cogeridas com as próprias pessoas que estavam presas, a falar de resultados inacreditáveis e que custavam um terço e, na altura, a quilo mexeu bastante."

Metodologia APAC

A metodologia de que Duarte fala chama-se APAC (Associação para a Proteção e Assistência aos Condenados) e foi desenvolvida no Brasil há mais de 45 anos. A teoria defende prisões mais humanas sem perder a função punitiva da pena mas com o objetivo de evitar a reincidência. Estas prisões continuam a ter grades mas que não têm guardas. São os reclusos que tratam da gestão e organização do estabelecimento até estarem prontos para voltarem à liberdade.

Duarte Fonseca viveu dentro de uma prisão no Brasil durante uma semana e garante ter saído "completamente transformado", explicando que "lá tudo é feito com ele e por eles e, portanto, essa mudança acontece pelo caminho".

A mudança assenta num processo de valorização humana baseada em diversos pilares que trabalham o desenvolvimento pessoal e humano de cada recluso, a promoção das relações humanas e a reinserção social. "A maior parte das pessoas que estão presas, querem verdadeiramente não voltar a ser presas e sabem que isso passa por trabalhar, cuidar da família, viver uma vida de forma honesta e todos eles têm essa capacidade. É muito dar as ferramentas para perceber esse caminho."

A APAC Portugal, uma start up criada em 2015, foi acolhida na Casa do Impacto, o hub empreendedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Conta com cerca de 30 voluntários dedicados ao trabalho no terreno com os reclusos, mas também à angariação de fundos, comunicação e gestão burocrática e administrativa da associação. "Acho que é a atitude de estar e de exemplo dos voluntários e da relação humana que é criada, que permite essa mudança. Ninguém muda ninguém. Só as relações humanas que são criadas, é que permitem que a outra pessoa mude. É essa relação que se procura."

Trabalhar na prisão

Entre os 13 mil reclusos em Portugal, 13% trabalha para empresas externas, um número que a APAC Portugal quer ver crescer para que a mão-de-obra de quem está numa prisão seja aproveitada. "Já há muita coisa produzida em prisões. Há vinho produzido em prisões. Lá fora, se formos à Catalunha, a indústria aeronáutica trabalha dentro de prisões. E nós, hoje em dia em Portugal, estamos a viver falta de mão-de-obra em determinados setores, o setor da indústria metalomecânica e metalúrgica.".

A APAC tem vários programas de capacitação profissional e educativa em duas prisões portuguesas. Uma delas, o Estabelecimento Prisional de Caxias, vai ser palco para testar um projeto-piloto, que permite aos reclusos trabalharem para empresas a partir das prisões ou receberem formação prática para quando saírem. "Porque não montar pequenas fábricas de produção lá dentro, treinar estas pessoas, quase uma reconversão como o IEFP faz e depois integrá-las no mercado de trabalho quando saem?"

A APAC indica a produção de cerâmica, lavandarias industrias, a industria metalomecânica e metalúrgica e o tratamento de resíduos como possíveis áreas de investimento. "Há imenso potencial de negócio para as próprias empresas porque há pessoas, porque há benefícios fiscais, porque há espaço livre, porque há flexibilidade de contratação."

Abrir mentes empresariais

O objetivo da APAC é abrir mentes, "amolecer o tecido empresarial" e convidar as empresas a espreitarem para lá das grades. "Por um lado, é alguém exterior que vai lá e tem imenso impacto neles e veem que esta pessoa se preocupa. Por outro lado, há uma desmistificação enorme das pessoas que vão lá dentro. Isto não é nada daquilo que eu pensava, não é os filmes americanos."

Duarte Fonseca admite que a causa não ganha empatia dos investidores facilmente mas pede mente aberta e um bocadinho de amor. "O amor transforma. Quando se fazem as coisas com amor - e daí o voluntariado e a gratuidade - a transformação acontece porque a pessoa sente-se digna. É através desse tipo de ferramentas que trabalhamos: o mérito, o amor, a confiança, a valorização da pessoa tal qual é e não pelo que fez. Porque todo o homem é maior do que o seu erro, independentemente daquilo que tenha feito, pior atrocidade da vida. A humanidade está lá na pessoa, o bem está lá. É preciso, às vezes, encontrar."

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