Janeiras cantadas à porta para alegrar o dia de quem vive sozinho

Câmara de Amarante leva a Tuna da Universidade Sénior às aldeias do concelho. Iniciativa enche o coração dos mais velhos.

A GNR anuncia-se à porta de Carminda Silva, em Bustelo, Amarante. "Bom dia, dona Carminda. Posso entrar? Hoje trago-lhe uma surpresa para lhe alegrar o coração. Vai ver que vai gostar", diz o militar. E ela: "Ai sim? Que seja uma surpresa boa!" E é. Vai ouvir as janeiras cantadas pela Tuna da Universidade Sénior de Amarante.

"Então pessoal, está tudo pronto?", pergunta o coordenador do grupo, Fernando Moreira. Depois, o sinal para começarem: "Um, dois, três... um, dois, três." E o grupo começa: "A Universidade Sénior traz mensagem de amor, aqui vem dar boas festas e louvar o redentor. Vimos cantar as janeiras, para cumprir a tradição, vimos desejar-lhe paz, do fundo do coração...". Terminada esta, ainda cantam outra: "Ó minha Rosinha eu hei de te amar, de dia ao sol, de noite ao luar..."

No final das cantigas: "Então, gostou?", pergunta Fernando Moreira a Carminda Silva. "Gostei muito! Só que agora já não canto. Quando era nova tinha uma voz muito linda, agora já não", diz, sorrindo, a mulher que fará 75 anos no dia 31 de março. "Com um jeitinho ainda voltamos cá no dia do seu aniversário", torna ele. "Isso é que era!", entusiasma-se ela. Só lamenta "não ter uma garrafinha de vinho do Porto para lhes oferecer no fim".

Carminda vive sozinha nos arredores de Bustelo, num barraco de poucos metros quadrados, sem água, luz e casa de banho. O espaço dá para a cama, uma cadeira e pouco mais sobra. É uma das mais de cem pessoas que a GNR de Amarante acompanha durante o ano. Porque vivem sozinhas ou isoladas, ou porque a sua situação é de grande fragilidade. "Os homens da GNR ainda são melhores que família. Tenho alguma que não se interessa e eles vêm bater-me à porta", queixa-se a mulher, que apenas tem um irmão por companhia esporádica.

Um pouco mais acima de Bustelo fica a aldeia de Carneiro. É lá que vive sozinha Maria da Conceição Ribeiro, de 83 anos. Também ela vem à porta de casa ouvir a Tuna da Universidade Sénior de Amarante. "Foi uma surpresa muito bonita, trouxeram um bocadinho de alegria, porque a gente vive aqui na escuridão", lastima-se a senhora. Maria da Conceição também é visitada frequentemente pela GNR. Já calhou a patrulha ir lá durante uma madrugada em que a tentaram assaltar. "Os vizinhos deram conta, vieram acudir a tempo e o homem fugiu sem levar nada", recorda.

O capitão Luís Alves, comandante do Destacamento da GNR de Amarante, explica que o objetivo desta presença regular junto dos velhos mais vulneráveis do concelho visa "evitar que caiam no conto do vigário". Pede-lhe para que "informem sempre a Guarda em caso de ocorrerem situações estranhas".

Foi no âmbito deste patrulhamento de proximidade, junto de mais de 100 pessoas identificadas no concelho, que a Câmara Municipal de Amarante levou a Tuna da Universidade Sénior para lhes cantar as janeiras à porta.

De acordo com o vereador Jorge Ricardo, em boa hora foi colocada no terreno. "É com muita satisfação que vemos a felicidade espelhada no rosto das pessoas a quem vimos cantar as janeiras, mas também dos alunos da Universidade Sénior", salienta o autarca. Diz-se satisfeito por ver que esta instituição cumpre o objetivo de promover "o envelhecimento ativo através da música e de atividades educativas e sociais".

A opinião é partilhada por Fernando Moreira, professor naquela universidade. O sargento do Exército na reserva, que já foi músico profissional e dirigiu bandas de música, tem tido uma "experiência muito gratificante". Embora a música popular não seja a sua praia, teve de se atualizar para se adaptar "ao quadro de pessoas a quem é preciso agradar". É o caso das janeiras cantadas à porta dos velhos desprotegidos do concelho de Amarante. Iniciativa "muito especial", mesmo para os alunos da universidade. "Ver um sorriso, às vezes até umas lágrimas, é uma coisa que nos enche o coração", destaca o maestro.

Quem se emociona com que o faz é Helena Gaspar, de 79 anos, que integra a tuna. "Isto faz-me muito feliz. Tenho a sensação de que se não viesse alguma coisa me faltaria", confessa, lembrando "as velhinhas que estão distantes de tudo" e a quem a tuna leva "conforto e alegria". "É qualquer coisa de formidável!" Elvira Novais, 80 anos, também sublinha o "prazer" que tem ao dar uns "momentos de felicidade" a quem vive sozinho.

A Tuna da Universidade Sénior de Amarante andou esta semana a cantar as janeiras aos mais velhos do concelho, que vivem sozinhos ou isolados. Uns são felizes por dar, outros por receber. Para o ano, há mais.

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