Woodstick, o festival português que acabou à paulada

Um ano depois de Woodstock, o primeiro festival de música em Portugal juntou milhares de jovens hippies, na mata dos salesianos, no Estoril, mas a intervenção da polícia de choque matou o evento à nascença.

A 15 de Agosto de 1970, um ano depois de Woodstock, o Festival dos Salesianos era anunciado na imprensa como o "Festival Monstro de Pop-Music", com entradas a 25 tostões. Seria o primeiro festival de música a juntar o rock, a canção de intervenção e a música étnica, recorda à TSF, José Cid, um dos organizadores.

"O espaço era no pinhal dos salesianos, na mata do Estoril" e no dia 26 de Agosto, a mata encheu-se de uma multidão com cerca de "cinco mil jovens, alguns verdadeiramente hippies, para curtirem uma boa tarde e noite de rock", recorda José Cid. Além do Quarteto 1111, liderado pelo cantor, o cartaz incluía nomes como Adriano Correia de Oliveira - "que ia trazer o Zeca Afonso" -, os Chinchila, A1, Psico, Objectivo e a banda belga Wallace Collection, entre outros.

No Festival, organizado por José Cid e José Nuno Martins, ainda se ouviram os primeiros acordes. O Quarteto 1111 foi o primeiro a subir ao palco - e o último. Enquanto tocavam, começou um fogo e a multidão "entrou em pânico", correndo em fuga pela mata abaixo. José Cid lembra-se de empurrar as rodas do órgão Hammond pinhal fora, "era um dos cem que havia no mundo".

"Quando a multidão chega lá abaixo", descreve Cid, "tinha a polícia de choque de Oeiras, cacetetes na mão e pastores alemães a dar pancada a tudo o que era gente". O cantor diverte-se a recordar a perseguição que continuou pela Estrada Marginal: "Polícias já gordos, barrigudos, fardados e carecas a correr de cabeça perdida e grupos de 20/30 jovens a correrem muito mais depressa e a provocarem-nos." Outra memória caricata: turistas japoneses no meio do pandemónio, a tirar fotografias, e depois "sem saber o que fazer", quando as máquinas fotográficas foram confiscadas pela polícia política.

José Cid não tem dúvidas de que o fogo "foi posto pela polícia", mas foi "um tiro no pé dado pela própria ditadura". O festival tinha atraído alguns jornalistas estrangeiros e pela primeira vez, foram divulgadas fotografias e vídeos da "repressão policial da primavera marcelista", em países onde já havia televisões. "Foi a primeira demonstração do abuso de poder contra a população em Portugal", em imagens que correram o mundo.

Ao lado de José Nuno Martins e Adriano Correia de Oliveira, José Cid refugiou-se na Junta de Turismo do Estoril, que apoiava o festival. Foi aí que um deles evocou o mítico festival norte-americano: "Isto parece um Woodstick!" E assim ficou para a história, o primeiro festival de música no nosso país, que não chegaria a acontecer. A fama acabaria por ser transferida para o Festival de Vilar de Mouros, no ano seguinte, em 1971.

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