"Já não há coleccionadores." Palavra do livreiro mais velho do país

É o livreiro mais antigo do país, cumpriu em abril um século de vida. João Pires foi este ano agraciado pelo Presidente da República com o grau de Comendador da Ordem do Mérito. A TSF foi ao encontro do homem que vive rodeado de livros há quase 80 anos... e não se cansa.

"Venho de táxi e vou de táxi. Todos os dias." O destino é a livraria "O mundo do livro", um hábito a que João Pires não consegue resistir.

Ou não quer.

Apesar dos 100 anos completados no passado dia 8 de abril, o apego à livraria que abriu portas em meados do século passado é mais forte do que o peso da idade. É ali, no Largo da Trindade, em Lisboa, que encontramos João, a meio da manhã, sentado num cadeirão na companhia de uma das filhas. A visita, sem aviso prévio, tem como intuito entrevistar aquele que é considerado o livreiro mais antigo de Portugal. João acede, sem hesitações, à pretensão.

Logo ali, no piso térreo, o alfarrabista começa por mostrar o que de melhor tem para oferecer a quem o visita. Por exemplo, "O Livro do Menino Deus", uma edição anotada do autor e amigo Aquilino Ribeiro. Seguem-se algumas edições fac-similadas de obras raras produzidas por João Pires como as "Sátiras" de Sá de Miranda. Por fim, as gravuras antigas que começou a vender quando a procura de livros antigos diminuiu e que hoje ocupam boa parte da livraria.

Ao fim de alguns minutos, e face à presença de alguns clientes na loja, a filha de João Pires sugere que subamos ao terceiro piso para aí conversarmos mais à vontade. Antevendo a dificuldade que representará para o livreiro a escalada dos degraus, sugiro que fiquemos por ali, mas a insistência da filha e a destreza com que João ultrapassa os obstáculos, provam que os receios não tinham razão de ser.

É um dos aspetos tão admiráveis quanto surpreendentes de quem contacta com João Pires - apesar dos 100 anos, a verdade é que nem a expressão do corpo, nem o curso da conversa indiciam a idade que tem.

Chegados ao terceiro piso, dirigimo-nos para junto da secretária e da cadeira em madeira que aguarda por João e pelas histórias que tem para contar. Ligado o gravador, o bibliófilo começa por explicar como se iniciou no negócio da venda de livros antigos: "estabeleci-me em 1945 num vão de escada. (...) com os meus 200 livros".

O gosto pela leitura e pelo negócio dos livros antigos herdou-os do avô, dono de uma livraria na Sé Velha em Coimbra, e do pai que trabalhou na livraria Morais em Lisboa. Antes de se aventurar por conta própria, João Pires passou pela Bertrand e pelas livrarias Sá da Costa e Eclética.

Dos primeiros tempos, de alfarrabista que assumiu as rédeas do destino, recorda o contributo de um amigo estimado e que muito contribuiu para o sucesso dos primeiros catálogos: "este aqui tem um prefácio de Aquilino Ribeiro. Se quiser ler estas primeiras coisas, é engraçado".

Assim escreveu Aquilino Ribeiro: "João Pires, porventura o livreiro, antiquário, mais novo de Portugal e por certo dos mais audazes e entendidos, apresenta à venda um escrínio precioso de bons autores, célebres autores, em edições raras, edições de tiragem limitada nos melhores papéis. Wathman, Japão, Ninho da Abelheira, exemplares únicos, por vezes, encadernados sumptuosa e principescamente". O fim da leitura do prefácio desperta em João pires um sorriso. É acompanhado por uma pontada de orgulho. Não vestido de vaidade, mas coberto por um manto de nostalgia.

A referência a Aquilino Ribeiro remete João para os tempos em que o Chiado fervilhava. "Na Bertrand... juntavam-se ali muitos escritores, muita gente de categoria. Depois na livraria Sá da Costa, a mesma coisa. Eram professores, era... sei lá". São também desse tempo os maiores negócios da livraria "O Mundo do Livro".

João recorda, por exemplo, o episódio de uma senhora que lhe propôs a compra de uma verdadeira preciosidade: "era um livro assim grande, com encadernação em pergaminho, tinha uma fechadura que eu nunca tinha visto, abro aquilo - o que era? A magna carta.

Houve um artista em Inglaterra que fez quatro exemplares - andei a investigar isso - um está no Louvre, o outro está no Hermitage, outro no British Museum e esta era o mais bonito de todos". João acabou por servir de intermediário na venda. O livro acabaria por ser comprado por um dos principais clientes do livreiro - José Almeida Garret, familiar do autor de "As viagens na minha terra".

O negócio obrigou João a deslocar-se à Granja, onde estava o comprador. "Estava ele e o irmão, o Alexandre, puseram-se a ver aquilo... de facto isto é uma coisa fantástica [comentaram]". O comprador perguntou a João Pires quanto pedia a senhora pelo livro. Ao valor de 70 contos, indicado pelo livreiro, somou José Almeida Garret mais 30 contos que justificou com a afirmação de que o excedente seria para pagar "o comboio". Conclui, João: "Eram clientes assim, já viu!".

Bem diferentes dos clientes de hoje. O livreiro considera que "desapareceram os colecionadores". "[Existiam] imensos banqueiros... o Miguel Quina, por exemplo, que era do Banco Borges § Irmão e outros do Banco Português do Atlântico. Eram clientes fantásticos!". A diminuição da procura teve evidentes repercussões no negócio. João, diversificou. Alargou a oferta a gravuras antigas e molduras. Em jeito de brincadeira afirma "que qualquer dia coloco umas barricas de cerveja lá em baixo".

Se assim fosse não seriam umas barricas quaisquer. Como não são as gravuras que preenchem boa parte dos três andares da loja. Por exemplo, as primeiras gravuras que retratam a Lisboa antiga, datadas de 1575. Ou este quadro que agora temos diante de nós. Retrata uma mulher que faz lembrar outra mulher. É da autoria do pintor português do século passado, Guilherme Filipe. "Trabalhou em Espanha com os melhores pintores, trabalhou cá com o José Malhoa. Então, se nós estivermos aqui, ela está a olhar para nós. A gente vem para aqui... e está a olhar para nós. É a Mona Lisa portuguesa".

Não se pense que tão longa vida se resume a livros, gravuras e molduras. João assistiu, por exemplo, da livraria situada no Largo Trindade, às mudanças trazidas por aquele dia 25 de Abril. Procurou ele mesmo antecipar esse sopro de liberdade quando, anos antes, acedeu a um pedido para que a cave da casa que tinha em Santo Amaro de Oeiras pudesse servir de base de apoio ao "General Sem Medo". "Quando foi das eleições Delgado, em 1958, o presidente dos bombeiros que era o Dr. César Abel, médico, disse: - Ó Pires podia ceder a sala da cave para se reunir as comissões todas do conselho de Oeiras. - Está bem. Juntavam-se lá 80 pessoas. Aquilo teve imensa piada". Desses encontros recorda João duas ilustres presenças: "Tenho lá coisas gravadas do Zeca Afonso e do [Carlos] Paredes".

Não sabe João Pires se terá sido o envolvimento na campanha de Humberto Delgado que lhe valeu uma ida às instalações da polícia política - a PIDE. O livreiro recorda a conversa com o inspetor que o interrogou::

- Qual é o seu ideal?

- Ser livreiro.

- Não, ideal político!

- Suponha que eu tenho um ideal político diferente do seu. Era uma chatice.

- O senhor é espertinho!

- Não, não sou espertinho. Não vale a pena. Eu dedico é a minha vida aos livros e mais nada!

João acabou por ser mandado embora. Também este texto está quase a terminar, não sem antes, falarmos daquele rádio colocado numa prateleira atrás da cadeira onde se senta o carismático livreiro. Explica João que gosta de rádio mas entende que podíamos ter uma rádio "melhor, com boa música. Na televisão, programas culturais interessantes que não se tem. É anúncios, é futebol, é isto, aquilo, aqueloutro". Entre as preferências musicais, elege a música clássica.

Sobre o fim de vida, João Pires, afirma que pensa nisso, mas sem "medo". À pergunta de qual o segredo da longevidade, sugere que talvez seja o "trabalho" que continua a fazer parte do dia-a-dia do livreiro. A conversa termina com João a folhear o dossiê que acumula alguns dos momentos mais importantes deste século de vida. É feito de cartas, cartões, fotografias, recortes. Desperta sorrisos. Faz adivinhar uma vida cheia.

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