Número de cirurgias em atraso duplicou nos últimos quatro anos

A alteração dos prazos máximos para as operações e a falta de profissionais no setor da Saúde são alguns dos fatores apontados para este aumento.

O número de doentes que estão à espera de cirurgias durante mais tempo do que o recomendado duplicou nos últimos quatro anos. Em março deste ano, havia mais de 45 mil utentes à espera para serem operados já depois do tempo recomendado - um número que representa 18,5% do total de doentes inscritos no Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC).

De acordo com o jornal Público , que analisou os dados disponíveis no portal do SIGIC, o número de utentes que já ultrapassaram o tempo máximo de resposta garantido é o dobro do que era há quatro anos - em 2015, havia 22.467 pessoas nesta situação; já em março deste ano, havia 45.183).

Os dados mostram também que o Hospital Garcia de Orta, em Almada, o Centro Hospitalar de Tondela-Viseu e os Institutos de Oncologia de Lisboa e do Porto são aqueles que apresentam a maior percentagem de doentes à espera há mais tempo.

Em declarações ao Público, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, aponta várias razões para o aumento do número de atrasos.

Alexandre Lourenço explica que houve alterações ao Tempo Máximo de Resposta Garantido que vieram encurtar alguns prazos previstos. Por exemplo, se antes uma cirurgia programada de nível 1 (a menos grave) podia ser realizada num prazo de 270 dias, agora o prazo está reduzido a 180 dias.

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares garante que as greves no setor da saúde durante o último ano também tiveram impacto nos atrasos das cirurgias, assim como as dificuldades enfrentadas pelos hospitais para contratar mais profissionais.

Por este motivo, Alexandre Lourenço pede mais autonomia para os hospitais, de modo a que estes possam resolver os problemas que vão surgindo. Uma perspetiva partilhada pelo IPO de Lisboa, que justifica os atrasos com o aumento do número de doentes com cancro, as múltiplas greves do último e as obras de ampliação do bloco operatório - mas que afirma que só com a contratação de mais profissionais poderão ser cumpridos os prazos para as cirurgias.

O bastonário da ordem dos médicos, Miguel Guimarães, coordenou um grupo técnico independente que apresentou 45 recomendações ao Governo para melhorar o tempo de espera nas cirurgias.

O grupo de trabalho foi criado na sequência de uma avaliação do Tribunal de Contas que, em 2017, considerou que a Administração Central do Sistema de Saúde falseou os tempos de espera para consultas e cirurgias através de "procedimentos administrativos de validação e limpeza de listas de espera".

Ouvido pela TSF, Miguel Guimarães confirma os dados que revelam o aumento das cirurgias em espera, mas rejeita que este esteja relacionado com as várias greves no setor durante o último ano.

"Isto é uma tendência crescente, não há uma variação por este ter sido um ano excecional, portanto, isto não tem a ver com a greve dos enfermeiros", responde o bastonário.

Em vez disso, Miguel Guimarães atribui os atrasos à não aplicação dos mecanismos já previstos para contornar os atrasos nas operações.

"Isto está a acontecer porque os mecanismos legais que existem para corrigir a situação não estão a ser utilizados devidamente", critica o bastonário, referindo-se a medidas possíveis como a transferência de um utente de um hospital do setor público para outro, de modo a ser operado mais rapidamente.

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