João Rendeiro
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João Rendeiro: de 'self made man' a "poderoso fraco"

De origens humildes, João Rendeiro subiu a pulso e conseguiu fazer fortuna, mas os crimes fizeram-no cair em desgraça. Conheça a vida do fundador do falido Banco Privado Português.

Filho de um sapateiro da Murtosa, em Aveiro, João Rendeiro formou-se em economia e, em 1996, fundou o Banco Privado Português. Via-se nos negócios. Na vila onde passou parte da infância, muitos sabem que tem ali raízes, mas são poucos os que se lembram de o ver. A família vendeu a casa na zona nos anos 90 por três mil contos (15 mil euros).

Estudou e trabalhou entre Portugal e Inglaterra, antes de criar o BPP. O banco ficaria conhecido como sendo dos ricos - definição que recusava -, e do qual seria afastado pelo Banco de Portugal 12 anos depois. Criou também o fundo Gestifundo, que lhe rendeu dinheiro na venda ao Totta.

Depois de deixar a Murtosa, a família mudou-se para Campo de Ourique, em Lisboa. No liceu Pedro Nunes, na Lapa, criou as primeiras inimizades. Contou, mais tarde, que os "meninos da Lapa" o desprezavam e chamavam de rufia. Ódios que juntou, nos anos seguintes, aos juízes que o foram condenando em tribunal e aos jornalistas.

Maria de Jesus Rendeiro, a "mulher extraordinária"

Foi ainda na Murtosa, terra de origem dos pais, que Rendeiro conheceu e casou com Maria de Jesus da Silva de Matos Rendeiro, também de 69 anos. Com 20 anos trocaram juras de amor eterno a 8 de agosto de 1972, numa festa com a família e os amigos, na igreja paroquial de Santa Maria da Murtosa.

Na biografia "João Rendeiro - Testemunho de um banqueiro", da autoria da jornalista Myriam Gaspar, o ex-banqueiro refere-se sempre a Maria de Jesus como uma "mulher extraordinária".

"A Maria foi sempre uma companheira extraordinária. Trabalhou em várias empresas até 1999, ano em que parou para me poder acompanhar nas sucessivas viagens que fazia por causa do BPP", contou.

Da fortuna à desgraça

A ascensão de João Rendeiro começou a desenhar-se em 1986, altura em que criou a Gestifundo com dois sócios. Investiu 25 mil euros e dez anos depois vendeu o fundo ao Totta, por 15 milhões. Em 1996 comprou a Incofina ao BCP, contando com investidores como Pinto Balsemão e Joe Berardo. Compra essa que levaria à criação do BPP, com clientes de topo. Quando tudo começou a correr mal, muitos dos investidores perderam tudo.

"Um deles era eu, um dos maiores. Perdi mais de 4 milhões de euros. As pessoas investem por sua conta e risco, todos os dias os investidores perdem e ganham dinheiro no mercado de capitais", contou numa entrevista à TVI.

Apesar da pequena dimensão do banco, a falência do BPP lesou milhares de clientes e causou perdas de centenas de milhões de euros ao Estado, tendo ainda tido importantes repercussões devido a potenciais efeitos de contágio ao restante sistema quando se vivia uma crise financeira.

O colapso do banco deu-se no final de 2008, durante a crise financeira, mas a falência só seria oficial em 2010, por erros de gestão e violação das regras impostas pelos reguladores.

"As pessoas estão muito preocupadas com o meu património, eu não estou", dizia na altura.

Segundo a Comissão Liquidatária do BPP, a queda do banco deixou seis mil credores com 1600 euros por receber. Atualmente já passou mais de uma década, mas o processo de liquidação ainda não está resolvido. O Estado já recebeu mais de 405 milhões de euros em pagamentos, mas os credores comuns ainda não.

João Pedro Oliveira e Costa, presidente do BPI, defendeu, numa entrevista ao Negócios e à Antena 1 em fevereiro deste ano, que os processos como aqueles que envolvem João Rendeiro acabam por "minar por completo" a imagem da banca e lembrou que o ex-banqueiro "já causava muitos danos" quando estava à frente do BPP.

Os crimes, a fuga e a morte

João Rendeiro foi condenando a três anos e seis meses de prisão efetiva por burla qualificada em setembro de 2021. Não esteve presente na audiência porque se encontrava em Londres e, no mesmo dia, anunciou que não voltaria a Portugal para cumprir pena de prisão efetiva.

"No decurso dos processos em que fui acusado efetuei várias deslocações ao estrangeiro, tendo comunicado sempre o facto aos processos respetivos. De todas as vezes regressei a Portugal. Desta feita não tenciono regressar", podia ler-se no comunicado publicado na altura no seu blogue "Arma Crítica". Perante esta decisão, o tribunal deu-lhe até 1 de outubro para regressar ao país, para que fosse revista a medida de coação de termo de identidade e residência. Não regressou.

Três das obras de arte de Rendeiro, que estavam arrestadas pela justiça e ao cuidado da mulher, Maria de Jesus, foram vendidas pela leiloeira Christie's entre março e outubro de 2021, avançava o Expresso no final de outubro. Uma das vendas aconteceu no dia em que o ex-banqueiro foi condenado a dez anos de prisão e a outra quando já estava em fuga.

Quinze das obras de arte arrestadas estavam então em parte incerta, o que levou Maria de Jesus Rendeiro à justiça. A mulher só encontrou sete das obras de arte e era suspeita de crime de descaminho, que pode ser punido com pena de prisão até cinco anos.

Maria de Jesus Rendeiro seria mesmo detida no início de novembro, por "forte perigo de fuga". Acabou por ficar em prisão domiciliária. Algumas semanas depois, no final desse mês, o ex-banqueiro deu à CNN Portugal a única entrevista durante a fuga e confessou que não tencionava voltar a Portugal, a não ser que fosse ilibado ou alvo de indulto do Presidente da República.

"Como nunca paguei nada a ninguém e não tenho segredos de Estado, sou um poderoso fraco", afirmou João Rendeiro ao canal de televisão, depois de comparar a sua situação com a de Ricardo Salgado, que dizia ser "protegido pelo sistema".

Durante essa entrevista, Rendeiro também garantiu que foi Carlos do Paulo, o seu advogado, quem elaborou o plano de fuga. Algo que o advogado veio negar.

Pouco mais de duas semanas depois da entrevista, às 7h de Durban, na África do Sul, o ex-banqueiro foi detido. Três dias depois seria presente ao juiz do tribunal de Verulam, nos subúrbios de Durban.

A defesa, representada pela advogada June Marks, queria que João Rendeiro fosse libertado sob fiança. No entanto, o juiz sul-africano rejeitou a libertação e proposta de caução, justificando a decisão com a possibilidade de perigo de fuga, tendo em conta o historial de João Rendeiro. Ficou detido numa prisão na África do Sul, onde acabaria por morrer.

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