"Isto é o Muro de Berlim." Mas fica em Leiria e rodeia 18 casas

É de betão, tem um metro e noventa de altura e fica à volta do Bairro Social da Integração, em Leiria. Quem lá vive não o quer.

Desta janela não se veem plantas, montanhas ou o castelo de Leiria. Não se veem os pinheiros nem eucaliptos do vale. Vê-se um muro de betão pintado de branco.

Tamara Ezequiel é uma das vozes de protesto que chegam do Bairro Social da Integração, em Leiria. A câmara municipal decidiu construir um muro de um metro e noventa de altura em torno do bairro e das 18 casas que o compõem. Da janela de Tamara só se vê esse muro.

"Eu vivia num bairro normal." O que é um bairro "normal"? É um onde podia ir à janela para ver "carros e pessoas". Ali não, ali "só vê um muro".

Estas famílias voltaram ao bairro para ocupar novas habitações, mas Júlio da Conceição e os outros moradores não contavam com a construção que delimita o bairro. Nem concordam com ela.

"Se houver um acidente ou um fogo, as ambulâncias não passam aqui", garante o morador, que recorda um episódio passado recentemente. "Já bateram aqui com uma carrinha que veio descarregar e arrancou um bocado [ao muro]."

Para que não restem dúvidas sobre o descontentamento, Júlio vai direto ao assunto: "Isto é o Muro de Berlim."

A câmara de Leiria já fez uma proposta: quer organizar uma intervenção artística para pintar o muro. Mas a ideia também não convenceu os moradores.

"Nós não queríamos arte. Queríamos ter espaço", garante uma moradora. De uma voz mais experiente vem até uma achega: "Querem grafitti? Temos crianças que também os fazem. Uma caneta ou um lápis e escrevem tudo."

O problema, reiteram, não é a cor nem decoração do muro. É o espaço. "Só queríamos abrir a janela para apanhar ar. Aqui sentimo-nos como animais."

Perante o cenário pintado (de branco) à sua frente, há até quem defenda soluções mais drásticas. Alexis Miguel defende que a solução tem duas dimensões possíveis: "Ou o muro se chega para lá, ou vai abaixo completamente."

A comunidade não quer estar fechada. Alexis acrescenta até que "já ouviu falar" de uma norma europeia que impede que um bairro tenha muros à volta.

"Só temos uma saída, não temos uma saída e uma entrada", nota. "Numa situação de afronta, não conseguimos sair. Com os carros todos a quererem sair, não vamos conseguir, de maneira nenhuma." Ao fundo, ouve-se uma voz: "Isto [o bairro] é uma rotunda."

Certo é que os moradores não querem o muro, seja ele de que cor for. E esse é só um dos problemas. Entre as queixas estão também a falta de estacionamento, iluminação e espaço para as crianças brincarem.

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