"O medo fica em casa." Quarenta idosos de Marco de Canaveses vão à "guerra"

Os idosos de um centro social em Marco de Canaveses vão andar hoje de arma em punho. Vão jogar paintball no campo da aldeia, onde as atividades radicais não são uma novidade.

Os cadeirões cor de laranja estão espalhados de forma ordenada pela sala, que tem uma janela grande e duas televisões ligadas. Há mais mulheres que homens. Madalena Pinto, 84 anos, é utente do Centro Social de Carvalhosa há cinco meses e participou nos treinos do jogo que se avizinha.

"Gosto imenso. Dantes só os homens é que iam, agora vão mulheres e tudo. Convidaram-me e eu fui e gostei. Não tenho medo nenhum. O medo fica em casa."

O centro não foi uma decisão do seu agrado no início. Agora está rendida e a família apoia-a. São sete filhos, catorze netos e cinco bisnetos. Todos gostam que Madalena pratique atividades radicais, como o paintball. "Dizem-me para lutar para a frente e aprender, para saber puxar por uma pistola".

Situado numa aldeia do Marco e Canaveses, o Centro Social de Carvalhosa apoia uma centena e meia de idosos. Abriu portas em 2011 e desde o primeiro dia, o diretor, José Carlos Coelho, faz questão de apostar em atvidades de lazer.

"As pessoas estão sós, isoladas e sem atividade nenhuma em casa. Nós quisemos trazer esses idosos até nós, e que encontrassem um lugar onde pudessem viver felizes. E para viverem felizes têm de sair e fazer atividades ao ar livre, numa sociedade mais preocupada em integrar os mais jovens."

Nas redes sociais, o centro vai mostrando e contando as atividades fora de portas. Foi assim, no ano passado, quando proporcionou um passeio todo-o-terreno, e em 2017, quando programou uma viagem de avião entre Porto e Lisboa. Desta vez, os idosos são desafiados para um jogo de paintball.

"Em vez de ficarem fechados a fazer croché como já vimos em muitos sítios, decidimos experimentar atividades novas. Eles aderiram bem, gostaram e gostam de se ver nas fotografias que vamos tirando. Admiro também o apoio que recebemos, e a equipa do centro que vai conseguindo obter meios para concretizarmos estas ideias."

Os resultados deste combate ao isolamento e ao sedentarismo são visíveis, garante José Pedro Coelho. "Numa semana, ou menos, vemos no rosto a alegria das pessoas. Vemos que eles ficam diferentes e isso é quase inexplicável. Criamos um espírito de muita proximidade também entre a equipa."

Os utentes não escondem que o centro é um refúgio. Aqui escapam à solidão, e encontram companhia e aventura. Maria dos Prazeres Magalhães tem 74 anos. Apresenta-se com o entusiasmo que diz ter para tudo.

"Andamos de cross nas montanhas, de jipe. Sou muito ativa. Não tenho medo de nada. Gostei muito daquilo. Já fomos de avião. Sempre sem medo."

O jogo de paintball está marcado para esta quarta-feira, mas Maria dos Prazeres já participou nos treinos. Agora está ansiosa por repetir a experiência. "Esta atividade também é espetacular! Eu até sonhava de noite que nadava aos tiros". Gostou de tudo no jogo que a fez viajar no tempo. "Adorei, foi muito importante. Parecia que tinha 15 anos."

Manuel Silva também participou nos treinos e também recordou outros tempos. "Senti-me na tropa. Eu na tropa fazia aqueles exercícios e muito mais. Ali era uma brincadeira."

O jogo da malha é o forte e o preferido de Manuel Silva, mas aos 83 anos não vira as costas a novos desafios. O passeio de jipe todo-o-terreno foi uma prova superada. "Aquilo era bom. Andávamos de um lado para o outro. O jipe é duro, mas foi bom. O motorista é que sabia como conduzir e para onde nos levar."

O campo da aldeia vai acolher o jogo de paintball para um grupo de quarenta idosos. Cristiano Vasconcelos é responsável pela organização. "No início pensei que não seria possível. Mas depois analisando bem, achámos que sim. Conseguimos chegar a um consenso."

Filipa Castro diz que tudo foi preparado tendo em conta o público-alvo. "Temos de ter em conta a mobilidade de cada um. O jogo vai decorrer no campo de jogos da aldeia, porque é plano."

Para além do jogo de paintball haverá também tiro ao alvo.

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